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Ter de no ofício, ter que no dicionário

A norma culta prefere ter de para obrigação. Os dicionários registram ter que. As duas passam no texto formal.

Ofício com tem que riscado em vermelho e ter de na margem.

Ter de na norma culta, ter que no dicionário

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O chefe de gabinete devolveu o ofício com um risco vermelho numa linha só: “O requerente tem que apresentar o laudo em dez dias.” Na margem, escreveu ter de, sublinhado duas vezes.

A correção tem fundamento, mas o risco não tem. As duas formas aparecem em gramáticas e dicionários brasileiros, e um texto formal pode usar qualquer uma delas sem perder ponto.

O hábito de riscar vem de uma tradição de gramáticos do século XX. Para eles, ter de carrega a ideia de obrigação: tenho de sair, temos de votar. Já ter que, na leitura estrita, só caberia quando o que funciona como pronome relativo (palavra que retoma um termo anterior), como em tenho muito que fazer.

A fala brasileira deixou a distinção para trás faz tempo. Quase ninguém diz tenho de ir embora numa conversa; o comum é tenho que ir. A forma passou da boca para a escrita e entrou em jornal, em sentença judicial e em texto de lei.

Daí a dúvida de quem redige documento oficial. O Manual de Redação da Presidência da República, guia que orienta os ofícios do governo federal, pede clareza, concisão e o padrão culto da língua. Cada revisor, na prática, interpreta esse padrão culto do seu jeito.

Os concursos entram na mesma dúvida por outra porta. Questões de reescrita costumam trocar uma forma pela outra e perguntar se a frase continua correta, e o gabarito depende de saber quando o que liga o verbo e quando retoma uma palavra.

O revisor apressado erra nos dois sentidos. Risca o tem que que estava certo e deixa passar a troca que de fato quebra a frase, aquela em que só o que funciona.

Logo abaixo, a origem das duas formas, o argumento de cada lado e o caso em que só uma delas serve.

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I  A Dúvida do Dia

Preposição ou pronome depois do ter

De onde vem o de e de onde vem o que.

Ter de e ter que expressam obrigação e estão registradas em dicionário. A norma culta mais conservadora prefere ter de no texto formal.

A dúvida mora na palavrinha depois do verbo ter. Em ter de sair, o de é preposição (palavra que liga dois termos), a mesma de copo de água. Em ter que sair, o que ocupa o mesmo lugar e faz o mesmo trabalho de ligação.

Os gramáticos tradicionais estranharam a troca. Napoleão Mendes de Almeida, no Dicionário de Questões Vernáculas (1981), defendeu ter de para obrigação e tratou ter que como forma a evitar quando o sentido é dever.

O argumento dele era de origem. O que, na frase antiga, vinha como pronome relativo: tenho que fazer significava tenho tarefas para fazer, tenho trabalho pendente. A ideia de obrigação pertencia ao ter de, parente do haver de do português clássico.

Com o tempo, o sentido do relativo se apagou e o que passou a funcionar como preposição. Os linguistas chamam essa mudança de gramaticalização (quando uma palavra perde o sentido próprio e vira peça da gramática).

Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa (edição de 1999), registra as duas construções como possíveis para obrigação. A preferência pelo de aparece como recomendação de estilo, sem força de proibição.

Celso Pedro Luft, no Dicionário Prático de Regência Verbal (1987), aceita ter que com o mesmo valor de ter de e anota a preferência dos puristas pela forma com de.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001) também registra a locução ter que com o sentido de obrigação. Com três obras de referência aceitando as duas formas, o risco vermelho perde o apoio técnico.

O espanhol fez o mesmo caminho. Tener que hacer é a forma padrão de obrigação naquela língua, aceita sem ressalva pela Real Academia Española, e ninguém por lá discute a preposição.

Sobra uma distinção que segue valendo. Quando há uma palavra como nada, muito ou pouco antes do que, ele volta a ser relativo e a troca muda a frase. Tenho muito que estudar fala de matéria acumulada; tenho muito de estudar ninguém escreve.

O resumo prático cabe em duas linhas. Obrigação pura aceita as duas formas. Quantidade ou pronome antes do que pede o que.

Para quem escreve, a diferença entre as duas formas de obrigação é de registro. Ter de soa mais cuidado, de documento; ter que soa mais próximo, de conversa. A escolha ajusta o tom do texto e deixa a correção intacta.

 
 

II  A Regra

Obrigação aceita as duas formas

Para obrigação, use ter de no texto formal e aceite ter que sem riscar. Com pronome antes do que, só o que funciona.

A regra cabe em três casos. O primeiro é a obrigação sem palavra intermediária: o candidato tem de comparecer, o candidato tem que comparecer. As duas frases estão certas.

No ofício, no parecer e no edital, a escolha mais segura é ter de. Ela agrada ao revisor conservador, não incomoda o moderno, e o texto não perde clareza.

O segundo caso tem pronome ou quantidade antes do que: nada, muito, pouco, algo. Não tenho nada que declarar significa não tenho bem nenhum a declarar. Ali o que é relativo e retoma o nada.

A placa da alfândega mostra a diferença. Nada a declarar é a forma consagrada; nada que declarar é a versão com relativo; nada de declarar não existe em português.

O terceiro caso é o haver de, primo do ter de. Hei de vencer expressa intenção ou certeza, mais que obrigação, e o português nunca aceitou hei que vencer.

Conjugar o verbo não altera a regra: tinha de, teve de, terá de, tivesse de. A preposição acompanha qualquer tempo do verbo ter, e o que também.

No plural, o acento pesa mais que a preposição. Os servidores têm de entregar o relatório leva circunflexo em têm, marca da terceira pessoa do plural. Sem o acento, a frase erra mesmo com o de correto.

Um alerta de estilo vale tanto quanto a regra. Um ofício com quatro tem de em sequência cansa o leitor. Variar com deve, precisa ou cabe ao requerente resolve sem mexer na preposição.

Nas questões de reescrita, a banca costuma perguntar se a troca de ter de por ter que mantém a correção e o sentido. Para obrigação, a resposta é sim. Com nada, muito ou pouco antes, a troca pelo de quebra a frase.

Uma terceira saída aparece com a preposição a. Tenho muito a fazer equivale a tenho muito que fazer, e a forma com a soa mais leve no texto formal quando há quantidade antes.

O texto acadêmico segue a mesma lógica do ofício. Monografia e artigo pedem o registro mais formal, e ter de evita a discussão com o orientador. No email de trabalho, ter que soa natural e passa sem estranhamento.

Quem redige para leitores de Portugal encontra o mesmo quadro. Lá, ter de domina a escrita cuidada, e ter que circula sobretudo na fala.

 

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III  O Teste

Ofício revisado linha a linha

Diante de qualquer ter seguido de de ou que, três passos resolvem a dúvida.

1. Procure uma palavra entre o ter e o que: nada, muito, pouco, algo, bastante. Se houver, o que é relativo e fica.

2. Sem palavra intermediária, a frase expressa obrigação. As duas formas valem; no texto formal, prefira ter de.

3. Troque a locução por dever para conferir: tem de apresentar vira deve apresentar. Se a troca funciona, a locução é de obrigação.

Aplicado ao ofício do chefe de gabinete: o requerente tem que apresentar o laudo passa no teste do dever, então as duas formas valem. O risco vermelho trocou uma forma certa por outra forma certa, mais alinhada à preferência dos gramáticos.

Depois da revisão, mantenha a forma escolhida no documento inteiro. Um ofício que alterna tem de e tem que de um parágrafo para outro parece texto de várias mãos, mesmo com as duas formas corretas.

Agora a questão no formato de concurso. Assinale a frase em que a troca de que por de prejudica a correção: (A) O servidor tem que assinar o termo. (B) Os candidatos tiveram que refazer a prova. (C) Não temos nada que acrescentar ao parecer. (D) A comissão terá que publicar o resultado.

As alternativas A, B e D trazem obrigação pura, e todas aceitam o de sem prejuízo: tem de assinar, tiveram de refazer, terá de publicar.

A C é o gabarito. O nada antes do que transforma o que em pronome relativo, e não temos nada de acrescentar sai da norma padrão.

O teste do dever confirma o resultado. Não devemos nada acrescentar não faz sentido, sinal de que a frase não fala de obrigação.

No trabalho, a busca do editor de texto resolve em segundos. Procure por tem que, têm que e teve que no documento e decida caso a caso, sem trocar no automático.

Num ofício de três páginas, a busca costuma devolver poucas ocorrências. Leia cada uma com os três passos e marque na margem só as que caem no caso do relativo, as únicas em que a troca automática estragaria a frase.

Confira antes de assinar o ofício: palavra entre o ter e o que,
troca por dever funcionando na frase,
ter de nas obrigações do texto formal.

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BModerna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara
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