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I A Dúvida do Dia
Um som, duas classes de palavra
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A resposta de ontem Em que cidade nasceu o gramático Evanildo Bechara? Evanildo Bechara nasceu no Recife, em 26 de fevereiro de 1928, e ainda menino foi morar no Rio de Janeiro com um tio. Lá se formou em letras, lecionou na UERJ e na UFF, publicou a Moderna Gramática Portuguesa em 1961 e entrou para a Academia Brasileira de Letras em 2000, na cadeira 33. |
De onde vem o g do substantivo e o j do verbo.
Viagem, com g, é substantivo. Viajem, com j, é o verbo viajar no subjuntivo. O VOLP registra as duas, cada uma no seu verbete.
O substantivo veio de longe. Viagem chegou ao português pelo provençal viatge (percurso, jornada), que por sua vez vinha do latim viaticum, a provisão de comida e dinheiro que o viajante romano levava para a estrada.
O latim viaticum deixou outro descendente no português: viático. A palavra guardou dois sentidos, a ajuda de custo do servidor em deslocamento e a comunhão levada ao doente em perigo de vida.
O verbo nasceu depois, do próprio substantivo. Quem fazia viagem passou a viajar, e o verbo ganhou o radical viaj-, com j, que se mantém em todas as formas: viajo, viajava, viajarei, viaje, viajem.
A grafia do substantivo segue um padrão maior. O Formulário Ortográfico de 1943, conjunto de instruções da Academia Brasileira de Letras para a escrita no Brasil, manda escrever com g os substantivos terminados em -agem, -igem e -ugem: garagem, mensagem, origem, ferrugem.
As exceções a esse padrão são poucas. A mais conhecida é pajem (o rapaz que servia a um nobre), escrita com j apesar da terminação.
A grafia do verbo segue outro padrão. Verbo terminado em -jar conserva o j em toda a conjugação: viajar, despejar, encorajar, arranjar. Que eles despejem, que vocês encorajem, que elas arranjem.
O subjuntivo é o modo do desejo, da dúvida e do pedido educado. Daí a frequência com que aparece no email de despedida: espero que viajem, tomara que viajem, desejo que viajem.
A mesma forma serve ao imperativo (modo da ordem ou do convite) na terceira pessoa do plural: viajem com calma, senhores passageiros. A frase do alto-falante do aeroporto leva j.
Com as duas palavras corretas no dicionário, o erro só aparece no contexto. Boa viajem coloca um verbo onde a frase pede um substantivo. Que eles viagem coloca um substantivo onde a frase pede um verbo.
Por esse caminho, o par entra na lista das palavras que o corretor não pega, ao lado de mas e mais, mal e mau, a e há. Em todos esses casos, a máquina confirma que a palavra existe e deixa a escolha com quem escreve.
O português de Portugal segue a mesma regra. Lá, a pronúncia também iguala o g e o j antes de e, e a escrita separa as duas formas pelo mesmo critério de classe.
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II A Regra
Substantivo leva g, verbo leva j
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Depois de artigo, adjetivo ou preposição, escreva viagem. Depois de que, de sujeito no plural ou numa ordem, escreva viajem.
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O primeiro sinal é o artigo. A viagem, uma viagem, essa viagem: palavra precedida de artigo ou de pronome demonstrativo é substantivo e leva g.
O segundo sinal é o adjetivo. Boa viagem, longa viagem, viagem curta, viagem inesquecível. Adjetivo qualifica substantivo, e substantivo leva g.
O terceiro sinal é a preposição. De viagem, em viagem, para a viagem, agência de viagem, mala de viagem, seguro-viagem. Todas pedem o g.
Do lado do verbo, a pista mais forte é o que antes da palavra. Espero que viajem, é bom que viajem, antes que viajem, caso viajem: o que e o caso abrem caminho para o subjuntivo.
O sujeito no plural reforça a pista. Eles viajem, vocês viajem, os alunos viajem: se há alguém fazendo a ação, a palavra é verbo e leva j.
O plural do substantivo encerra qualquer dúvida. Viagens, com g e com n, nunca viajens. A forma viajens não aparece no VOLP nem em dicionário algum.
O singular do verbo ajuda tanto quanto o plural do substantivo. No singular, a forma é viaje: que ele viaje, viaje tranquilo. Ninguém escreve que ele viage, e a comparação lembra que o verbo carrega o j.
O indicativo também ajuda. Eles viajam, no presente comum, leva j sem que ninguém hesite. O subjuntivo viajem é o mesmo verbo com outra terminação, e a letra do radical continua a mesma.
No futuro do subjuntivo, outra forma do mesmo verbo, a terminação cresce e o j fica: quando eles viajarem, se vocês viajarem. A frase da agência, se viajarem fora da alta temporada, pagam menos, segue a mesma lógica.
Nas provas de ortografia, as bancas costumam juntar o par numa questão de quatro frases. A pegadinha mais frequente é a frase com adjetivo, boa viajem, porque o leitor apressado reconhece a palavra e marca como certa.
Uma frase só pode trazer as duas formas, e as duas corretas. Desejamos boa viagem a todos e que viajem em segurança: o primeiro termo vem depois de adjetivo, o segundo vem depois de que.
Alguns corretores mais novos analisam a frase inteira e às vezes sinalizam a troca. A ferramenta do email, do celular e do formulário de cadastro, porém, costuma checar só a lista de palavras, e a decisão continua na mão de quem digita.
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