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Requerer não se conjuga como querer

Ele requer, eu requeiro, ele requereu. A banca aposta em requere e requis, formas copiadas do verbo querer.

Requerimento de revisão de prova com a palavra requer sublinhada a caneta.

Ele requer, ele requereu, nunca requis

▼
 

Requere, com um e sobrando no fim, foi a palavra que custou o ponto na peça de um candidato a concurso: “O interessado requere a revisão da nota.” A forma registrada no dicionário Michaelis é requer, sem o e.

Na mesma prova, outra frase caiu na armadilha oposta: “O advogado requis cópia do processo.” O passado do verbo é requereu, e requis não aparece nos dicionários de referência.

Os dois erros nascem do mesmo reflexo. Quem escreve requerer pensa em querer, o verbo mais próximo de ouvido, e copia a conjugação dele: se ele quis, então ele requis; se eu quero, então eu requero.

O raciocínio parece sólido, porque as duas palavras dividem quase todas as letras. A gramática, porém, trata os dois verbos como famílias separadas. Querer é irregular em vários tempos; requerer muda em poucos pontos e, no resto, segue o modelo comum dos verbos terminados em er, como vender e beber.

O Michaelis, dicionário publicado pela editora Melhoramentos, traz a conjugação completa: eu requeiro, tu requeres, ele requer, nós requeremos, eles requerem. No pretérito perfeito (o passado da ação concluída), eu requeri e ele requereu.

A banca conhece o atalho do ouvido. Requerimento, requerente e requerer aparecem em todo edital, e a questão de conjugação costuma esconder o erro numa frase de tom jurídico, em que a forma errada soa mais solene que a certa.

Confiar no corretor do computador é arriscado, e na prova em papel ele nem existe. Sobra o candidato com a frase na frente e a dúvida na cabeça, sem tempo de consultar nada.

A escolha certa depende de uma pergunta só: o verbo da frase é querer ou requerer? Se for requerer, a conjugação deixa o querer para trás em quase todos os tempos.

Logo abaixo, de onde vem a confusão entre os dois verbos, a conjugação que vale na prova e as trocas para conferir a frase antes de entregar o recurso.

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I  A Dúvida do Dia

Primos com conjugações diferentes

De onde vem requerer e onde ele se separa de querer.

Querer e requerer vêm da mesma raiz latina, mas o português conjugou cada um por um caminho. Querer guardou as formas irregulares; requerer ficou quase regular.

A raiz comum é o latim quaerere (procurar, pedir). Dela saiu querer. Com o prefixo re, que marca insistência, o latim formou requirere, origem de requerer, o verbo de pedir com formalidade a uma autoridade, por escrito e com base num direito.

Querer carrega irregularidades antigas. No passado, a forma é eu quis, ele quis; no subjuntivo, se eu quisesse e quando eu quiser. Todas saem de um radical próprio, quis, diferente do radical quer do infinitivo.

Requerer não levou esse radical. No passado, o radical requer recebe as terminações comuns da segunda conjugação (a dos verbos terminados em er): eu requeri, tu requereste, ele requereu, eles requereram, do mesmo jeito que vendi, vendeste, vendeu.

O verbo tem só duas marcas próprias. A primeira é eu requeiro, com i, na primeira pessoa do presente. A segunda é ele requer, sem e no fim, na terceira pessoa do singular.

A primeira marca contagia outro tempo. Como o presente do subjuntivo nasce da primeira pessoa do presente do indicativo, o i passa para todas as pessoas: que eu requeira, que ele requeira, que nós requeiramos, que eles requeiram.

A segunda marca explica a confusão. Na terceira pessoa do presente, requerer imita querer: ele quer, ele requer. O ouvido aprende a copiar nesse ponto e estende a cópia para o passado, onde ela já não funciona.

O erro requere vem do lado oposto. O falante compara com os verbos regulares, ele vende, ele bebe, e acrescenta o e. O Michaelis registra só requer para a terceira pessoa do presente do indicativo.

O erro requis segue a analogia com quis. A forma não aparece no Michaelis nem no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP, lista oficial de palavras publicada pela Academia Brasileira de Letras.

O erro requero junta as duas confusões: copia o quero de querer e apaga o i que só requerer tem. Na prova, aparece em frases na primeira pessoa, como eu requero a revisão da questão.

Os compostos de querer contam outra história. Bem-querer e malquerer são formados do próprio querer e conjugam como ele: ela bem-quis o afilhado a vida inteira. Requerer chegou ao português já formado no latim e não segue o querer.

O mesmo desencontro aparece em outro par conhecido das bancas. Prever conjuga como ver (ele previu), mas prover segue a regra comum (ele proveu). A semelhança na grafia não garante a mesma conjugação.

 
 

II  A Regra

Requeiro, requer, requereu

Requerer só se afasta do modelo de vender em dois pontos: eu requeiro e ele requer. Nos outros tempos, conjugue como um verbo regular terminado em er.

O presente do indicativo é o tempo que mais cai. As seis pessoas, uma por linha:

• eu requeiro

• tu requeres

• ele requer

• nós requeremos

• vós requereis

• eles requerem

O plural não tem armadilha própria. Eles requerem segue o modelo de eles vendem, e a banca raramente mexe nele.

O pretérito perfeito do indicativo é o segundo tempo mais cobrado, porque é ali que requis aparece:

• eu requeri

• tu requereste

• ele requereu

• nós requeremos

• vós requerestes

• eles requereram

Nós requeremos serve ao presente e ao passado, como acontece com nós vendemos. O contexto da frase diz qual dos dois tempos está em jogo.

O pretérito imperfeito do subjuntivo, usado depois de se, também foge de querer. O certo é se eu requeresse, se ele requeresse, se eles requeressem. A forma requisesse, copiada de quisesse, não existe.

O futuro do subjuntivo, usado depois de quando e se, é a pegadinha mais fina. Quando o candidato requerer vista da prova, o prazo começa a contar. A forma requiser, copiada de quiser, está errada.

Nesse tempo, a forma coincide com o infinitivo: requerer. O candidato estranha a repetição e corrige para requiser. A repetição é correta e acontece com todos os verbos regulares: quando ele vender, quando ele beber.

O mais-que-perfeito (o passado anterior a outro passado) segue o mesmo caminho: ele requerera, nunca requisera. O tempo é raro na fala, mas aparece em texto jurídico e em questão de prova.

O particípio é requerido. Ele forma os tempos compostos, como tinha requerido, e funciona como adjetivo: o documento requerido, a vaga requerida.

A comparação lado a lado resolve a memória. Querer faz quis, quisesse, quiser. Requerer faz requereu, requeresse, requerer. Os dois só se encontram na terceira pessoa do presente, quer e requer.

O substantivo da família ajuda a lembrar. Quem pede é o requerente; o pedido é o requerimento. As duas palavras guardam o radical requer inteiro, o mesmo do passado requereu.

 

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III  O Teste

Três trocas antes do recurso

Diante de uma forma de requerer na prova, três trocas resolvem a escolha.

1. Troque requerer por vender. Se a forma de vender sai regular, como vendeu, vendesse, vender, a de requerer sai igual: requereu, requeresse, requerer.

2. Confira a primeira pessoa do presente. Se a frase traz eu no presente, escreva requeiro, com i, e nunca requero.

3. Confira a terceira pessoa do presente. Se a frase traz ele ou ela no presente, escreva requer, sem e no fim.

Aplicado à peça do candidato: o interessado requere vira, pela troca, o interessado vende, e a terceira pessoa de requerer é a exceção sem e. A forma certa é o interessado requer a revisão da nota.

Aplicado à frase do advogado: requis vira vendeu pela troca, e o modelo devolve requereu. A forma certa é o advogado requereu cópia do processo.

Na prova, o par costuma vir assim. Marque a frase com a conjugação correta: (A) O candidato requere a revisão da nota. (B) Ele requis o documento no protocolo. (C) Eu requero vista da prova. (D) Ela requereu a revisão da questão.

A alternativa A acrescenta o e que o Michaelis não registra. A B copia o passado de querer. A C copia o quero e apaga o i de requeiro.

A D é o gabarito. O passado segue o modelo de vender, e requereu aparece na conjugação registrada pelo Michaelis.

A banca também cobra o futuro do subjuntivo numa frase de edital: caso o candidato requiser a revisão, o pedido será analisado em cinco dias. A troca por vender dá caso o candidato vender, e a forma certa é caso o candidato requerer.

No texto do recurso, a busca do editor resolve em segundos. Procure por requis, requere e requero antes de protocolar o pedido e troque cada ocorrência pela forma da conjugação.

No celular, o teclado completa a palavra pelas primeiras letras. Quem digita req e aceita a sugestão sem olhar pode ganhar requisito no lugar de requereu, e a frase muda de sentido.

Na redação discursiva, o erro de conjugação conta como desvio de norma, e numa peça de recurso a forma errada aparece logo na primeira linha, no requer do pedido. O avaliador encontra o erro antes de ler o argumento.

Confira antes de protocolar o recurso: ele requer, sem e no fim,
eu requeiro, com i,
ele requereu no passado, nunca requis.

 
 
Quiz da edição

Na edição, qual é a forma correta do pretérito perfeito do indicativo (passado) do verbo requerer, usada na frase sobre o advogado que pediu cópia do processo?

Arequis
Brequeriu
Crequereu
Drequerou

Resultado da última edição: 67% acertaram.

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