De onde vem requerer e onde ele se separa de querer.
Querer e requerer vêm da mesma raiz latina, mas o português conjugou cada um por um caminho. Querer guardou as formas irregulares; requerer ficou quase regular.
A raiz comum é o latim quaerere (procurar, pedir). Dela saiu querer. Com o prefixo re, que marca insistência, o latim formou requirere, origem de requerer, o verbo de pedir com formalidade a uma autoridade, por escrito e com base num direito.
Querer carrega irregularidades antigas. No passado, a forma é eu quis, ele quis; no subjuntivo, se eu quisesse e quando eu quiser. Todas saem de um radical próprio, quis, diferente do radical quer do infinitivo.
Requerer não levou esse radical. No passado, o radical requer recebe as terminações comuns da segunda conjugação (a dos verbos terminados em er): eu requeri, tu requereste, ele requereu, eles requereram, do mesmo jeito que vendi, vendeste, vendeu.
O verbo tem só duas marcas próprias. A primeira é eu requeiro, com i, na primeira pessoa do presente. A segunda é ele requer, sem e no fim, na terceira pessoa do singular.
A primeira marca contagia outro tempo. Como o presente do subjuntivo nasce da primeira pessoa do presente do indicativo, o i passa para todas as pessoas: que eu requeira, que ele requeira, que nós requeiramos, que eles requeiram.
A segunda marca explica a confusão. Na terceira pessoa do presente, requerer imita querer: ele quer, ele requer. O ouvido aprende a copiar nesse ponto e estende a cópia para o passado, onde ela já não funciona.
O erro requere vem do lado oposto. O falante compara com os verbos regulares, ele vende, ele bebe, e acrescenta o e. O Michaelis registra só requer para a terceira pessoa do presente do indicativo.
O erro requis segue a analogia com quis. A forma não aparece no Michaelis nem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP, lista oficial de palavras publicada pela Academia Brasileira de Letras.
O erro requero junta as duas confusões: copia o quero de querer e apaga o i que só requerer tem. Na prova, aparece em frases na primeira pessoa, como eu requero a revisão da questão.
Os compostos de querer contam outra história. Bem-querer e malquerer são formados do próprio querer e conjugam como ele: ela bem-quis o afilhado a vida inteira. Requerer chegou ao português já formado no latim e não segue o querer.
O mesmo desencontro aparece em outro par conhecido das bancas. Prever conjuga como ver (ele previu), mas prover segue a regra comum (ele proveu). A semelhança na grafia não garante a mesma conjugação.
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