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50% escolheram Residente na Rua. Aqui está.
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Residente na Rua das Flores, a crase que o requerimento não aceita
Residir e morar pedem a preposição em, então o endereço entra com na, e o acento grave copiado de modelo antigo fica sem preposição que o sustente.
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O acento riscado no requerimento
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“Residente à Rua das Flores, 210." Foi a linha que a auxiliar administrativa digitou no requerimento de matrícula, e ela voltou do balcão com o acento grave riscado a caneta azul pela servidora que conferiu o documento.
O verbo que sustenta a frase manda na preposição, e o verbo ali é residir. Quem reside, reside em algum lugar: resido em Curitiba, resido em um apartamento, resido na Rua das Flores. A forma nominal residente herda a mesma exigência do verbo, porque regência é propriedade da palavra, não da frase em que ela caiu.
A crase depende de uma conta simples que o endereço não fecha. O acento grave marca a fusão de duas vogais iguais, a preposição a somada ao artigo definido a que vem antes do substantivo feminino. Some a preposição, some o motivo do acento. Residir não pede a preposição a em momento algum, logo não existe a primeira vogal da soma, e o sinal fica no ar apoiado em nada.
A origem do desvio tem endereço próprio, e ele fica no arquivo. A fórmula residente à Rua circula em modelo de procuração, minuta de contrato de aluguel e formulário de cartório há décadas, herdada de uma redação forense antiga que tratava o endereço como lugar aonde se vai, e cada pessoa que abre o arquivo para preencher os dados novos copia o acento junto com a estrutura.
O preço aparece onde o texto é conferido por alguém. No concurso público, o item de crase mora entre os mais cobrados em prova de língua portuguesa, e a banca gosta de pôr o endereço no enunciado justamente porque ele parece formal demais para estar errado. No trabalho, o documento volta do balcão ou do jurídico com a correção a caneta, e quem assinou recebe o recado de que ninguém conferiu o arquivo antes de protocolar.
A dúvida de hoje põe três linhas de endereço lado a lado e pergunta em qual delas o acento grave cumpre função. Depois vem a regra que liga a preposição ao verbo e explica quando o acento tem direito de aparecer, e o teste que resolve cada linha trocando o nome da rua por uma palavra de gênero masculino.
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I A Dúvida do Dia
Três linhas de endereço e só uma pede acento
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Uma linha de endereço, um acento grave herdado de modelo antigo e um verbo que nunca pediu essa preposição.
As linhas são estas: residente à Rua das Flores; residente na Rua das Flores; entregue à Rua das Flores, no número 210. A do meio está correta como endereço de morador, a primeira pede a troca do acento pela contração, e a terceira acerta por outro motivo, que vale examinar.
A primeira linha tenta ser formal e escorrega na regência. Residente pede em, e em somado ao artigo a produz na. Escrever residente à Rua das Flores equivale a dizer residente a a Rua, uma preposição que o verbo não pede empilhada num artigo que ficou sem função na frase.
A segunda linha faz o que o verbo manda. Residente na Rua das Flores, morador na Avenida Paulista, domiciliado em Santos: a mesma preposição serve aos três, porque residir, morar e ter domicílio descrevem permanência num lugar, e permanência em português entra pela preposição em.
A terceira linha muda o verbo e muda tudo. Entregar pede complemento com a preposição a, quem entrega entrega alguma coisa a alguém ou a algum lugar, e diante de Rua, substantivo feminino que aceita o artigo, a preposição se funde ao artigo e o acento grave aparece com razão. O sinal não pertence à palavra Rua, pertence ao verbo que rege a frase.
O par de verbos vizinhos ajuda a fixar o critério. Ir e chegar pedem a preposição a: vou à Rua das Flores, cheguei à Avenida Brasil. Residir, morar e ficar pedem em: resido na Rua das Flores, moro na Avenida Brasil. Trocar um verbo pelo outro na mesma frase troca a preposição e troca o acento, e nenhum dicionário registra as duas regências para o mesmo verbo aqui.
A fórmula errada tem um irmão que aparece no mesmo documento e engana pelo mesmo caminho. Sito à Rua das Flores, escrito em descrição de imóvel, repete o desvio, porque sito significa situado e pede em: imóvel sito na Rua das Flores. Quem corrige um dos dois no arquivo e deixa o outro entrega um documento meio corrigido.
Na prova objetiva, o enunciado costuma trazer quatro linhas de documento e o pedido para assinalar a alternativa correta quanto ao emprego do acento grave. Entre as opções aparecem um residente à Rua com o acento indevido, um entregue a Rua sem o acento que a frase pede, um sito à Avenida repetindo o desvio da primeira e uma linha correta com a contração na.
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II A Regra
Sem preposição no verbo, o acento perde o apoio
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Residir, morar, ficar e ser sito pedem a preposição em, e o endereço feminino entra na forma contraída na: residente na Rua das Flores. Ir, chegar, dirigir-se e entregar pedem a preposição a, e diante do artigo o acento grave aparece: cheguei à Rua das Flores. O verbo escolhe a preposição, e o acento acompanha a escolha.
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O critério que resolve a linha de endereço não depende de decorar fórmula de cartório. Antes de pôr ou tirar o acento, encontre o verbo ou o nome que governa a expressão, pergunte que preposição ele exige e só então olhe para o artigo. A ordem inversa, olhar primeiro para a palavra Rua, é o que produz o erro, porque Rua aceita artigo em qualquer caso e o artigo sozinho nunca justifica o sinal.
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"A crase é a fusão de duas vogais idênticas numa só."
Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985
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A definição arruma o caso pelo lado certo. Fusão exige duas partes presentes, e uma delas tem que ser a preposição a exigida pela regência. Com residente, a primeira parte nunca chega, então não há o que fundir, e o acento grave vira um enfeite gráfico sem descrição gramatical possível.
O nome residente merece uma nota própria, porque ele acumula funções. Ele funciona como adjetivo, o aluno residente em Blumenau, e como substantivo, o residente do prédio, e nas duas funções guarda a regência do verbo residir. A herança de regência entre verbo e forma nominal explica também obediente a, que pede a, e insistente em, que pede em.
O acento grave tem três condições de existência, e todas precisam ser verdadeiras ao mesmo tempo. A palavra regente precisa pedir a preposição a, a palavra regida precisa ser feminina e a palavra regida precisa aceitar o artigo definido. Falhou uma, o sinal cai. Em residente à Rua falha a primeira, e a falha mora no verbo, longe da palavra que recebeu o acento.
Nome de rua guarda um detalhe que confunde na hora de aplicar a terceira condição. Rua, Avenida, Praça e Alameda são substantivos femininos comuns que aceitam o artigo com naturalidade, e por isso vão à Rua das Flores e cheguei à Praça da Sé levam acento quando o verbo pede a preposição. O nome próprio que vem depois não muda esse comportamento, porque quem recebe o artigo é o substantivo comum que abre a expressão.
Há um vizinho de ficha cadastral que troca a preposição outra vez e passa despercebido. Domiciliado pede em, domiciliado na Rua das Flores, mas o verbo que aparece no mesmo parágrafo de qualificação de parte, comparecer, pede a: compareceu à Rua das Flores para a vistoria. Dois verbos, duas preposições, uma linha só de distância no documento.
No arquivo herdado, o desvio se multiplica por cópia. Modelo de procuração, minuta de contrato e formulário de requerimento guardados em pasta de rede levam a mesma linha de qualificação para dezenas de documentos novos, e um acento indevido no arquivo original reaparece em cada texto, com data de hoje no cabeçalho e nome novo no campo da parte.
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