|
|
|
I A Dúvida do Dia
Uma letra entre o geral e o definido
|
A resposta de ontem Em que ano saiu a primeira edição do Manual da Presidência? A primeira edição saiu em 1991, preparada por uma comissão coordenada por Gilmar Ferreira Mendes, então assessor jurídico da Presidência. A segunda veio em 2002, e a terceira, revista e ampliada, em 2018, já com o padrão ofício unificando o antigo memorando e o aviso. |
Por que o artigo decide o gênero do adjetivo.
Com artigo, a entrada é uma entrada específica, e o adjetivo concorda: é proibida a entrada. Sem artigo, entrada vira ideia geral, e o adjetivo fica no masculino: é proibido entrada.
A diferença está no sentido. Quando alguém escreve a entrada, aponta uma entrada definida, a deste prédio, desta garagem, desta porta. O substantivo ganha contorno, e o adjetivo se ajusta ao seu gênero.
Quando alguém escreve só entrada, sem artigo, fala do ato de entrar em geral. A frase equivale a é proibido entrar, com o verbo no infinitivo, e o adjetivo assume a forma neutra que o português dá ao masculino singular.
A gramática tradicional chama essa forma de invariável. Celso Cunha e Lindley Cintra registram o caso na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de 1985, ao tratar das expressões é bom, é necessário e é proibido: sem determinante, o adjetivo não flexiona.
Os dois autores dão exemplos com outras palavras do mesmo molde. Água é bom para a saúde, com o substantivo genérico, ao lado de a água é boa, com artigo. Cerveja é bom no verão, ao lado de esta cerveja está boa.
O raciocínio se repete. Sem determinante, o substantivo funciona como um conceito, quase um verbo disfarçado, e a frase descreve uma regra ampla. Com determinante, o substantivo vira um objeto concreto, e a frase descreve esse objeto.
Daí o efeito na placa. É proibida a entrada fala da entrada daquele lugar, com endereço. É proibido entrada soa mais seco, como norma geral, e serve tanto quanto a outra forma para um aviso público.
As duas construções têm o mesmo valor jurídico e a mesma correção gramatical. A escolha entre elas depende do tom que o síndico, a loja ou o hospital querem dar ao aviso.
O erro só nasce na mistura. É proibido a entrada põe artigo e mantém o masculino, e o adjetivo deixa de acompanhar o substantivo que ele qualifica. É proibida entrada faz a concordância sem o artigo que a justificaria.
O mesmo critério aparece em outras gramáticas brasileiras. Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa, edição revista de 1999, trata o caso pelo mesmo caminho, e o Ciberdúvidas, do lado de Portugal, repete a explicação em respostas para leitores de vários países.
A regra, portanto, atravessa o oceano sem mudar. Brasileiros e portugueses escrevem é proibida a entrada e é proibido entrada nas mesmas condições, e as duas normas cultas tratam a mistura como erro de concordância.
|
|
|
|
|
II A Regra
Permitido, necessário e bom seguem o mesmo trilho
|
|
Toda expressão formada por ser mais adjetivo, quando o sujeito é um substantivo, obedece à mesma lei: artigo pede concordância, ausência de artigo pede masculino singular.
|
A placa da biblioteca serve de exemplo. É permitida a consulta, com artigo, concorda no feminino. É permitido consulta, sem artigo, fica no masculino. As duas frases estão corretas, cada uma no seu regime.
O balcão de atendimento traz outro par. É necessária a apresentação do documento, com artigo, concorda. É necessário apresentação de documento, sem artigo, fica invariável.
A regra funciona no plural. São proibidas as visitas fora do horário concorda em gênero e número, porque as visitas vem com artigo. É proibido visitas fora do horário mantém o masculino singular, porque visitas aparece sem determinante.
O pronome demonstrativo produz o mesmo efeito do artigo. Esta consulta é permitida, essa paciência é necessária, aquela pimenta é boa: o demonstrativo define o substantivo, e o adjetivo acompanha.
O pronome possessivo também. Sua presença é necessária concorda no feminino, porque sua especifica de quem é a presença. Presença é necessário, sem possessivo, soaria estranho em qualquer registro e quase nunca aparece escrito.
A posição das palavras não altera o resultado. A entrada é proibida e é proibida a entrada dizem o mesmo, e nos dois casos o adjetivo concorda, porque o artigo está lá.
A lista de adjetivos que entram nesse molde é longa. Proibido, permitido, necessário, preciso, bom, ótimo, vedado, obrigatório, recomendado. Em todos, a pergunta é uma só: o substantivo vem com determinante ou sem?
Nos concursos, as bancas exploram o par com frequência em questões de concordância nominal. A pegadinha mais comum troca a ordem das palavras ou insere um adjunto longo entre o adjetivo e o substantivo, para que o candidato perca a pista do artigo.
Um exemplo do tipo: é necessária, para a matrícula de alunos novos, a apresentação de três documentos. O artigo a está longe, depois da vírgula, mas continua definindo apresentação, e o adjetivo deve seguir no feminino.
A ausência de artigo também se esconde. É obrigatório uso de máscara aparece em placas de hospital, sem determinante antes de uso, e está correta no masculino. Com artigo, a forma seria é obrigatório o uso, e o masculino continua, porque uso é palavra masculina.
|
| |
|