De onde vem o de e de onde vem o que.
Ter de e ter que expressam obrigação e estão registradas em dicionário. A norma culta mais conservadora prefere ter de no texto formal.
A dúvida mora na palavrinha depois do verbo ter. Em ter de sair, o de é preposição (palavra que liga dois termos), a mesma de copo de água. Em ter que sair, o que ocupa o mesmo lugar e faz o mesmo trabalho de ligação.
Os gramáticos tradicionais estranharam a troca. Napoleão Mendes de Almeida, no Dicionário de Questões Vernáculas (1981), defendeu ter de para obrigação e tratou ter que como forma a evitar quando o sentido é dever.
O argumento dele era de origem. O que, na frase antiga, vinha como pronome relativo: tenho que fazer significava tenho tarefas para fazer, tenho trabalho pendente. A ideia de obrigação pertencia ao ter de, parente do haver de do português clássico.
Com o tempo, o sentido do relativo se apagou e o que passou a funcionar como preposição. Os linguistas chamam essa mudança de gramaticalização (quando uma palavra perde o sentido próprio e vira peça da gramática).
Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa (edição de 1999), registra as duas construções como possíveis para obrigação. A preferência pelo de aparece como recomendação de estilo, sem força de proibição.
Celso Pedro Luft, no Dicionário Prático de Regência Verbal (1987), aceita ter que com o mesmo valor de ter de e anota a preferência dos puristas pela forma com de.
O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001) também registra a locução ter que com o sentido de obrigação. Com três obras de referência aceitando as duas formas, o risco vermelho perde o apoio técnico.
O espanhol fez o mesmo caminho. Tener que hacer é a forma padrão de obrigação naquela língua, aceita sem ressalva pela Real Academia Española, e ninguém por lá discute a preposição.
Sobra uma distinção que segue valendo. Quando há uma palavra como nada, muito ou pouco antes do que, ele volta a ser relativo e a troca muda a frase. Tenho muito que estudar fala de matéria acumulada; tenho muito de estudar ninguém escreve.
O resumo prático cabe em duas linhas. Obrigação pura aceita as duas formas. Quantidade ou pronome antes do que pede o que.
Para quem escreve, a diferença entre as duas formas de obrigação é de registro. Ter de soa mais cuidado, de documento; ter que soa mais próximo, de conversa. A escolha ajusta o tom do texto e deixa a correção intacta.
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