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Todo dia e todo o dia assinam prazos diferentes

Sem artigo, todo vale por cada um. Com artigo, vale pelo inteiro. Uma letra muda o prazo da cláusula.

Cláusula de contrato com as palavras todo o dia circuladas a caneta.

Todo dia é cada dia; todo o dia é o dia inteiro

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Na recepção da academia, o atendente apontou a cláusula e resumiu: “O plano dá acesso todo o dia, pode vir quando quiser.” O cliente entendeu segunda a domingo. O papel, lido ao pé da letra, prometia outra cobertura: as horas inteiras de um dia.

A diferença cabe numa letra. Todo dia, sem artigo, quer dizer cada dia, um depois do outro. Todo o dia, com o artigo o, quer dizer o dia inteiro, da manhã à noite.

Na fala, as duas formas se misturam sem dano. Ninguém corrige o colega que diz trabalhei todo o dia querendo dizer trabalhei de manhã até a noite, nem a mãe que avisa todo dia tem feijão.

No papel assinado, a mistura cobra. A cláusula do aluguel de temporada diz que a piscina fica liberada todo o dia. O hóspede chega às 22h e encontra o portão trancado. O dono alega que liberou nos dias da reserva; o hóspede lê as 24 horas.

Quem tem razão depende de qual leitura o texto sustenta. Se a intenção era cada dia da semana, a forma precisa era todo dia. Se a intenção era a jornada inteira, a forma precisa era todo o dia, e o portão não podia fechar.

Evanildo Bechara, gramático da Academia Brasileira de Letras, registra a distinção na Moderna Gramática Portuguesa, obra de referência em concursos. Sem artigo, todo tem valor de qualquer ou cada; com artigo, tem valor de inteiro, total.

A banca de concurso gosta da dupla porque o erro passa despercebido. As duas frases soam corretas, as duas existem, e só o sentido pedido no enunciado decide qual vale.

O plural não ajuda a decidir. Todos os dias leva artigo sempre, e quer dizer cada dia; todos dias, sem o os, não aparece na escrita culta. A escolha difícil mora só no singular.

Logo abaixo, de onde vem a confusão entre as duas formas, a regra que separa cada um de inteiro e três trocas para conferir a cláusula antes de assinar.

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I  A Dúvida do Dia

A cláusula da piscina

A resposta de ontem

Qual palavra do espanhol nega como tampouco?

É tampoco, sem o u. O Diccionario de la lengua española, da Real Academia Española, registra tampoco como advérbio de negação usado para negar algo depois de outra negação, o mesmo papel do tampouco português, formado de tan e poco, como o nosso nasceu de tão e pouco.

Por que todo o dia e todo dia não cobrem o mesmo prazo.

Todo sem artigo distribui: aponta cada unidade de um conjunto. Todo com artigo soma: aponta uma unidade só, tomada por inteiro.

Na cláusula do aluguel, o dono escreveu todo o dia pensando na semana. O português do Brasil, falado, aceita a troca, e por esse motivo ele nem desconfiou da frase. O contrato, porém, se lê pela norma, e a norma dá à forma com artigo o sentido de dia inteiro.

A confusão tem raiz no ouvido. Na fala rápida, o artigo o depois de todo quase desaparece: todo o dia e todo dia saem com o mesmo som, e a criança aprende as duas como uma expressão só.

Em Portugal, o uso caminhou em outra direção. Lá, todos os dias cobre o sentido de cada dia, e todo o dia ficou reservado ao dia inteiro com mais firmeza. O brasileiro que lê um contrato português encontra a distinção aplicada à risca.

A gramática chama o todo de pronome indefinido (palavra que indica quantidade sem precisar o número). O artigo definido o, colocado depois dele, transforma a quantidade em totalidade: deixa de ser um dia qualquer e passa a ser aquele dia, inteiro.

O mesmo par aparece fora da cláusula. Toda casa tem um quintal quer dizer qualquer casa; toda a casa estava suja quer dizer a casa inteira. Na primeira frase, o leitor imagina várias casas; na segunda, uma só, de ponta a ponta.

Com nomes de lugar, a forma com artigo é a única que funciona. Todo o Brasil assistiu ao jogo quer dizer o país inteiro. Todo Brasil, sem artigo, soa estranho, porque não existem vários Brasis para distribuir.

Com mundo, as duas formas convivem. Todo mundo, no Brasil, virou expressão fixa para todas as pessoas, e Bechara aceita também todo o mundo com o mesmo sentido. Aqui o artigo não muda o prazo de nada.

Com dia, mês e ano, a diferença volta a pesar. Todo mês o boleto vence no dia 10 fala de uma cobrança mensal, repetida. Todo o mês o boleto ficou em aberto fala de um mês só, do primeiro ao último dia.

A cláusula da piscina tem desfecho previsível em qualquer leitura atenta. Escrita todo o dia, sustenta a leitura do hóspede, e o dono que queria só os dias da reserva precisava escrever todos os dias da estadia, das 8h às 20h.

 
 

II  A Regra

Cada um contra o inteiro

Para saber qual forma usar, pergunte se a frase conta repetições ou mede uma duração. Repetição pede todo sem artigo; duração pede todo o.

A regra tem base na Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, publicada pela editora Lucerna em 1999 na edição revista. Ali, o gramático descreve todo seguido de artigo como equivalente a inteiro e todo sem artigo como equivalente a cada, qualquer.

Os exemplos de repetição ficam sem artigo:

• Todo dia ela abre a loja às 9h.

• Toda semana o síndico confere o elevador.

• Todo ano o reajuste segue o índice do contrato.

Os exemplos de duração levam o artigo:

• Choveu todo o dia, sem parar.

• O síndico passou toda a semana fora.

• O reajuste ficou suspenso todo o ano de 2025.

Uma troca simples confirma a escolha. Se cada cabe no lugar de todo sem estragar a frase, a forma é sem artigo: cada dia ela abre a loja. Se inteiro cabe depois do substantivo, a forma é com artigo: choveu o dia inteiro.

O plural segue regra própria. Todos e todas pedem o artigo em quase toda frase: todos os dias, todas as cláusulas, todos os inquilinos. A forma todos dias, sem artigo, é marca de fala descuidada e cai como erro em prova.

A exceção do plural aparece com numeral. Todos três vieram à reunião dispensa o artigo, e todos os três vieram à reunião também é aceito. As duas formas querem dizer os três, sem faltar nenhum.

Outro ponto cobrado pela banca é a crase. Antes de toda, o acento grave nunca aparece, porque a preposição a encontra o pronome, e não um artigo: o prêmio vai a toda candidata aprovada, o aviso chegou a toda a turma. O artigo de toda a turma vem depois do pronome e não se junta à preposição.

Dentro do contrato, a escolha entre as formas é decisão de prazo. A cláusula de suporte técnico disponível todo o dia promete atendimento contínuo; a de suporte disponível todo dia útil promete atendimento em cada dia de semana, sem dizer o horário.

A forma mais segura, no papel assinado, é dispensar a ambiguidade. Escrever todos os dias, das 8h às 18h, ou durante as 24 horas do dia, tira a dúvida do leitor e da outra parte, sem depender do artigo.

 

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III  O Teste

Três trocas na cláusula

Diante de um todo na frase de um contrato, três trocas resolvem a leitura.

1. Troque todo por cada. Se a frase continua com sentido, como cada dia o portão abre, o texto fala de repetição, e a forma correta é todo dia, sem artigo.

2. Troque todo o por inteiro, depois do substantivo. Se a frase fica o dia inteiro o portão abre, o texto fala de duração, e a forma correta é todo o dia, com artigo.

3. Procure o horário. Cláusula de duração precisa dizer quando começa e quando termina; cláusula de repetição precisa dizer quais dias entram na conta.

Aplicado à academia: o plano dá acesso todo o dia vira o plano dá acesso o dia inteiro. Se a academia abre de segunda a sábado, das 6h às 22h, a frase certa é o plano dá acesso todo dia, no horário de funcionamento.

Aplicado à piscina: liberada todo o dia vira liberada o dia inteiro, e o hóspede tinha razão. Se o dono quisesse limitar o horário, a frase certa seria liberada todos os dias da estadia, das 8h às 20h.

Na prova, a questão costuma vir assim. Marque a frase em que todo indica o dia inteiro: (A) Todo dia o ônibus atrasa. (B) Ela estudou todo o dia para a prova. (C) Toda semana há reunião. (D) Todo ano o contrato renova.

As alternativas A, C e D falam de repetição: cada dia, cada semana, cada ano. Cada uma admite a troca por cada sem perder o sentido.

A B é o gabarito. Ela estudou o dia inteiro, da manhã à noite, e o artigo o depois de todo marca a duração.

A banca também troca o sentido no enunciado. Uma frase como o serviço funciona todo o dia, inclusive aos domingos mistura as duas leituras: inclusive aos domingos fala de dias da semana, e a forma precisa seria todo dia, inclusive aos domingos.

No contrato que chega por email, a busca do editor de texto ajuda. Procure por todo o, toda a e todo dia, e leia cada ocorrência com a pergunta da repetição ou da duração antes de assinar.

No contrato de aluguel, a cláusula de horário pesa no condomínio. Uso da churrasqueira liberado todo o dia pode virar briga com o vizinho às 2h da manhã, e o regimento interno vale mais quando o texto fixa as horas.

Confira antes de assinar a cláusula:
todo dia, sem artigo, quer dizer cada dia,
todo o dia, com artigo, quer dizer o dia inteiro,
o horário de início e de fim aparece escrito.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, que registra a diferença entre todo dia e todo o dia, foi publicada por qual editora, em que ano?

AEditora Ática, 1999
BEditora Lucerna, 1999
CEditora Moderna, 2001
DEditora Saraiva, 1999

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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