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Prefiro café a chá, nunca café do que chá
O verbo preferir já carrega a comparação e aceita uma preposição só antes do termo deixado de lado.
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O verbo já compara, a preposição só aponta
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Afila da cafeteria anda rápido às sete e vinte da manhã, e o pedido sai em seis palavras: prefiro café do que chá. O copo atravessa o balcão em um minuto, ninguém pede explicação, e a frase cumpre o serviço inteiro sem levantar suspeita.
Escrita, a mesma frase perde a proteção da pressa. Ela vai parar no email que confirma a reunião, na legenda do post, na resposta de um formulário e na questão de língua portuguesa que vale ponto no espelho de correção.
O verbo preferir tem uma característica que quase nenhum falante nota: ele já compara sozinho. Dentro dele mora a ideia de pôr uma coisa à frente da outra, e a comparação não precisa ser dita duas vezes na mesma frase.
Quando o do que entra, a linha repete o serviço que o verbo já prestou. O mesmo acontece com o mais, com o antes e com o mil vezes, três reforços que aparecem em construções como prefiro muito mais café do que chá.
A norma escrita pede uma peça só nesse lugar, e ela tem uma letra: a preposição a. Prefiro café a chá tem tudo que a frase precisa, e qualquer acréscimo depois do verbo vira excesso.
Na prova, o item raramente chega limpo. A banca escreve um período comprido, esconde o par no meio dele e monta as alternativas com as duas versões, cercadas por orações longas que só consomem o seu tempo de leitura.
Fora da prova, a construção circula em conversa de trabalho, em avaliação de restaurante, em carta de apresentação e em mensagem de família. Ninguém corrige, a informação chega inteira, e a forma fora da norma segue viva em cada repetição.
A questão de hoje começa pelo formato em que a dúvida aparece na tela. Depois vem a regra que cabe em uma linha, o caso da crase que pega quem já acertou a preposição, e o corte de cinco segundos que resolve antes de você apertar enviar.
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I A Dúvida do Dia
A frase que ganha uma peça a mais
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Duas versões da mesma preferência, e só uma traz a peça que a norma pede.
A dúvida aparece na tela com as duas versões lado a lado: prefiro café a chá ou prefiro café do que chá? As duas circulam em mensagem de trabalho, em prova e em conversa de balcão, e a maioria dos leitores passa por elas sem parar.
A norma escrita reconhece uma só. O verbo preferir liga dois termos, e o segundo entra na frase preso à preposição a: prefiro café a chá, prefiro praia a serra, prefiro caminhar a correr.
O do que não é uma peça errada da língua, é uma peça de outro lugar. Ela pertence às construções que comparam de fora, com um comparativo à mostra: mais rápido do que, melhor do que, pior do que, mais barato do que.
Em todas essas linhas existe uma palavra encarregada da comparação, e o do que apenas abre o segundo termo. Com preferir não há palavra nenhuma cumprindo esse papel, porque quem compara é o próprio verbo.
A origem do escorregão fica visível quando as duas famílias aparecem juntas. Gosto mais de café do que de chá está correta, e a frase vizinha, prefiro café do que chá, copia o mesmo desenho e sai da norma.
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O do que não entra por descuido: ele entra porque a construção ao lado, com gosto mais, pede exatamente essa peça e soa igual ao ouvido de quem escreve com pressa.
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O reforço é a segunda frente do desvio, e ela é mais teimosa. Prefiro mil vezes café, prefiro muito mais café, prefiro antes café: em toda linha dessa família, a comparação aparece duas vezes e o verbo perde a vez.
A banca conhece o hábito e trabalha em cima dele. O primeiro disfarce é a distância entre os dois termos, com uma oração inteira enfiada no meio, como em prefiro o texto que ele revisou ontem ao que chegou hoje.
O segundo disfarce é o infinitivo. Em prefiro sair a ficar em casa, o par não é formado por dois substantivos, e a mesma preposição continua obrigatória, mesmo quando a frase pede uma leitura mais lenta.
O terceiro disfarce é a crase, e ele pega quem já acertou a preposição. Em prefiro o cinema à televisão, o a da regência se encontra com o artigo do termo feminino, e o acento passa a ser exigido.
Longe da sala de prova, a construção não custa nada a quem escreve. Ela aparece na avaliação de hotel, no email que agenda a reunião, na resposta de pesquisa e na legenda que anuncia a preferência do dia.
Quem lê a legenda não comenta a troca, e quem presta concurso descobre o custo de outro jeito: a linha vira alternativa marcada em vermelho, o ponto sai da conta e o gabarito publicado não aceita recurso.
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II A Regra
A comparação já mora no verbo
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Preferir pede dois complementos: o termo escolhido entra direto, sem preposição, e o termo deixado de lado entra com a preposição a. Não cabe do que, não cabe que, não cabe mais nem antes.
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A regra tem uma decisão só, e ela não depende do tom da frase nem do tamanho do período. Olha-se o segundo termo da comparação e confere-se a peça que o abre: se for do que ou que, troca-se por a.
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"Prefiro cinema a teatro. Evite-se dizer: prefiro cinema do que teatro."
Domingos Paschoal Cegalla, Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, 2008
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A gramática registra a construção como regência, não como estilo. Preferir é transitivo direto e indireto: o termo escolhido é objeto direto e o termo preterido é objeto indireto, regido pela preposição a.
A explicação de por que a comparação já vem pronta está na formação do verbo. Preferir carrega a ideia de levar à frente, e quem leva uma coisa à frente já deixou outra atrás, sem precisar de palavra extra na frase.
A primeira situação é a dos dois substantivos, e ela cobre a maioria das ocorrências: prefiro café a chá, prefiro praia a serra, prefiro o ônibus ao metrô, prefiro a estrada à cidade.
A segunda é a dos verbos no infinitivo, e a preposição não muda: prefiro sair a ficar, prefiro caminhar a correr, prefiro escrever à mão a digitar. O par continua sendo dois termos comparados pelo mesmo verbo.
A terceira é a da crase, e ela é a que mais rende questão. O a da regência se soma ao artigo do termo feminino, e o resultado leva acento: prefiro o teatro à televisão, prefiro a praia à serra, prefiro a manhã à noite.
O acento some quando o segundo termo é masculino ou quando ele é um verbo: prefiro café a chá, prefiro caminhar a correr, prefiro ler a ver televisão. O teste de trocar o termo por um masculino continua servindo aqui.
Os reforços caem pela mesma razão. Prefiro muito mais café a chá, prefiro mil vezes café, prefiro antes café: o advérbio empurra uma segunda comparação para dentro de uma frase que já tinha a sua.
Quem quiser usar do que tem uma saída limpa, que é trocar o verbo. Gosto mais de café do que de chá está correta, e a mesma informação chega sem nenhuma peça sob suspeita no meio do caminho.
A hipercorreção também existe aqui, e ela nasce de aplicar a regra fora do lugar. Quem aprende que o do que sai com preferir às vezes o retira de onde ele é obrigatório e escreve gosto mais de café a chá.
A linha acima está fora da norma pelo motivo inverso. O comparativo mais exige o do que para abrir o segundo termo, e a preposição a pertence à regência de preferir, nunca à de gostar.
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