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Vendem-se casas, precisa-se de vendedores
Com a partícula se, o verbo vai ao plural quando o complemento é direto e trava no singular quando aparece preposição no caminho.
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A placa decide o número do verbo
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Avitrine da imobiliária carrega duas linhas impressas no mesmo cartaz. Vendem-se casas, diz a de cima. Precisa-se de vendedores, diz a de baixo. As duas frases saíram da mesma pessoa, no mesmo dia, e as duas estão corretas exatamente como estão.
O pronome se aparece nas duas, colado ao verbo pelo hífen, e cumpre uma função diferente em cada uma. Na primeira, ele apassiva a oração, e casas deixa de ser complemento para assumir o posto de sujeito. Na segunda, ele apenas apaga quem pratica a ação, e a frase segue sem sujeito nenhum.
A concordância obedece a essa divisão sem negociar. Quando o pronome apassiva, o verbo encontra um sujeito e vai atrás dele: nome no plural, verbo no plural. Quando o pronome só indetermina, não existe sujeito para puxar a flexão, e o verbo fica parado na terceira pessoa do singular.
A peça que decide a divisão é minúscula e passa despercebida na leitura rápida. Complemento direto encosta no verbo sem intermediário, e nome desimpedido pode subir a sujeito. Complemento indireto chega preposicionado, e a preposição funciona como trava: nome preposicionado não vira sujeito de coisa nenhuma.
A placa de rua erra sempre na mesma direção, e o cartaz da imobiliária virou o exemplo mais fotografado do país. Aluga-se salas, conserta-se computadores, contrata-se representantes: em todas elas o verbo ficou no singular enquanto o sujeito estava no plural, a dois centímetros de distância.
A prova aproveita a placa e aumenta a dose. A banca afasta o sujeito do verbo com uma vírgula e um adjunto no meio, para que a concordância pareça dispensável, e quem lê no automático deixa o verbo parado onde ele estava.
A questão de hoje começa pela forma como a dúvida chega, com o mesmo pronome puxando dois números diferentes. Depois vem a regra que amarra o número à presença da preposição, o caso das locuções verbais, e o teste que resolve a frase antes de você mandar imprimir.
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I A Dúvida do Dia
O complemento decide o número
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Duas linhas do mesmo cartaz, e o verbo muda de número.
A dúvida chega quase sempre nesta forma: vendem-se casas ou vende-se casas? As duas versões circulam em placa de vitrine, em anúncio de classificado e em contrato assinado, e a maioria dos leitores passa por elas sem parar.
A norma escrita reconhece uma só. O verbo vender pede complemento direto, casas ocupa exatamente esse posto, e o pronome se transfere o posto de lugar: casas deixa de ser complemento e vira o sujeito da frase. Sujeito no plural, verbo no plural, e a forma cobrada é vendem-se casas.
Troque o número do nome e a frase acompanha na hora. Vende-se uma casa fica no singular porque o sujeito está no singular, e vendem-se duas casas volta ao plural pelo mesmo motivo. O pronome não mudou de forma em nenhum momento, e o verbo mudou nas duas vezes.
Agora troque o verbo e a frase para de se mexer. Precisa-se de vendedores fica no singular mesmo com o nome no plural, porque precisar exige a preposição de, e vendedores chega preposicionado. Nome preposicionado não assume o posto de sujeito, e sem sujeito o verbo não tem com quem concordar.
A origem do escorregão é fácil de reconstruir. Quem escreve lê vende-se como um bloco fixo, uma espécie de carimbo comercial que serve para qualquer anúncio, e carimbo não flexiona. O bloco acerta em vende-se casa e falha em vende-se casas, com a mesma confiança nas duas vezes.
O erro tem duas direções, e a segunda nasce da tentativa de acertar. A primeira é deixar o verbo no singular onde o plural é obrigatório, em vende-se casas. A segunda é levar o verbo ao plural onde ele não cabe, em precisam-se de vendedores, e a versão tem cara de texto revisado, difícil de flagrar na releitura.
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O pronome não muda de forma, muda de função, e a função aparece no número do verbo.
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A banca raramente entrega a frase nua. O primeiro disfarce é o afastamento: vendem-se, na região central da cidade, casas de dois quartos. Entre o verbo e o sujeito entram sete palavras, e o olho cansado devolve o verbo ao singular.
O segundo disfarce é o verbo que parece direto e não é. Assistir a, obedecer a, referir-se a, recorrer a e necessitar de aparecem no item com aparência de transitivo direto, e a preposição escondida trava o verbo no singular: assiste-se a bons filmes, obedece-se a normas rígidas.
O terceiro disfarce é a locução verbal. Quando o verbo principal vem no infinitivo, a flexão sobe para o auxiliar, e a alternativa correta é podem-se fazer alterações, com o sujeito no plural puxando o auxiliar.
A mesma construção circula longe da sala de prova. A linha aluga-se salas comerciais abre anúncio de imobiliária, conserta-se computadores aparece em porta de loja, e contrata-se representantes chega por email de recrutamento.
Quem lê o anúncio quase nunca comenta a concordância, e quem estuda para prova não tem a mesma sorte. Ali a construção vira alternativa marcada em vermelho, com ponto perdido no espelho de correção e nenhum recurso depois do gabarito.
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II A Regra
Sem preposição, o verbo concorda
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Com o pronome se colado a verbo transitivo direto, o complemento é promovido a sujeito e o verbo concorda com ele: vendem-se casas, alugam-se salas, conserta-se um relógio. Com verbo transitivo indireto, intransitivo ou de ligação, não existe sujeito para concordar, e o verbo fica travado na terceira pessoa do singular: precisa-se de vendedores, vive-se bem no interior, é-se responsável pelo que assina.
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A regra cabe em duas linhas porque o mecanismo é de transitividade. Verbo transitivo direto liga-se ao complemento sem intermediário, e nome desimpedido sobe a sujeito. Verbo que exige preposição mantém o nome no posto de complemento, e o verbo fica sem par para concordar.
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"Na passiva pronominal, o verbo concorda com o sujeito paciente."
Celso Cunha, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985
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A gramática dá dois nomes ao mesmo pronome, e os nomes entregam a função. Colado a verbo transitivo direto, ele se chama partícula apassivadora, porque monta uma voz passiva sem o verbo ser. Colado aos demais, chama-se índice de indeterminação do sujeito, porque apaga o agente sem promover ninguém.
O primeiro grupo é o mais movimentado do português comercial. Vender, alugar, consertar, fazer, contratar e corrigir pedem complemento direto, e todos concordam: vendem-se lotes, alugam-se quadras, fazem-se reformas, corrigem-se redações.
O segundo grupo é menor e vive nas provas. Precisar de, necessitar de, tratar de, assistir a, obedecer a e proceder a carregam a preposição desde o dicionário, e o verbo não sai do singular: precisa-se de vendedores, necessita-se de doadores, procede-se a exames.
Verbo intransitivo e verbo de ligação entram no mesmo time do singular, e ali a tentação de flexionar é menor. Vive-se bem no interior, trabalha-se demais em dezembro, dorme-se mal em véspera de prova e é-se responsável pelo que assina não admitem plural em construção nenhuma.
A locução verbal muda o endereço da flexão, não a regra. Com o verbo principal no infinitivo, quem concorda é o auxiliar: podem-se fazer alterações, devem-se registrar as ocorrências, costumam-se cobrar taxas de manutenção. O sujeito continua sendo o nome no plural, e o infinitivo continua intacto.
Uma construção merece registro à parte porque aparece em texto formal toda semana. Trata-se de fica sempre no singular: trata-se de um caso, trata-se de dois casos, trata-se de questões antigas. O verbo tratar exige aqui a preposição de, e tratam-se de casos é desvio puro.
Vale registrar o outro lado, para não sobrar plural na frase. Quando o nome ao lado do verbo transitivo direto está no singular, o verbo desce junto: aluga-se sala, vende-se casa, conserta-se relógio, todos corretos e todos sem plural nenhum.
Quem não quiser lidar com a decisão tem uma saída limpa, que é abandonar o pronome. As frases as casas estão à venda e procuramos vendedores entregam a mesma informação sem o se no caminho e sem risco de concordância nenhum.
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