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Tampouco nega, tão pouco mede

Tampouco, junto, vale por também não. Tão pouco, separado, fala de quantidade. A banca troca os dois.

Folha de prova de concurso com a palavra tampouco circulada a lápis.

Tampouco nega, tão pouco mede a quantidade

▼
 

A frase saiu assim na redação de um candidato a concurso: “O réu não compareceu à audiência, tão pouco justificou a ausência.” A palavra pedida era tampouco, numa peça só, e a banca descontou o ponto.

O corretor do computador não sublinhou nada. Tampouco e tão pouco existem no dicionário, e a máquina aprova as duas grafias sem olhar a frase em volta.

O erro contrário aparece com a mesma frequência. Na mensagem de quem passou a noite em claro antes da prova, alguém escreve “dormi tampouco que errei a conta”, e o corretor também fica quieto.

As duas formas soam iguais na fala. Entre tampouco e tão pouco, a diferença mora num espaço em branco, e o ouvido não enxerga espaço.

Por trás do espaço há duas funções diferentes. Tampouco, em palavra única, é advérbio de negação (palavra que nega a ação do verbo) e vale por também não. Tão pouco, separado, junta o advérbio de intensidade tão à palavra pouco e fala de quantidade ou de grau.

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP, lista oficial de grafias publicada pela Academia Brasileira de Letras, registra tampouco como entrada própria. Tão e pouco aparecem cada um no seu verbete, porque a expressão separada se forma na frase, e o dicionário não precisa listá-la.

As bancas conhecem a armadilha. A questão de ortografia costuma trazer quatro frases com as duas formas misturadas, e a alternativa errada mais atraente é a que parece mais formal.

Quem escreve com pressa escolhe pela aparência. Tampouco tem cara de palavra difícil e entra em frases onde não cabe; tão pouco parece erro de digitação e some de frases onde deveria estar.

A escolha certa depende de uma pergunta só: a frase soma mais uma negação ou mede uma quantidade?

Logo abaixo, de onde vem cada forma, a regra que separa as duas e as trocas para fazer na hora da prova.

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I  A Dúvida do Dia

Uma palavra feita de duas

De onde vem o tampouco e quando a palavra se separa.

Tampouco é a soma antiga de tão e pouco, fundida numa palavra só. Hoje ela nega, e a soma separada continua viva para falar de quantidade.

A origem está no latim. Tam (tanto, tão) e paucum (pouco) formavam uma expressão de grau, e o português herdou as duas partes, que com o tempo se juntaram na escrita.

O caminho exato entre o sentido de quantidade e o sentido de negação não ficou registrado num documento que se possa apontar. O que os dicionários mostram é o resultado: a forma junta virou advérbio de negação, e a separada guardou o sentido antigo.

Hoje, tampouco equivale a também não, nem ou muito menos. Ele aparece depois de uma frase já negativa e soma mais uma negação: não estudou, tampouco entregou o trabalho.

Também pode responder a uma pergunta. Diante de você assinou o contrato?, a resposta eu não, tampouco meu sócio nega as duas pessoas de uma vez.

O registro de tampouco é formal. Na fala do dia a dia, o brasileiro prefere nem ou também não, e a palavra aparece sobretudo em texto jurídico, edital, sentença e redação de concurso.

Daí nasce a armadilha. O texto que o concurso cobra é o texto em que tampouco aparece, e quem nunca usa a palavra na fala hesita na hora de escrever.

A forma separada tem outra função. Tão é advérbio de intensidade (palavra que aumenta ou diminui o grau de outra), e pouco indica quantidade pequena. Juntos, dizem uma quantidade pequena em grau alto: dormiu tão pouco, ganhou tão pouco, falou tão pouco.

Tão pouco costuma puxar um que logo depois, na oração consecutiva (a que diz a consequência do que veio antes): dormiu tão pouco que errou a conta. A quantidade pequena explica o erro.

A forma separada também entra em comparação. Ele estudou tão pouco quanto o irmão: o par tão e quanto mede duas quantidades e diz que são iguais.

E aparece em exclamação. Tão pouco tempo para tanta matéria! A frase lamenta a quantidade, e nenhuma negação entra nela.

O gramático Domingos Paschoal Cegalla trata o par no Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa e separa as duas formas pela função na frase, com o mesmo critério dos manuais de redação oficial.

 
 

II  A Regra

Também não ou muito pouco

Se cabe também não no lugar, escreva tampouco. Se cabe muito pouco, escreva tão pouco.

O primeiro sinal de tampouco é a negação anterior. A palavra quase sempre vem depois de não, nunca, nem ou ninguém, na mesma frase ou na frase anterior: não ligou, tampouco mandou mensagem.

Sem negação antes, tampouco perde o apoio. A frase ela estudou, tampouco passou soa torta, porque não há negação anterior para somar.

O segundo sinal é a ausência de medida. Na frase não estudou, tampouco entregou, nenhum volume de estudo está em jogo, só a soma de duas ações que não aconteceram.

Do lado de tão pouco, o primeiro sinal é o que consecutivo. Se depois da expressão vem uma consequência, a forma é separada: comeu tão pouco que passou mal no meio da prova.

O segundo sinal é a troca por muito pouco. Dormiu tão pouco vira dormiu muito pouco, e a frase continua de pé com o mesmo sentido.

O terceiro sinal é o substantivo logo depois. Tão pouco tempo, tão pouco dinheiro, tão pouca gente: aqui pouco concorda com o substantivo e vira pouca no feminino e poucos no plural.

Essa variação resolve muita dúvida. Se a frase aceita tão poucas horas ou tão poucos dias, a forma é separada, porque tampouco nunca ganha feminino nem plural.

A pontuação ajuda a reconhecer tampouco. Ele costuma vir depois de vírgula ou de ponto, abrindo a segunda negação: não respondeu ao edital. Tampouco recorreu do resultado.

Uma construção pede cuidado. Nem tampouco, as duas palavras lado a lado, repete a negação. A gramática aceita a dupla como reforço, mas manuais de redação oficial costumam recomendar uma só: não leu, nem assinou; ou não leu, tampouco assinou.

Nas provas, a pegadinha mais comum é a frase longa em que a negação fica distante. Quando o não aparece no começo e tampouco surge três linhas abaixo, o leitor apressado esquece a negação e troca pela forma separada.

O caminho inverso também derruba candidatos. Numa frase como ganhava tão pouco que vivia de favor, quem decorou que tampouco é a forma culta junta as palavras e erra.

Uma frase só pode trazer as duas formas, ambas corretas: não estudou, tampouco revisou, e dormiu tão pouco que errou a conta. A primeira soma negações; a segunda mede o sono.

 

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III  O Teste

Duas trocas na hora da prova

Diante de tampouco ou tão pouco, duas trocas e uma conferência resolvem a escolha.

1. Troque a palavra por também não. Se a frase continua de pé, como em não estudou, também não entregou, escreva tampouco, junto.

2. Troque a palavra por muito pouco. Se a frase continua de pé, como em dormiu muito pouco, escreva tão pouco, separado.

3. Procure a negação antes. Sem não, nem, nunca ou ninguém antes da palavra, tampouco quase nunca cabe.

Aplicado à redação do candidato: tão pouco justificou vira também não justificou, e a frase segue firme. Muito pouco justificou muda o sentido. A forma certa é tampouco.

Aplicado à mensagem da noite em claro: dormi tampouco que errei vira dormi também não que errei, e a frase desaba. Dormi muito pouco funciona. A forma certa é tão pouco.

Na prova, o par costuma vir assim. Marque a frase com a grafia correta: (A) Não leu o edital, tão pouco fez o simulado. (B) Estudou tampouco que reprovou. (C) Ganhava tampouco dinheiro. (D) Não pagou a inscrição, tampouco compareceu.

A alternativa A soma duas negações e pede tampouco. A B traz o que de consequência, e a C traz o substantivo dinheiro logo depois: as duas pedem tão pouco.

A D é o gabarito. O não abre a frase, a troca por também não funciona, e nenhuma quantidade está em jogo: não pagou a inscrição, também não compareceu.

No texto do trabalho, a busca do editor resolve em segundos. Procure por tampouco e por tão pouco antes de enviar o parecer e aplique as trocas em cada ocorrência.

No celular, o teclado completa a palavra pelas primeiras letras. Quem digita tão e aceita a sugestão sem olhar pode ganhar um tampouco onde a frase pedia o espaço.

A forma separada muda com o substantivo; a junta, nunca. Tão pouca paciência, tão poucos candidatos, tão poucas vagas: se a frase pede feminino ou plural, a resposta já está dada.

Na redação discursiva, a escolha pesa duas vezes. A grafia errada conta como desvio de ortografia, e a frase com tampouco no lugar de tão pouco ainda perde o sentido, porque a consequência anunciada pelo que fica sem causa. O avaliador lê uma negação onde o candidato quis medir uma quantidade.

O espanhol, idioma vizinho, tem uma palavra gêmea, com a mesma origem e o mesmo papel de também não, escrita com uma letra a menos.

Confira antes de entregar a prova: um não, nem ou nunca antes de tampouco,
muito pouco cabendo no lugar de tão pouco,
um que de consequência depois da forma separada.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual palavra do espanhol nega como tampouco, com uma letra a menos?

 
 
Quiz da edição

Na redação do candidato a concurso citada no texto, qual foi o erro exato que levou a banca a descontar o ponto?

AEscreveu tampouco junto quando a frase pedia tão pouco separado, trocando a medida de quantidade pela negação
BDeixou de colocar vírgula antes de tampouco, mesmo escrevendo a palavra correta
CEscreveu tão pouco separado quando a frase pedia tampouco junto, trocando a negação pela medida de quantidade
DGrafou tanpouco com n, alterando a ortografia da palavra de negação

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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