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Troque convidei-lhe por convidei-o na reunião

Convidar, chamar, ver e visitar pedem o ou a. A banca disfarça o lhe com cara de frase educada.

Convite impresso com um pronome riscado e corrigido à caneta.

Convidei-o, chamei-a, vi-os, visitei-as

▼
 

O email do coordenador abria assim: “Convidei-lhe para a reunião de quinta.” A forma certa é convidei-o, e o lhe ali está no lugar de um pronome que não lhe pertence.

A frase parece caprichada. Tem pronome depois do verbo, tem hífen, tem jeito de texto revisado. Quem lê sente a formalidade e aprova, porque lhe soa mais elegante que o, uma letra só, quase sem peso.

Na fala, o brasileiro resolve a frase de outro modo: convidei ele, vi ela no corredor, chamei eles para o almoço. Na hora de escrever, a pessoa percebe que convidei ele não serve para email de trabalho e procura uma forma mais culta. O lhe aparece primeiro na memória, e entra.

Os gramáticos chamam a troca de hipercorreção (erro cometido na tentativa de acertar). O falante corrige a frase informal, passa da conta e chega a outra forma fora da norma padrão. O erro nasce de boa intenção, e sobrevive justamente em convite, ofício e carta de boas-vindas.

Em parte do Nordeste, a fala usa lhe como forma de tratamento para você: eu lhe vi na feira, vou lhe visitar no domingo. É um uso regional legítimo na conversa. A norma padrão, que é a cobrada em prova e em documento oficial, não aceita a construção nesses verbos.

Na prova, a banca raramente escreve convidei-lhe solto. Ela põe o pronome numa frase de ofício (texto formal de repartição): a diretoria lhe convida para a cerimônia, tive o prazer de lhe conhecer. O tom solene distrai, e o candidato marca a alternativa como correta.

O problema não depende do verbo convidar. Chamar, ver, visitar, conhecer, encontrar, avisar e cumprimentar caem na mesma armadilha, e todos pedem o mesmo tipo de pronome.

A primeira seção mostra por que convidar recusa o lhe e quais formas o pronome assume conforme a terminação do verbo.

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I  A Dúvida do Dia

Quem foi convidado

Por que convidar recusa o lhe na norma padrão.

Convidar, chamar, ver e visitar pedem o, a, os ou as: convidei-o, chamei-a, vi-os, visitei-as.

Na frase do coordenador, quem recebe o convite é o próprio colega. Ele é o objeto direto do verbo (o complemento que o verbo atinge sem intermediário). Para objeto direto, a norma reserva os pronomes o, a, os e as.

Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo (1985), dividem os pronomes oblíquos átonos (pronomes sem acento próprio que se apoiam no verbo) em dois grupos. O, a, os e as funcionam como objeto direto. Lhe e lhes funcionam como objeto indireto (complemento que o verbo alcança por meio de outro termo).

Convidar pertence ao primeiro grupo. Quem convida, convida alguém, e esse alguém é atingido em cheio. Daí convidei-o, convidei-a, convidei-os para a reunião.

Ver segue a mesma linha. Vi o diretor no corredor vira vi-o no corredor, ou o vi no corredor. Eu lhe vi ontem, comum na fala, fica fora da norma padrão.

Visitar e conhecer também. Visitamos a avó no domingo vira visitamo-la no domingo. Prazer em conhecê-lo é a forma culta; prazer em lhe conhecer, embora educada no tom, é erro de regência.

O lhe tem lugar certo em verbos de dois complementos, aqueles em que alguém dá, entrega ou mostra algo a outra pessoa. Dei-lhe o relatório: o relatório é o objeto entregue, e o lhe indica quem recebeu. Nessas frases convivem os dois tipos de pronome.

Convidar não tem esse segundo complemento. A pessoa convidada é o único alvo do verbo, e o lugar dela fica com o pronome o.

O pronome o muda de forma conforme a terminação do verbo. Depois de verbo terminado em r, s ou z, a consoante cai e o pronome ganha um l: convidar mais o vira convidá-lo; fiz mais o vira fi-lo; convidamos mais a vira convidamo-la.

Depois de verbo terminado em som nasal (am, em, ão, õe), o pronome ganha um n: convidaram-no, chamam-na, põe-nos. A forma soa estranha a quem não está acostumado, mas é a prevista pela norma.

Em frase negativa, o pronome sobe para antes do verbo, atraído pela palavra não: não o convidei, nunca a vi. A forma muda de lugar e continua sendo o.

 
 

II  A Regra

A voz passiva decide

Se a frase aceita a voz passiva com a pessoa como sujeito (ele foi convidado), o pronome é o. Se não aceita, o pronome pode ser lhe.

Saber a teoria do objeto direto ajuda pouco na hora da prova. O que resolve é um teste que funciona sem decorar lista de verbos: passar a frase para a voz passiva (construção em que quem sofre a ação vira sujeito).

Convidei o colega vira o colega foi convidado. A passiva funciona, então o colega é objeto direto, e o pronome certo é o: convidei-o.

Vi a diretora vira a diretora foi vista. Funciona. Pronome: vi-a.

Visitei os clientes vira os clientes foram visitados. Funciona. Pronome: visitei-os.

Agora o caso do lhe. Entreguei o relatório à gerente vira o relatório foi entregue à gerente, mas nunca a gerente foi entregue. Quem vira sujeito da passiva é o relatório, e a gerente fica de fora. Ela pede lhe: entreguei-lhe o relatório.

O teste separa os dois grupos sem depender da intuição. A pessoa que pode virar sujeito da passiva leva o ou a. A pessoa que não pode leva lhe.

Chamar tem uma exceção que a banca adora. No sentido de convocar, segue a regra: chamei-o para a reunião, ele foi chamado. No sentido de dar um nome ou um título a alguém, a gramática aceita as duas formas: chamaram-no de gênio e chamaram-lhe gênio. Cunha e Cintra registram as duas construções como corretas.

A exceção vale só para esse sentido. Se a frase fala de convocar, telefonar ou mandar vir, o lhe volta a ser erro.

Avisar e cumprimentar seguem o padrão de convidar. Avisei o gerente vira o gerente foi avisado, e o pronome certo é avisei-o. Cumprimentei a equipe vira a equipe foi cumprimentada, e a forma é cumprimentei-a.

Avisar ainda admite um segundo desenho: avisar algo a alguém. Avisei a mudança ao gerente vira avisei-lhe a mudança, porque o gerente deixou de ser o alvo direto. A frase avisei-o da mudança também está certa. O que nunca aparece é o pronome errado para o desenho escolhido.

Por fim, o pronome do tratamento. Quando você escreve para alguém e usa você ou o senhor, o pronome do objeto direto continua sendo o ou a: convido-o para a cerimônia, aguardo-a na recepção. A formalidade do texto não autoriza o lhe.

 

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III  O Teste

O convite do coordenador

Diante de qualquer frase com pronome átono depois ou antes do verbo, três passos resolvem a dúvida.

1. Ache o verbo e a pessoa. Separe quem pratica a ação e quem é atingido por ela.

2. Monte a voz passiva com a pessoa como sujeito. Ele foi convidado, ela foi vista, eles foram visitados.

3. Aplique o pronome que o teste pediu. Passiva possível pede o, a, os ou as. Passiva impossível com a pessoa como sujeito pode pedir lhe.

Aplicado ao email do coordenador: o colega foi convidado funciona. Resultado: convidei-o para a reunião de quinta.

Agora a questão no formato de concurso. Assinale a frase de acordo com a norma padrão: (A) A diretoria lhe convida para a cerimônia de posse. (B) Tive o prazer de lhe conhecer no congresso. (C) Encontrei-o na recepção e entreguei-lhe o crachá. (D) Eu lhe vi na saída e lhe chamei para o almoço.

A alternativa A usa lhe com convidar, verbo de objeto direto: a forma é a diretoria o convida. A B repete o erro com conhecer: tive o prazer de conhecê-lo. A D erra duas vezes, com ver e com chamar no sentido de convocar: eu o vi na saída e o chamei para o almoço.

A C acerta os dois pronomes e é o gabarito. Encontrar aceita a passiva (ele foi encontrado), então leva o. Entregar o crachá a alguém deixa a pessoa fora da passiva, então leva lhe.

A armadilha mais eficiente é a A, porque a frase tem tom de convite oficial e o lhe parece cortesia. O passo 2 desmonta a leitura: o senhor foi convidado pela diretoria funciona, e o pronome certo é o.

A D merece atenção por causa de chamar. Quem lembra da exceção de chamar alguém de algo pode achar que o lhe passa. Mas ali chamar é convocar para o almoço, sem título nenhum, e a exceção não se aplica.

No trabalho, o teste vale para convite, ofício e email de agradecimento. Antes de enviar, use a ferramenta de localizar do editor e procure lhe. Cada ocorrência passa pela voz passiva: se a pessoa pode virar sujeito, troque por o ou a.

Faça a mesma busca nos modelos prontos que circulam no escritório. Convite de evento e carta de boas-vindas costumam carregar lhe convida e prazer em lhe conhecer há anos, copiados de um arquivo para outro sem revisão.

“No último convite que você mandou, o lhe passaria pelo teste da voz passiva?”

Confira antes de enviar: zero lhe com convidar, ver ou visitar,
convidá-lo com l depois de verbo em r,
lhe só com quem recebe algo, como em entreguei-lhe o crachá.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, o que acontece ao pronome "o" depois de um verbo terminado em R, S ou Z, como em "convidar"?

AO pronome vira lhe automaticamente, como em convidei-lhe
BA consoante final do verbo cai e o pronome ganha um L, como em convidá-lo
CO verbo ganha um N antes do pronome, como em convidam-no
DO pronome sobe para antes do verbo, como em não o convidei

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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