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ED 043

50% escolheram Residente na Rua. Aqui está.

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Residente na Rua das Flores, a crase que o requerimento não aceita

Residir e morar pedem a preposição em, então o endereço entra com na, e o acento grave copiado de modelo antigo fica sem preposição que o sustente.

Requerimento sobre o balcão com o acento grave riscado a caneta azul.

O acento riscado no requerimento

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“Residente à Rua das Flores, 210." Foi a linha que a auxiliar administrativa digitou no requerimento de matrícula, e ela voltou do balcão com o acento grave riscado a caneta azul pela servidora que conferiu o documento.

O verbo que sustenta a frase manda na preposição, e o verbo ali é residir. Quem reside, reside em algum lugar: resido em Curitiba, resido em um apartamento, resido na Rua das Flores. A forma nominal residente herda a mesma exigência do verbo, porque regência é propriedade da palavra, não da frase em que ela caiu.

A crase depende de uma conta simples que o endereço não fecha. O acento grave marca a fusão de duas vogais iguais, a preposição a somada ao artigo definido a que vem antes do substantivo feminino. Some a preposição, some o motivo do acento. Residir não pede a preposição a em momento algum, logo não existe a primeira vogal da soma, e o sinal fica no ar apoiado em nada.

A origem do desvio tem endereço próprio, e ele fica no arquivo. A fórmula residente à Rua circula em modelo de procuração, minuta de contrato de aluguel e formulário de cartório há décadas, herdada de uma redação forense antiga que tratava o endereço como lugar aonde se vai, e cada pessoa que abre o arquivo para preencher os dados novos copia o acento junto com a estrutura.

O preço aparece onde o texto é conferido por alguém. No concurso público, o item de crase mora entre os mais cobrados em prova de língua portuguesa, e a banca gosta de pôr o endereço no enunciado justamente porque ele parece formal demais para estar errado. No trabalho, o documento volta do balcão ou do jurídico com a correção a caneta, e quem assinou recebe o recado de que ninguém conferiu o arquivo antes de protocolar.

A dúvida de hoje põe três linhas de endereço lado a lado e pergunta em qual delas o acento grave cumpre função. Depois vem a regra que liga a preposição ao verbo e explica quando o acento tem direito de aparecer, e o teste que resolve cada linha trocando o nome da rua por uma palavra de gênero masculino.

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I  A Dúvida do Dia

Três linhas de endereço e só uma pede acento

Uma linha de endereço, um acento grave herdado de modelo antigo e um verbo que nunca pediu essa preposição.

As linhas são estas: residente à Rua das Flores; residente na Rua das Flores; entregue à Rua das Flores, no número 210. A do meio está correta como endereço de morador, a primeira pede a troca do acento pela contração, e a terceira acerta por outro motivo, que vale examinar.

A primeira linha tenta ser formal e escorrega na regência. Residente pede em, e em somado ao artigo a produz na. Escrever residente à Rua das Flores equivale a dizer residente a a Rua, uma preposição que o verbo não pede empilhada num artigo que ficou sem função na frase.

A segunda linha faz o que o verbo manda. Residente na Rua das Flores, morador na Avenida Paulista, domiciliado em Santos: a mesma preposição serve aos três, porque residir, morar e ter domicílio descrevem permanência num lugar, e permanência em português entra pela preposição em.

A terceira linha muda o verbo e muda tudo. Entregar pede complemento com a preposição a, quem entrega entrega alguma coisa a alguém ou a algum lugar, e diante de Rua, substantivo feminino que aceita o artigo, a preposição se funde ao artigo e o acento grave aparece com razão. O sinal não pertence à palavra Rua, pertence ao verbo que rege a frase.

O par de verbos vizinhos ajuda a fixar o critério. Ir e chegar pedem a preposição a: vou à Rua das Flores, cheguei à Avenida Brasil. Residir, morar e ficar pedem em: resido na Rua das Flores, moro na Avenida Brasil. Trocar um verbo pelo outro na mesma frase troca a preposição e troca o acento, e nenhum dicionário registra as duas regências para o mesmo verbo aqui.

A fórmula errada tem um irmão que aparece no mesmo documento e engana pelo mesmo caminho. Sito à Rua das Flores, escrito em descrição de imóvel, repete o desvio, porque sito significa situado e pede em: imóvel sito na Rua das Flores. Quem corrige um dos dois no arquivo e deixa o outro entrega um documento meio corrigido.

Na prova objetiva, o enunciado costuma trazer quatro linhas de documento e o pedido para assinalar a alternativa correta quanto ao emprego do acento grave. Entre as opções aparecem um residente à Rua com o acento indevido, um entregue a Rua sem o acento que a frase pede, um sito à Avenida repetindo o desvio da primeira e uma linha correta com a contração na.

 
 

II  A Regra

Sem preposição no verbo, o acento perde o apoio

Residir, morar, ficar e ser sito pedem a preposição em, e o endereço feminino entra na forma contraída na: residente na Rua das Flores. Ir, chegar, dirigir-se e entregar pedem a preposição a, e diante do artigo o acento grave aparece: cheguei à Rua das Flores. O verbo escolhe a preposição, e o acento acompanha a escolha.

O critério que resolve a linha de endereço não depende de decorar fórmula de cartório. Antes de pôr ou tirar o acento, encontre o verbo ou o nome que governa a expressão, pergunte que preposição ele exige e só então olhe para o artigo. A ordem inversa, olhar primeiro para a palavra Rua, é o que produz o erro, porque Rua aceita artigo em qualquer caso e o artigo sozinho nunca justifica o sinal.

"A crase é a fusão de duas vogais idênticas numa só."

Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985

A definição arruma o caso pelo lado certo. Fusão exige duas partes presentes, e uma delas tem que ser a preposição a exigida pela regência. Com residente, a primeira parte nunca chega, então não há o que fundir, e o acento grave vira um enfeite gráfico sem descrição gramatical possível.

O nome residente merece uma nota própria, porque ele acumula funções. Ele funciona como adjetivo, o aluno residente em Blumenau, e como substantivo, o residente do prédio, e nas duas funções guarda a regência do verbo residir. A herança de regência entre verbo e forma nominal explica também obediente a, que pede a, e insistente em, que pede em.

O acento grave tem três condições de existência, e todas precisam ser verdadeiras ao mesmo tempo. A palavra regente precisa pedir a preposição a, a palavra regida precisa ser feminina e a palavra regida precisa aceitar o artigo definido. Falhou uma, o sinal cai. Em residente à Rua falha a primeira, e a falha mora no verbo, longe da palavra que recebeu o acento.

Nome de rua guarda um detalhe que confunde na hora de aplicar a terceira condição. Rua, Avenida, Praça e Alameda são substantivos femininos comuns que aceitam o artigo com naturalidade, e por isso vão à Rua das Flores e cheguei à Praça da Sé levam acento quando o verbo pede a preposição. O nome próprio que vem depois não muda esse comportamento, porque quem recebe o artigo é o substantivo comum que abre a expressão.

Há um vizinho de ficha cadastral que troca a preposição outra vez e passa despercebido. Domiciliado pede em, domiciliado na Rua das Flores, mas o verbo que aparece no mesmo parágrafo de qualificação de parte, comparecer, pede a: compareceu à Rua das Flores para a vistoria. Dois verbos, duas preposições, uma linha só de distância no documento.

No arquivo herdado, o desvio se multiplica por cópia. Modelo de procuração, minuta de contrato e formulário de requerimento guardados em pasta de rede levam a mesma linha de qualificação para dezenas de documentos novos, e um acento indevido no arquivo original reaparece em cada texto, com data de hoje no cabeçalho e nome novo no campo da parte.

 

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III  O Teste

Troque a rua por um nome masculino e ouça

1. Troque o nome feminino por um masculino equivalente e ouça o que sai. Residente no Largo do Machado sai com no, logo a versão feminina pede na, e o acento cai. Se a troca produzisse ao, a frase pediria o acento grave: cheguei ao Largo do Machado indica que cheguei à Praça da Sé leva o sinal.

2. Isole o verbo ou o nome que governa a expressão e pergunte a preposição dele em voz alta. Residir em, morar em, domiciliado em, sito em, todos com em. Ir a, chegar a, entregar a, dirigir-se a, todos com a. A resposta vem do verbo, nunca da palavra Rua.

3. Confirme as três condições do acento antes de digitar o sinal. Preposição a exigida pela regência, palavra feminina e artigo aceito pela palavra. As três verdadeiras, o acento entra. Uma falsa, a linha fica sem sinal, com na ou com a preposição sozinha.

Aplicado às linhas da abertura, o teste fecha cada uma em segundos. A primeira troca por no Largo e vira residente na Rua das Flores. A segunda passa nas três condições pelo lado da regência e fica como está. A terceira troca por ao Largo, confirma a preposição do verbo entregar e mantém o acento em entregue à Rua das Flores.

Na revisão de um arquivo herdado, o mesmo raciocínio limpa o documento inteiro rápido. Quem abre uma minuta antiga busca a sequência à Rua e a sequência à Avenida no texto todo, olha qual palavra governa cada ocorrência e troca pela contração na sempre que encontrar residente, morador, domiciliado ou sito antes do acento.

O custo do desvio não se limita ao ponto da questão de prova. Numa procuração levada a cartório, na qualificação da parte de um contrato de aluguel ou no requerimento entregue num balcão de atendimento, o acento indevido aparece na primeira linha que descreve quem é a pessoa, e quem confere o documento começa a leitura desconfiando do restante do arquivo.

Das três linhas da abertura, residente na Rua das Flores e entregue à Rua das Flores estão corretas, cada uma pela regência do próprio verbo, enquanto residente à Rua das Flores põe um acento grave sobre uma preposição que o verbo residir nunca pediu.

"No último documento que você preencheu, o endereço entrou com na ou com acento?"

Confira antes de protocolar o documento: se cada residente, morador e domiciliado vem seguido de na,
se cada acento grave sobre Rua e Avenida tem um verbo de destino governando a frase,
se a troca do nome feminino por um masculino devolve no e não ao.

 
 
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No texto, qual verbo exige a preposição "a" e por isso justifica o acento grave diante de "Rua das Flores"?

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