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Se eu vir, nunca se eu ver
O futuro do subjuntivo nasce da terceira pessoa do plural do pretérito perfeito, e ver e vir trocam de forma no caminho.
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Corte o am de eles e o futuro aparece
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A mensagem chega ao grupo do trabalho às seis e dez da tarde e tem doze palavras: me avisa se você ver o retorno do cliente hoje. Ninguém comenta a frase, o retorno chega às sete, e o combinado funciona do começo ao fim.
Escrita em outro lugar, a mesma linha muda de sorte. Ela vai parar no email que cobra prazo, no relatório que sobe para a diretoria, na cláusula do contrato e na questão de língua portuguesa que vale ponto no espelho de correção.
O verbo ver tem uma forma que quase ninguém usa no automático, e ela aparece justamente depois de se, de quando e de assim que. A forma não é ver: é vir, escrita exatamente como o infinitivo de outro verbo.
A coincidência é o motor do escorregão. Quando eu vir o retorno pertence ao verbo ver, e quando eu vier ao escritório pertence ao verbo vir, duas linhas parecidas que a pressa embaralha em um segundo.
O tempo que manda nessas frases é o futuro do subjuntivo, e ele tem uma vantagem prática. Quem conjuga o pretérito perfeito já sabe montá-lo, mesmo sem lembrar o nome do tempo nem a lista das conjugações irregulares.
Nos verbos regulares a forma coincide com o infinitivo, e ninguém erra: se eu falar, quando você chegar, assim que eles partirem. O problema mora nos irregulares, onde a forma muda de cara e a memória do infinitivo puxa a mão para o lado errado.
Na prova, o item raramente chega limpo. A banca escreve um período comprido, esconde o verbo entre duas orações e monta as alternativas com as duas versões, cercadas por linhas longas que só consomem o seu tempo de leitura.
A questão de hoje começa pelo formato em que a dúvida aparece na tela. Depois vem a regra que cabe em uma linha, a lista dos irregulares que mais caem, e o corte de duas letras que resolve antes de você apertar enviar.
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I A Dúvida do Dia
O verbo que troca de forma no futuro
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Duas versões da mesma frase, e só uma delas pertence ao tempo que a conjunção pediu.
A dúvida aparece na tela com as duas versões lado a lado: quando eu vir o resultado ou quando eu ver o resultado? As duas circulam em mensagem de trabalho, em prova e em conversa de corredor, e a maioria dos leitores passa por elas sem parar.
A norma escrita reconhece uma só. Depois de se, de quando, de enquanto e de assim que, o verbo entra no futuro do subjuntivo, e a forma do verbo ver nesse tempo é vir: quando eu vir, se você vir, assim que ele vir.
O estranhamento tem causa visível. A forma pedida pela norma é escrita e pronunciada como o infinitivo de outro verbo, e quem escreve com pressa lê vir na tela, pensa em chegada e conclui que a linha saiu trocada.
A conclusão é o erro. Vir, ali, não é o verbo de chegar a algum lugar: é o verbo de enxergar, conjugado no tempo que a conjunção exigiu duas palavras antes.
O verbo vir tem forma própria no mesmo tempo, e ela é outra: vier. Quando eu vier ao escritório, se ele vier de carro, assim que elas vierem. As duas famílias convivem na mesma frase sem se misturar, como em assim que eu vir a proposta, eu vou ao cartório.
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A forma correta parece o verbo errado, e é justamente por parecer o verbo errado que a mão troca vir por ver na hora de apertar enviar.
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A banca conhece o hábito e trabalha em cima dele. O primeiro disfarce é a distância, com uma oração inteira entre a conjunção e o verbo, como em quando o cliente que assinou o contrato em janeiro vir a nova proposta.
O segundo disfarce é o plural, e ele derruba quem já tinha acertado o singular. Quando eles virem pertence ao verbo ver, quando eles vierem pertence ao verbo vir, e a diferença entre as duas linhas cabe em duas letras.
O terceiro disfarce é a companhia. No mesmo item aparecem outros irregulares que seguem a mesma lógica, e a alternativa traz quando eu ter tempo no lugar de quando eu tiver tempo, ou se eu poder no lugar de se eu puder.
Longe da sala de prova, a construção circula sem custo aparente. Ela aparece na mensagem que combina o retorno, no email que pede a confirmação, no comunicado interno e na cláusula que começa com se a empresa não ver motivo.
Quem lê a mensagem entende o combinado e segue o dia, porque a informação chega inteira mesmo fora da norma. Quem presta concurso descobre o custo de outro jeito: a linha vira alternativa marcada em vermelho, o ponto sai da conta e o gabarito publicado não aceita recurso.
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II A Regra
Eles viram, então quando eu vir
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O futuro do subjuntivo nasce da terceira pessoa do plural do pretérito perfeito: tira-se o -am do fim e o que sobra é a forma. Eles viram vira se eu vir, eles vieram vira se eu vier.
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A regra tem uma decisão só, e ela não depende do tamanho do período nem do verbo em jogo. Põe-se o verbo no passado com o sujeito eles, corta-se a terminação e a forma do futuro aparece pronta.
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"O futuro do subjuntivo forma-se do tema do pretérito perfeito: da terceira pessoa do plural, retirada a desinência -am."
Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, 2009
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O tempo entra na frase por convite de uma palavra específica. Chamam o futuro do subjuntivo as conjunções se, quando, enquanto, assim que, logo que, sempre que, depois que, como e conforme, e também os relativos quem, o que e onde.
Nos verbos regulares a conta não aparece, porque o resultado é igual ao infinitivo: eles falaram vira quando eu falar, eles comeram vira quando eu comer, eles partiram vira quando eu partir. A forma antiga e a nova coincidem.
Nos irregulares a conta fica visível, e ela é sempre a mesma. Eles tiveram vira se eu tiver, eles fizeram vira se eu fizer, eles puseram vira se eu puser, eles disseram vira se eu disser, eles trouxeram vira se eu trouxer.
A lista continua com os que mais caem em prova. Eles quiseram vira se eu quiser, eles souberam vira se eu souber, eles puderam vira se eu puder, eles foram vira se eu for, eles estiveram vira se eu estiver.
O par do dia sai da mesma fórmula, e ele é o mais confundido de todos. Eles viram, do verbo ver, devolve se eu vir; eles vieram, do verbo vir, devolve se eu vier.
O paradigma completo tira a dúvida do plural. Do verbo ver: se eu vir, se você vir, se ele vir, se nós virmos, se vocês virem, se eles virem. Do verbo vir: se eu vier, se você vier, se nós viermos, se eles vierem.
Existe um lugar em que o verbo ver mantém a cara de sempre, e ele é vizinho de porta. Depois de preposição, o que entra é o infinitivo pessoal: depois de eu ver o retorno, antes de você ver a proposta, para ele ver o contrato.
A diferença mora na palavra que abre a oração. Depois de eu ver o retorno traz uma preposição e pede infinitivo; depois que eu vir o retorno traz uma conjunção e pede futuro do subjuntivo, com a mesma cena e o mesmo verbo.
A hipercorreção nasce logo em seguida, e ela é o efeito colateral da regra bem aprendida. Quem descobre que se eu ver está fora da norma às vezes leva a forma nova para onde ela não cabe e escreve para eu vir o contrato.
A linha acima está fora da norma pelo motivo inverso. A preposição para não convoca o futuro do subjuntivo, e o lugar dela pede o infinitivo do verbo ver, exatamente como em para eu ver o contrato.
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