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O post no LinkedIn circulou a semana inteira com uma frase em letra grande no card: "reunião sem pauta é perca de tempo". A palavra do meio estava errada. O substantivo é perda, com d, e a frase certa diz que reunião sem pauta é perda de tempo.
O erro aparece justamente onde a pessoa quer soar profissional. Está no post sobre produtividade, no email que avisa a "perca do prazo de entrega", na legenda que lamenta a "perca de clientes" e no slide que lista as "percas do trimestre". Quem escreve raramente desconfia, porque a palavra existe e está correta em outras frases.
Aqui mora o nó da dúvida. Perca é palavra legítima do português, com dois empregos bem delimitados. O primeiro é verbal: que eu perca, que ele perca, não perca o ônibus. Nesses casos, perca é forma do verbo perder, e ninguém precisa corrigir nada.
O segundo emprego é mais raro e mora na zoologia. O dicionário Michaelis registra perca como nome de um peixe de água doce, de corpo listrado e nadadeira espinhosa, comum em rios e lagos da Europa. Fora dessas duas funções, perca não aparece no Michaelis como sinônimo de perda.
Perda é o substantivo que nomeia o ato ou o efeito de perder. Perda de tempo, perda de prazo, perda de peso, perda auditiva, lucros e perdas. Em todos os casos, a palavra funciona como nome do que se perdeu e aceita artigo na frente.
A troca tem explicação no ouvido. A fala do dia a dia vive cercada de frases como "não perca a promoção" e "tomara que ele não perca o voo", e o som de perca fica mais familiar que o de perda. Quando a mão precisa do substantivo, busca a forma que o ouvido guardou.
O corretor do celular também não socorre. Como perca existe no dicionário interno dele, a palavra passa sem sublinhado vermelho, e o erro chega inteiro ao post publicado.
Entender por que o português tem as duas formas, e onde cada uma nasceu, deixa a escolha automática. A história das duas palavras começa no latim, num verbo só.
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I A Dúvida do Dia
Um verbo latino, duas palavras
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De onde vêm perda e perca, e por que uma leva d e a outra c.
Perda e perca descendem do mesmo verbo latino, perdere, mas uma saiu do particípio e a outra do subjuntivo, e cada uma ficou com a sua classe gramatical. A diferença de uma letra carrega a diferença entre nome e ação.
Perdere, em latim, significava destruir, arruinar, deixar escapar. O português herdou o verbo como perder e manteve o sentido de deixar de ter o que se tinha, seja um objeto, uma chance ou uma hora do dia.
Do particípio (a forma verbal que indica a ação concluída, como perdido) saiu o substantivo. O latim falado usava perdita, feminino de perditus, com o sentido de aquilo que se perdeu. Com o tempo, o i do meio caiu e o t virou d, e perdita chegou ao português como perda.
A passagem de t para d entre vogais aparece em muitas palavras da língua. Vita virou vida, acutum virou agudo, e o mesmo desgaste da fala transformou perdita em perda.
O subjuntivo seguiu outro caminho. Perca vem do presente do subjuntivo (o modo verbal do desejo, da dúvida e da ordem indireta) do verbo perder. As formas são que eu perca, que tu percas, que ele perca, que nós percamos, que vós percais, que eles percam.
O c dessas formas tem explicação própria. Perder é verbo irregular: na primeira pessoa do presente do indicativo, a forma é eu perco, com c, e o subjuntivo se constrói a partir dela. O mesmo mecanismo aparece em fazer, que dá eu faço e que eu faça.
O imperativo (o modo da ordem e do conselho) também usa perca. Não perca o prazo, perca o medo de falar em público, não percam a estreia. Todas essas frases pedem uma ação, e todas estão certas.
O peixe tem origem separada. Perca, o nome do animal, vem do latim perca, que por sua vez veio do grego pérke (nome que os gregos davam a um peixe de pele manchada). A palavra coincidiu no som com a forma verbal, e nenhuma das duas tem parentesco com perda.
A soma dá uma divisão limpa. Perda nomeia o que foi perdido; perca pede, deseja ou supõe que alguém perca; e a perca do aquário nada em outra página do dicionário.
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II A Regra
Substantivo com d, verbo com c
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Perda é o substantivo; perca é forma do verbo perder no subjuntivo e no imperativo, ou o nome de um peixe. Como sinônimo de perda, perca não tem registro no Michaelis.
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O Michaelis define perda como o ato ou efeito de perder e lista os sentidos em sequência: privação do que se possuía, dano, prejuízo, desaparecimento. Todos são nomes, e todos aceitam artigo.
O verbete perca, no mesmo dicionário, traz o peixe de água doce da família dos percídeos (o grupo zoológico da perca e dos peixes parecidos com ela). A forma verbal não ganha verbete próprio, porque o dicionário registra o verbo no infinitivo, e perca aparece dentro da conjugação de perder.
O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o VOLP (a lista oficial de grafias mantida pela Academia Brasileira de Letras), traz as duas palavras, cada uma com a sua classe. A grafia de ambas existe; o que decide é o emprego na frase.
Na prática, a regra se resume ao papel da palavra. Se ela vem depois de artigo, pronome ou numeral (a perda, sua perda, duas perdas), é substantivo e leva d. Se vem depois de que, de não ou abre uma ordem, é verbo e leva c.
Pares montados com a mesma ideia mostram a divisão. A perda do prazo gerou multa; que ninguém perca o prazo. Foi uma perda de tempo; não perca tempo com a planilha. As perdas do trimestre assustaram; espero que a empresa não perca clientes.
A regência também denuncia o substantivo. Perda costuma vir seguida de de: perda de tempo, perda de dados, perda de memória, perda de sinal. Quando a palavra puxa um de e nomeia o que sumiu, a grafia é com d.
O plural confirma a escolha. Perdas é substantivo no plural: lucros e perdas, perdas e danos. Percas, fora do contexto do peixe, só aparece como verbo, na segunda pessoa do singular: que tu percas.
A expressão perdas e danos (a indenização pelo prejuízo sofrido) dá nome a um capítulo do Código Civil brasileiro de 2002, nos artigos 402 a 405, sempre com d. Contratos, notificações e petições seguem a mesma grafia, e um perca no lugar dela salta aos olhos de qualquer advogado.
O uso de perca como substantivo circula na fala informal de várias regiões, e o ouvido já se acostumou com ele. Na escrita, do email de trabalho ao post profissional, a forma que o Michaelis registra para o substantivo é perda.
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