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ED 005

Por que não veio, não veio por quê

A mesma pergunta muda de grafia quando muda de lugar na frase, e dois testes de troca separam as quatro formas em dez segundos.

Uma folha de caderno com a mesma pergunta escrita quatro vezes, cada linha com uma grafia diferente, e um lápis vermelho parado ao lado da última.

A posição da palavra decide o acento

 

Apergunta chega às onze da noite, com cinco palavras no aplicativo: o prazo mudou por quê? A resposta vem um minuto depois, com a mesma família de palavras em outra forma: mudou porque o fornecedor atrasou. As duas linhas estão escritas corretamente.

Por que, porque, por quê e porquê são quatro grafias do mesmo material. Duas separadas, duas coladas, duas com acento circunflexo, duas sem. A combinação fecha em quatro possibilidades exatas, e a norma escrita deu uma função a cada uma delas.

A escolha não depende de formalidade nem do tamanho da frase. Ela depende de duas informações objetivas: o serviço que a palavra presta ali, se pergunta, se responde ou se nomeia o motivo, e o lugar que ela ocupa, se no meio ou no fim.

A segunda informação é a que derruba mais gente. Quem estuda o assunto decora a lista das quatro funções, acerta as três primeiras sem esforço e escorrega justamente no acento que aparece só por causa da posição da palavra.

Na prova, a pegadinha tem endereço fixo. A banca escreve uma frase longa e empurra a pergunta para o final, onde o par separado precisa ganhar o circunflexo, e monta a alternativa errada com a mesma linha sem o acento. As duas parecem idênticas numa leitura rápida.

Fora da prova, a troca circula em email de trabalho, em legenda de post e em cobrança de cliente, e quase ninguém comenta o deslize. O texto segue, o sentido chega inteiro, e a grafia continua errada em todas as cópias encaminhadas depois.

A questão de hoje começa pela forma como a dúvida chega, com as quatro grafias enfileiradas na mesma pergunta. Depois vem a regra que dá um serviço a cada uma, o que muda quando um artigo aparece na frente, e o par de testes que decide a grafia antes de você apertar enviar.

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I  A Dúvida do Dia

Quatro grafias, uma pergunta só

Quatro grafias possíveis, e a posição da palavra decide qual delas entra.

A dúvida chega quase sempre nesta forma: você não veio por que ou você não veio por quê? As duas versões aparecem em mensagem, em email de trabalho e em prova, e a maioria dos leitores passa por elas sem parar.

A norma escrita reconhece uma só nesse lugar. A pergunta está no fim da frase, e o par separado que fecha a frase leva acento circunflexo. Você não veio por quê é a forma correta, e a versão sem acento entra na conta de desvio.

Mude a palavra de lugar e a resposta se inverte. Por que você não veio abre a frase e dispensa o acento, porque ali a palavra não está no ponto de pausa. O sentido é o mesmo, o par continua separado, e só o acento mudou de status.

A origem do escorregão é fácil de reconstruir. Quem escreve trata o circunflexo como marca de pergunta: se a frase termina em interrogação, o acento entra por reflexo. O reflexo acerta em não veio por quê e erra em por quê você não veio, com a mesma convicção nas duas vezes.

O erro tem duas direções, e a segunda é mais teimosa. A primeira é esquecer o acento no fim da frase. A segunda é espalhar o acento pelo meio do texto, e essa versão tem cara de escrita caprichada, difícil de flagrar na releitura.

Nenhuma das quatro grafias é mais elegante que as outras: cada uma tem um serviço, e o erro está em trocar o serviço, nunca no nível de formalidade.

A banca raramente entrega a frase nua. O primeiro disfarce é a pergunta indireta, sem ponto de interrogação no fim: não sei por que você não veio. Continua sendo pergunta, continua separada, e a ausência do sinal engana quem procura interrogação para decidir.

O segundo disfarce é o artigo na frente da palavra. Ninguém explicou o porquê da recusa traz um substantivo, escrito colado e com acento, e ele aceita plural: os porquês. Basta o determinante aparecer para a grafia mudar inteira.

O terceiro disfarce é o par separado que não pergunta nada. Em o caminho por que passei, a construção equivale a pelo qual, e a frase segue sem acento e sem pergunta nenhuma. É a forma menos comum das quatro e a mais fácil de marcar errado.

A mesma construção circula longe da sala de prova. A linha explique porquê o prazo mudou abre email corporativo toda semana, e o você vai desistir por que aparece em legenda de post, em cobrança de cliente e no aviso que a equipe manda para o time.

Quem lê o email quase nunca comenta a grafia trocada, e quem estuda para prova não tem a mesma sorte. Ali a construção vira alternativa marcada em vermelho, com ponto perdido no espelho de correção e nenhuma chance de recurso depois do gabarito publicado.

 
 

II  A Regra

Junto responde, separado pergunta

Separado e sem acento, por que pergunta ou equivale a pelo qual. Separado e com acento, por quê faz o mesmo serviço, só que no fim da frase. Colado e sem acento, porque responde e equivale a pois. Colado e com acento, o porquê é substantivo e equivale a o motivo.

A regra cabe em quatro linhas porque o mecanismo é de escolha dupla. Uma decisão define se as palavras andam separadas ou coladas, e a outra decide se o acento entra. Nenhuma das duas depende do tom nem do tamanho da frase.

"Acentuam-se os monossílabos tônicos terminados em a, e, o, seguidos ou não de s."

Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, 2009

A citação explica o acento inteiro. O que fecha a frase é pronunciado com força, vira monossílabo tônico terminado em e, e recebe o circunflexo por causa disso. No meio da frase a mesma palavra perde a força e devolve o acento.

A primeira grafia é a interrogativa separada, sem acento, e ela vale para pergunta direta e para pergunta indireta: por que o prazo mudou, não sei por que o prazo mudou. Em toda ocorrência dessa família cabe a troca por por qual motivo.

A segunda grafia é a mesma pergunta empurrada para o fim. O prazo mudou por quê, ele desistiu por quê, e a mesma exigência vale antes de reticências ou de ponto final: ninguém explicou por quê.

A terceira grafia é a conjunção, colada e sem acento, e ela responde em vez de perguntar. Não fui porque chovia, o prazo mudou porque o fornecedor atrasou. No lugar dela cabe pois, já que ou uma vez que, sem mexer no resto da frase.

A quarta grafia é o substantivo, colado e com acento. Ele nunca aparece sozinho: vem sempre atrás de um determinante, como em o porquê da recusa, um porquê convincente, aquele porquê que ficou de fora do comunicado.

O plural é o sinal mais claro dessa quarta forma. Só o substantivo aceita marca de plural, e a frase os porquês da decisão ainda estão no relatório mostra a palavra funcionando como qualquer outro nome comum.

Existe ainda a construção que não pergunta nem responde, e ela costuma ficar de fora das listas decoradas. O par separado também equivale a pelo qual, pela qual, pelos quais: a estrada por que passamos, os motivos por que lutamos.

Vale registrar o outro lado da quarta forma, para não sobrar acento no texto. Tire o determinante e a palavra colada volta a ser conjunção na hora: ele ficou calado porque ninguém avisou, sem sinal nenhum sobre a vogal.

Quem não quiser lidar com a decisão tem uma saída limpa, que é reescrever a frase. As linhas qual foi o motivo da recusa e ele não veio, já que o carro não pegou entregam a mesma informação sem nenhuma das quatro grafias no caminho.

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III  O Teste

Troque a palavra, olhe a posição

1. Troque a palavra por por qual motivo e leia a frase inteira. Se ela continuar de pé, o par anda separado: por qual motivo o prazo mudou funciona, então por que o prazo mudou está certo. Se não funcionar, tente pois, e se pois couber, a grafia é colada e sem acento.

2. Olhe a posição do par separado dentro da frase. No meio, ele fica sem acento. No fim, antes de ponto de interrogação, de ponto final ou de reticências, o circunflexo entra: o prazo mudou por quê, ninguém explicou por quê.

3. Procure um determinante na frente da palavra. Artigo, numeral, demonstrativo ou possessivo transformam a família inteira num substantivo, colado e com acento: o porquê, um porquê, esse porquê, o seu porquê, os porquês.

Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que o emprego de por que está correto. Entre as opções aparecem você desistiu por que e você desistiu por quê, separadas por duas frases longas que servem apenas para consumir o seu tempo de leitura.

Aplicado às duas, o par de testes resolve em segundos. Cabe por qual motivo nas duas, então a grafia anda separada nas duas, e a decisão passa para a posição. A pergunta fecha a frase, o circunflexo entra, e só você desistiu por quê fica de pé.

O teste funciona porque cada grafia tem um substituto exclusivo. Por qual motivo só entra onde a palavra pergunta. Pois só entra onde ela responde. O motivo só entra onde há determinante na frente, e nenhum dos três aceita o lugar do outro.

Longe da prova, o mesmo par de testes serve na mesma velocidade. Antes de mandar a mensagem que pergunta o prazo mudou por que, faça a troca mental por por qual motivo, confirme que a pergunta fecha a linha, e ponha o acento antes de enviar.

Um cuidado fecha o teste e evita a correção exagerada. O circunflexo não é sinal de pergunta nem sinal de ênfase: por que você não veio, por que o prazo mudou e não sei por que ele saiu estão certas exatamente como estão, e qualquer acento acrescentado ali vira desvio.

Não fui porque chovia e você não veio por quê podem aparecer na mesma conversa, e o que muda entre elas não é o tom, é o serviço de cada palavra.

"Na última pergunta que você escreveu hoje, o por que ficou no meio da frase ou no fim?"

 
 
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Quiz da edição

Qual das quatro grafias de 'por que' aceita ir para o plural, como em 'os porquês da decisão'?

Apor que, separado e sem acento
Bpor quê, separado e com acento
Cporque, colado e sem acento
Dporquê, colado e com acento

Veja o ranking de quem mais acerta 

 
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