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100% escolheram Aceitado ou aceito. Aqui está.
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Tinha aceitado, foi aceito, o particípio que troca de forma no meio do caminho
Com ter e haver entra a forma longa, com ser e estar entra a curta, e a voz passiva da prova vive dessa troca.
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A palavra que a comissão circulou
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A frase saiu assim no ofício encaminhado à chefia: "O recurso foi aceitado pela comissão na sessão de ontem." Quem redigiu não errou o verbo, não errou a concordância e não errou a pontuação. Errou a forma do particípio (a forma do verbo terminada em ado ou ido, a que entra depois de ter, haver, ser e estar), e a comissão devolveu o documento com uma palavra circulada.
O verbo aceitar guarda dois particípios, e os dois estão no dicionário. A forma longa é aceitado, a forma curta é aceito, e nenhuma das duas é errada por natureza. O que decide qual delas entra é o verbo que vem na frente dela, e quem escreve rápido costuma pegar a primeira que a memória oferece.
O fenômeno tem nome de gramática e uso prático. Chama-se particípio duplo ou abundante, e vale para uma lista curta de verbos conservados em duas versões: aceitar, entregar, pagar, ganhar, prender, soltar, acender, eleger, imprimir, expulsar, extinguir e mais alguns vizinhos. Fora dessa lista, o verbo tem particípio único e a dúvida some.
A origem da duplicata ajuda a lembrar qual forma usar. A longa nasceu da regra comum do português, que acrescenta ado ao verbo da primeira conjugação, e ficou colada ao tempo composto, onde o particípio funciona como verbo. A curta veio do latim por caminho próprio e guardou cara de adjetivo, e por esse motivo se encaixa na voz passiva.
Quem escreve ofício, laudo, parecer ou recurso esbarra na escolha várias vezes por página, porque documento administrativo vive de voz passiva. Pedido deferido, prazo suspenso, valor pago, recurso aceito.
Na prova, a cobrança vem com cara de voz passiva. A banca monta uma frase com ter ou haver, monta outra com ser ou estar, troca os particípios de lugar e pede a alternativa correta. Quem decorou só a lista de verbos abundantes sem saber qual auxiliar puxa qual forma erra na hora de encaixar.
A dúvida de hoje põe quatro frases com aceitar e pergunta quais delas a norma aceita. Depois vem a regra que amarra cada forma ao seu auxiliar, com a lista dos verbos que entram na conta, e o teste que resolve a escolha olhando uma única palavra antes do particípio.
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I A Dúvida do Dia
Quatro frases com aceitar e duas de pé
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Quatro frases com aceitar, dois particípios possíveis, um auxiliar decidindo.
As quatro frases são estas: "A comissão tinha aceitado o recurso"; "O recurso foi aceitado pela comissão"; "A comissão tinha aceito o recurso"; "O recurso foi aceito pela comissão". A primeira e a quarta atendem à norma, a segunda e a terceira trocam as formas de lugar, e o critério que separa uma coluna da outra cabe numa palavra: o auxiliar.
Na primeira frase, o auxiliar é ter. Tinha aceitado forma o tempo composto, o particípio trabalha como verbo e recebe a forma longa, a mesma que aparece em tinha entregado, havia pagado, tinha ganhado. O particípio não concorda com nada ali: fica invariável, mesmo que o complemento vá para o plural, como em "A comissão tinha aceitado os recursos".
Na quarta frase, o auxiliar é ser. Foi aceito monta a voz passiva, o particípio trabalha como adjetivo do sujeito e recebe a forma curta, a mesma de foi entregue, foi pago, foi eleito. Aqui o particípio concorda em gênero e número com quem sofre a ação: "A proposta foi aceita", "Os recursos foram aceitos", "As propostas foram aceitas".
A segunda frase sofre do desvio mais frequente do grupo. Foi aceitado junta o auxiliar da passiva com a forma que pertence ao tempo composto, e o resultado passa despercebido na leitura corrida porque a frase continua compreensível. A banca gosta dessa opção justamente por ser a que mais gente deixa passar.
A terceira frase mostra o desvio na mão contrária, e soa estranha até para quem nunca viu a regra escrita. Tinha aceito encurta o particípio onde o tempo composto pede a forma longa, e o ouvido brasileiro reage à combinação com mais rapidez do que reage a foi aceitado. Vale registrar que autores literários do século passado usaram tinha aceito com liberdade de estilo, prática que a banca de concurso não abona na prova objetiva.
O pacote de erro se repete com cada verbo da lista, sempre no mesmo desenho. "Havia entregue o relatório" no lugar de havia entregado, "foi entregado o relatório" no lugar de foi entregue. "Tinha pago a conta" no lugar de tinha pagado, "a conta foi pagada" no lugar de foi paga. Troca o verbo, o defeito continua de pé, porque o que falha é a leitura do auxiliar.
Um detalhe do enunciado costuma decidir a questão. Quando a frase traz o agente da passiva, o trecho aberto por pela ou por, a leitura fica mais fácil: pela comissão, pelo tribunal sinalizam voz passiva e, com ela, a forma curta. Quando o agente fica de fora, como em "O recurso foi aceito", o auxiliar ser continua mandando na escolha.
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II A Regra
Ter e haver puxam o longo, ser e estar o curto
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Verbo de particípio duplo usa a forma regular, terminada em ado ou ido, depois de ter e haver: tinha aceitado, havia entregado, tinha pagado. Usa a forma irregular, mais curta, depois de ser e estar: foi aceito, está entregue, foi pago. No primeiro caso o particípio fica invariável; no segundo, concorda em gênero e número com o sujeito.
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A lista dos verbos que pedem atenção é curta e cabe na memória com repetição. Aceitar traz aceitado e aceito. Entregar traz entregado e entregue. Pagar traz pagado e pago. Ganhar traz ganhado e ganho. Gastar traz gastado e gasto. Prender traz prendido e preso. Soltar traz soltado e solto. Acender traz acendido e aceso. Eleger traz elegido e eleito. Imprimir traz imprimido e impresso. Expulsar traz expulsado e expulso. Extinguir traz extinguido e extinto. Suspender traz suspendido e suspenso.
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"Existem verbos que possuem duas formas de particípio, uma regular e outra irregular."
Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, 37ª edição, 2009
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A definição resolve o caso pelo lado da função. Quando o particípio serve de verbo, dentro do tempo composto, ele veste a forma regular e não muda de terminação. Quando serve de adjetivo, na voz passiva ou ao lado de estar e ficar, veste a forma irregular e se ajusta ao sujeito, do mesmo jeito que um adjetivo comum se ajusta ao substantivo que qualifica.
Três verbos do grupo exigem nota à parte porque a forma regular caiu de uso e virou tropeço. Ganhar, gastar e pagar têm ganhado, gastado e pagado no dicionário, mas a fala brasileira abandonou as três, e hoje "tinha ganho o prêmio" aparece em texto publicado com naturalidade. A norma escrita cobrada em concurso mantém ganhado, gastado e pagado no tempo composto, e o candidato que seguir o ouvido perde o ponto.
Aceitar tem uma terceira forma que o dicionário registra e quase ninguém usa: aceite, particípio irregular alternativo, vivo em texto jurídico de Portugal. No uso brasileiro, aceite aparece como substantivo, a aprovação formal de um título, e não disputa lugar com aceito na voz passiva.
Um verbo do grupo muda de sentido junto com a forma, e o detalhe cai em prova de interpretação. Com imprimir, a forma impresso vale para o que saiu em papel, e a forma imprimido sobrevive no sentido de comunicar movimento ou intensidade, como em "havia imprimido velocidade ao processo". O contexto escolhe a forma antes mesmo do auxiliar entrar em cena.
Fora de ter, haver, ser e estar, outros dois auxiliares puxam a forma irregular. Ficar e vir se comportam como estar quando acompanham particípio: "a decisão ficou suspensa", "o recurso veio aceito da primeira instância". O particípio ali qualifica o sujeito, concorda com ele, e a forma longa soa fora de lugar em qualquer dos dois.
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