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Se não abre condição, senão vale por caso contrário
Separado, o se não condiciona; junto, o senão anuncia a consequência de não agir, e o cartaz da autoescola trocou um pelo outro.
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O aviso colado no vidro da porta
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Seis e quarenta da manhã, secretaria de uma autoescola no centro, a atendente cola no vidro da porta o cartaz impresso na noite anterior. A linha em caixa alta avisa quem chega para a prova prática: vá agora para o pátio, se não perde a hora.
O aviso quer dizer uma frase só, que quem demorar perde o horário marcado. O que o cartaz escreveu, porém, é outra frase, uma condição pela metade que abre uma hipótese e nunca a fecha, e quem lê com atenção fica esperando o resto que não vem.
As duas grafias têm o mesmo som na boca de quem fala e funções opostas no papel. Se não, em duas palavras, é a conjunção se somada ao advérbio não, e ela nega a condição de uma oração inteira: se não chover, eu vou. Tire o não e a frase continua de pé, com o sentido invertido.
Senão, em uma palavra, não condiciona nada. Ele anuncia o que acontece quando a ação não é tomada, e a tradução exata dele é caso contrário: vá agora, senão perde a hora. O não some da leitura porque já está dentro da palavra, colado à conjunção.
O mesmo senão junto ainda aparece com dois outros empregos que o dicionário registra e o cartaz nunca usa. Ele substitui a ideia de a não ser: ninguém entrou no pátio senão o instrutor. E ele vira substantivo, palavra com plural e artigo, quando nomeia um defeito pequeno: o carro é bom, só tem um senão.
A troca custa pouco no vidro da autoescola e custa caro na prova. A banca alonga a frase, empurra a escolha para depois de uma vírgula e oferece as duas grafias entre as alternativas, contando com a leitura em voz alta, que não distingue uma da outra.
A questão de hoje começa por quatro linhas quase idênticas, tiradas de aviso, de contrato e de mensagem de trabalho, com a pergunta de quais delas sobrevivem à correção. Depois vem a regra que separa a condição negada da consequência anunciada, e o teste que resolve a grafia antes de o texto sair da mão.
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I A Dúvida do Dia
Quatro linhas quase idênticas
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Uma palavra, dois modos de escrever.
A dúvida cabe em quatro linhas de material real: vá agora, senão perde a hora, se não chover, eu vou, o contrato é bom, só tem um senão, e ninguém assinou senão o fiador. Todas saem de aviso de parede, de mensagem de equipe, de cláusula contratual e de conversa de porta de escritório.
As quatro estão corretas, e a observação já derruba metade da dúvida. O erro não mora em uma das grafias, mora na troca entre elas, e cada uma das quatro ocupa uma função que a outra não consegue exercer.
Vá agora, senão perde a hora traz o senão de uma palavra na função de caso contrário. A oração anterior manda fazer algo, a segunda anuncia a consequência de não fazer, e a palavra junta liga as duas sem precisar de nenhuma outra negação na frase.
Se não chover, eu vou traz o se não separado na função de condição negada. A conjunção se abre uma hipótese, o advérbio não a nega, e a oração seguinte só se realiza dentro dessa hipótese. Retire o não e sobra se chover, eu vou, uma frase inteira com o sentido virado do avesso.
O contrato é bom, só tem um senão traz o substantivo que o Michaelis registra, e é o emprego que mais surpreende quem só conhece as conjunções. Ali o senão é nome, aceita artigo, aceita plural em senões e significa defeito pequeno, ressalva, ponto que atrapalha.
Ninguém assinou senão o fiador traz o quarto emprego, o de a não ser, o único que exclui em vez de condicionar. A frase afirma que só o fiador assinou, e a troca por se não separado ali não produz sentido nenhum, apenas uma condição solta no meio da oração.
A vizinhança do documento é o que multiplica o erro, porque o mesmo texto costuma pedir as duas grafias em parágrafos vizinhos. O aviso de portaria escreve confirme a presença até as dez, senão o horário cai, e o mesmo cartaz continua com se não houver vaga no pátio, procure a secretaria.
A mensagem de trabalho é onde a troca aparece com mais frequência, e a pressa explica o motivo. Quem digita no celular escreve como fala, o corretor não sinaliza erro nenhum porque as duas formas existem no vocabulário, e a frase sai publicada com a grafia trocada e a leitura emperrada.
A cláusula contratual eleva o preço da troca porque ali a palavra decide obrigação. Pague até o dia dez, senão incide multa é uma consequência anunciada; se não pagar até o dia dez, incide multa é a mesma exigência escrita como condição, e as duas versões só coincidem quando cada palavra está na grafia certa.
Quem cola no vidro o cartaz com a grafia trocada passa o dia sem consequência nenhuma, porque quem lê corrige de cabeça e vai para o pátio. Quem escreve a mesma linha numa redação de concurso perde ponto de norma, e o item da prova costuma trazer as duas grafias lado a lado justamente porque a fala não separa uma da outra.
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II A Regra
Duas palavras, duas funções
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Se não, separado, é conjunção condicional mais advérbio de negação e abre uma hipótese negada. Senão, junto, vale por caso contrário, por a não ser e ainda por substantivo que nomeia um defeito pequeno.
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A decisão tem duas etapas e as duas são rápidas. A primeira é olhar se a frase está condicionando alguma ação a uma hipótese que não se realiza. A segunda é olhar se a frase está anunciando a consequência de não fazer algo que a oração anterior mandou fazer.
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"senão conj. Caso contrário, de outro modo. sm Pequena falha; defeito, imperfeição."
Michaelis, Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, edição de 2015
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O registro do dicionário mostra a distância entre as duas grafias, porque uma delas é palavra única com verbete próprio e a outra é a soma de dois vocábulos que continuam independentes. Se não separado não tem verbete, existe apenas na combinação, e cada uma das duas palavras mantém a função que já tinha sozinha.
A primeira situação é a da condição negada, e ela pede o se não separado. Se não chover, eu vou; se não houver vaga, procure a secretaria; se não aparecer ninguém, cancele a aula. As três abrem hipótese, as três admitem a troca por caso não, e nenhuma delas anuncia consequência de desobediência.
A segunda situação é a da consequência anunciada, e ela pede o senão junto. Vá agora, senão perde a hora; confirme a presença, senão o horário cai; pague até o dia dez, senão incide multa. As três vêm depois de uma ordem ou de um pedido, e as três admitem a troca por caso contrário.
A terceira situação é a da exclusão, e também pede o senão junto. Em ninguém assinou senão o fiador, a palavra vale por a não ser e restringe o conjunto a um único elemento. A frase não condiciona nem ameaça, apenas exclui todo o resto do que foi afirmado.
A quarta situação é a do substantivo, a que menos aparece e mais decide questão de prova. Em o carro é bom, só tem um senão, a palavra é nome, vem precedida de artigo, aceita plural e significa ressalva. Onde couber um artigo antes da palavra, a grafia é junta e não existe alternativa.
Um detalhe fecha o quadro e resolve o cartaz da autoescola. Depois de uma ordem, a frase quase nunca pede condição, e a palavra que segue a vírgula é o senão de uma palavra só, porque o que vem ali é o preço de não obedecer, e nunca uma hipótese aberta para o leitor completar.
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