Por que preferir dispensa o mais e o do que.
Preferir significa escolher uma opção acima de outra. Por esse motivo, o verbo dispensa mais, muito e do que.
O verbo veio do latim praeferre (levar à frente, pôr adiante). O prefixo prae, que quer dizer diante, já marcava a posição de vantagem, e o português herdou a ideia inteira.
Quem prefere já põe uma opção à frente da outra. Dizer prefiro mais equivale a dizer ponho mais à frente, uma dose dupla da mesma ideia. A gramática normativa trata a soma como pleonasmo, igual a subir para cima.
Celso Pedro Luft, no Dicionário Prático de Regência Verbal (1987), registra preferir como verbo de dois complementos: o escolhido sem preposição e o preterido com a preposição a. A obra virou consulta de banca por listar a regência verbo por verbo.
Luft lecionou por décadas no Rio Grande do Sul e escreveu também a Moderna Gramática Brasileira. No verbete de preferir, ele anota o uso do que como corrente na fala e fora da norma padrão.
Napoleão Mendes de Almeida, no Dicionário de Questões Vernáculas (1981), condena o prefiro mais e o prefiro do que com o mesmo argumento: a comparação já mora no verbo.
O do que entra por contágio. Expressões vizinhas, como gostar mais, querer mais e achar melhor, pedem do que, e o falante transfere a ligação para o verbo que não a aceita.
Com infinitivos, a troca fica ainda mais tentadora. Prefiro sair do que ficar soa como prefiro mais sair do que ficar, e a cabeça completa a comparação sozinha, mesmo sem o mais escrito.
O adjetivo da família segue a mesma regra. Preferível também pede a: é preferível sair a ficar. Mais preferível e preferível do que caem no mesmo erro do verbo.
O substantivo preferência muda a preposição: dar preferência a, ter preferência por. O reforço com mais continua sobrando, porque a palavra já traz a ideia de vantagem.
A fala do dia a dia segue outro caminho, e ninguém perde a conversa por dizer prefiro mais. A cobrança existe no texto formal e na prova, onde a banca adota a norma padrão registrada nos dicionários de regência.
Para quem quer ênfase, a língua oferece saídas próprias. Prefiro, sem dúvida, sair a ficar e prefiro de longe sair a ficar reforçam a escolha com uma expressão à parte, sem somar grau ao verbo.
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