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ED 052
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Vossa ou Sua Excelência: quem lê o ofício e quem é citado nele

Vossa Excelência fala com a autoridade e pede verbo na terceira pessoa; Sua Excelência fala dela para outra pessoa.

Minuta de ofício com a palavra vossa circulada a caneta vermelha.

O possessivo circulado na minuta do ofício

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Na minuta do chefe de gabinete estava escrito: "Informo a Vossa Excelência que vossa proposta foi aprovada." A frase soa solene e passa por duas revisões sem ninguém notar o erro. O correto é "Informo a Vossa Excelência que sua proposta foi aprovada".

Vossa Excelência é pronome de tratamento (a forma de cerimônia usada para se dirigir a autoridades). Ele se dirige a quem lê, a segunda pessoa da conversa, mas o verbo e o possessivo que o acompanham vão para a terceira pessoa. Diz-se "Vossa Excelência sabe", nunca "Vossa Excelência sabeis".

A razão está na própria fórmula. O pronome não aponta para a pessoa diretamente; aponta para uma qualidade dela, a excelência. Quem escreve "Vossa Excelência decidiu" está dizendo, ao pé da letra, que a excelência da autoridade decidiu. O núcleo da expressão é um substantivo, e substantivo pede verbo na terceira pessoa.

Daí vem a confusão com o possessivo. O vossa que abre o pronome é peça fixa da fórmula e não autoriza vossa, vosso ou vós no restante da frase. Depois que o tratamento aparece, o texto segue com seu, sua, lhe e o.

A segunda troca comum é entre Vossa e Sua. As duas formas existem e têm funções diferentes. Vossa Excelência serve para falar com a autoridade: no ofício endereçado a ela, no discurso feito diante dela. Sua Excelência serve para falar sobre a autoridade com uma terceira pessoa: "Sua Excelência o Ministro chegará às 10h".

As duas regras estão escritas no Manual de Redação da Presidência da República, publicado pela Casa Civil, que orienta a comunicação oficial do Executivo federal. As bancas de concurso tiram dele boa parte das questões de redação oficial, e a concordância do pronome de tratamento aparece com frequência.

A primeira seção mostra por que a fórmula mistura as pessoas gramaticais. A segunda organiza a regra do Manual, com o adjetivo, o vocativo e a crase. A terceira monta um teste para revisar um ofício em poucos segundos.

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I  A Dúvida do Dia

Duas pessoas numa fórmula só

Por que o verbo vai para a terceira pessoa.

O pronome de tratamento mistura duas pessoas gramaticais: fala com quem lê e conjuga como quem é citado. Em "Vossa Excelência aprovou o projeto", a autoridade é a interlocutora, mas o verbo aprovou está na forma de "ele aprovou". A gramática chama o fenômeno de concordância na terceira pessoa.

O modelo veio da corte portuguesa. Ao rei não se falava de frente: falava-se à qualidade atribuída a ele, com Vossa Majestade, Vossa Alteza, Vossa Mercê. Dirigir a palavra à majestade, e não ao homem, era uma forma de distância e respeito.

Vossa Mercê mostra onde a fórmula foi parar. De tanto uso, virou vossemecê, depois vosmecê e, por fim, você. O pronome mais comum do português brasileiro é um tratamento de cerimônia gasto pelo uso, e por essa origem também pede verbo na terceira pessoa na norma culta: "você sabe".

A comparação ajuda a revisar. Ninguém escreve "você sabeis" nem "você trouxestes vosso livro". Vossa Excelência obedece à lógica de você, só que no alto da escala de formalidade.

O erro nasce da palavra vossa. Ela lembra a conjugação de vós, e quem escreve arrasta o resto da frase para a segunda pessoa do plural: "Vossa Excelência vos preocupais com vossos eleitores". A versão certa é "Vossa Excelência se preocupa com seus eleitores".

O possessivo seu cria uma ambiguidade que o português resolve com dele. Em "Vossa Excelência recebeu o deputado e seu relatório", o relatório pode ser da autoridade ou do deputado. Se for do deputado, escreva "o relatório dele". Se for da autoridade, reorganize: "Vossa Excelência recebeu seu relatório e o deputado".

Os pronomes oblíquos (os que funcionam como complemento do verbo, como o, a, lhe) seguem a terceira pessoa. "Solicito a Vossa Excelência que me receba" e "agradeço-lhe a atenção" estão certas. "Agradeço-vos a atenção", num ofício que começou com Vossa Excelência, mistura as pessoas.

Sua Excelência nasce do mesmo mecanismo, com outro ponto de vista. Quem fala sobre a autoridade aponta para a excelência de alguém ausente da conversa, e o possessivo de terceira pessoa já aparece na fórmula. Daí o cerimonial anuncia "Sua Excelência o Governador" quando ele entra no salão, e o orador, já diante dele, passa a dizer Vossa Excelência.

 
 

II  A Regra

O que manda o Manual

Vossa Excelência se usa para falar com a autoridade; Sua Excelência, para falar sobre ela. Nos dois casos, verbo, possessivo e pronome oblíquo ficam na terceira pessoa.

O Manual de Redação da Presidência da República trata a concordância como ponto de atenção, porque a forma se dirige à segunda pessoa e leva o resto da frase para a terceira. A segunda edição, de 2002, resume a regra numa linha:

"Embora se refiram à segunda pessoa gramatical (à pessoa com quem se fala, ou a quem se dirige a comunicação), levam a concordância para a terceira pessoa."

Manual de Redação da Presidência da República, 2ª edição, 2002

O adjetivo segue outra regra: concorda com o sexo da pessoa, e não com a palavra Excelência, que é feminina. Para um ministro, escreve-se "Vossa Excelência está convencido"; para uma ministra, "Vossa Excelência está convencida". Vale igual para Vossa Senhoria: "Vossa Senhoria será informado", se o destinatário for homem.

O Manual também fixa o vocativo (a linha de chamamento que abre a comunicação). "Excelentíssimo Senhor" fica reservado aos chefes de Poder: "Excelentíssimo Senhor Presidente da República", "Excelentíssimo Senhor Presidente do Supremo Tribunal Federal". As demais autoridades recebem "Senhor" ou "Senhora" seguido do cargo: "Senhor Senador", "Senhora Ministra".

Três enfeites de ofício antigo ficaram de fora. Digníssimo saiu, porque a dignidade é pressuposto de quem ocupa cargo público. Ilustríssimo, antes de Vossa Senhoria, também saiu. E doutor não é forma de tratamento: cabe a quem concluiu doutorado, não a todo advogado ou médico.

A lista de quem recebe Vossa Excelência cobre os três Poderes. No Executivo, presidente, vice-presidente, ministros de Estado, governadores e prefeitos. No Legislativo, deputados e senadores. No Judiciário, ministros dos tribunais superiores, desembargadores e juízes. As demais autoridades e os particulares recebem Vossa Senhoria.

A crase também entra na regra. Pronome de tratamento com Vossa ou Sua recusa artigo, e sem artigo não há crase: "Encaminho a Vossa Excelência", "Solicito a Sua Excelência". A exceção é senhora, que aceita artigo: "Encaminho à senhora".

O mesmo documento pode trazer as duas formas, cada uma no seu papel. O corpo do texto conversa com o destinatário por Vossa Excelência; se o ofício menciona outra autoridade, ela aparece como Sua Excelência: "Informo a Vossa Excelência que Sua Excelência o Governador confirmou presença".

 

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III  O Teste

Três perguntas ao ofício

1. Pergunte a quem o texto se dirige. Se fala com a autoridade, use Vossa; se fala dela com outra pessoa, use Sua.

2. Troque mentalmente o pronome por você. Se a frase soar errada com você ("você sabeis", "você e vossa equipe"), está errada com Vossa Excelência também.

3. Confira o adjetivo pelo sexo de quem recebe o ofício: convencido para homem, convencida para mulher, sem se guiar pela palavra Excelência.

Aplicado à minuta do chefe de gabinete, o passo 2 resolve em segundos. "Informo a Vossa Excelência que vossa proposta foi aprovada" vira "informo a você que vossa proposta foi aprovada". O vossa soa estranho na hora, e a correção é sua proposta.

Outro caso de prova: "Vossa Excelência deveis comparecer à sessão." Com você, "você deveis comparecer" denuncia o erro. A forma certa é "Vossa Excelência deve comparecer à sessão".

O passo 1 pega a troca de ponto de vista. Num comunicado interno que avisa os servidores da visita, "Vossa Excelência o Ministro visitará o setor na quinta-feira" está errado, porque o texto fala com os servidores, e não com o ministro. A forma certa é "Sua Excelência o Ministro visitará o setor na quinta-feira".

O passo 3 resolve a dúvida do particípio. Para a senadora, "Vossa Excelência foi eleita presidente da comissão". Para o senador, "Vossa Excelência foi eleito presidente da comissão". A palavra Excelência é feminina nos dois casos, e o particípio segue a pessoa real.

As bancas costumam montar a questão com quatro frases de um ofício e pedir a que respeita o Manual. Os distratores repetem três erros: verbo na segunda pessoa do plural, possessivo vosso ou vossa depois do pronome, e Vossa no lugar de Sua quando o texto apenas menciona a autoridade.

No email formal ao cliente ou ao chefe, a regra se aplica igual a Vossa Senhoria e a o senhor. Quem abre com "Prezado senhor" e termina com "conto com vossa compreensão" troca de registro no caminho; "conto com sua compreensão" mantém a frase inteira na terceira pessoa.

Vossa Excelência para quem lê o ofício, Sua Excelência para quem é mencionado nele; nos dois, verbo e possessivo ficam na terceira pessoa, e o adjetivo segue o sexo da autoridade.

"No último email formal que você escreveu a um chefe ou cliente, o tratamento começou num registro e terminou em outro?"

Confira antes de enviar: nenhum vós, vosso ou vossa depois de Vossa Excelência,
Sua Excelência só para a autoridade citada, que não lê o texto,
convencido ou convencida conforme quem recebe o ofício.

 
 

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