|
|
|
50% escolheram Pára, pôr e pôde. Aqui está.
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
Pára perdeu o acento, pôr e pôde ficaram com o dele
O Acordo Ortográfico apagou o acento de pára em 2016 e manteve o circunflexo de pôr e de pôde, e a banca cobra os dois sobreviventes.
|
O acento riscado na apostila antiga
|
| ▼ |
| |
|
“A obra pára em dezembro." Foi a linha que o assessor mandou para o jornal da cidade, com acento no verbo, e ela voltou do revisor com um traço em cima do sinal.
O acento tinha função até a virada da norma. Chamava-se acento diferencial, quer dizer, o sinal gráfico usado só para separar duas palavras escritas com as mesmas letras, e ele marcava o verbo parar diante da preposição para, o substantivo pêlo diante da preposição pelo, a extremidade pólo diante do jogo polo.
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990 e obrigatório no Brasil desde 1º de janeiro de 2016, varreu o grupo inteiro. Pára, pêlo, pêra e pólo perderam o sinal e passaram a se escrever exatamente como as palavras com que competiam, deixando o contexto resolver a leitura.
Dois casos escaparam da varredura, e escaparam nomeados no próprio texto do Acordo. Pôde, terceira pessoa do pretérito perfeito de poder, continua com circunflexo diante de pode, do presente. E pôr, o verbo, continua com circunflexo diante de por, a preposição.
A banca de concurso percebeu rápido onde ficou o terreno instável. Cobrar pára acentuado pega quem estudou em apostila anterior à virada; cobrar pôde sem acento pega quem ouviu que o Acordo tinha acabado com o acento diferencial e aplicou a notícia inteira, sem procurar as exceções listadas logo abaixo.
A forma vencida tem endereço material e circula todo dia. Placa de estacionamento, apostila reimpressa sem revisão, modelo de contrato guardado em pasta de rede e livro de bolso comprado em sebo trazem pára com acento, e a mão do candidato copia o desenho que os olhos veem mais, não o que a norma pede desde a virada de 2016.
A dúvida de hoje põe três frases lado a lado e pergunta quais resistem à correção. Depois vem a regra que explica por que dois circunflexos sobreviveram, e o teste que resolve cada caso pela troca de uma palavra.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Dúvida do Dia
Três frases com acento e só duas se sustentam
|
|
Um acento que caiu, dois que ficaram e uma frase que entrega a data da apostila.
As frases são estas: o ônibus pára no ponto; ela não pôde comparecer; vou pôr o documento na mesa. A primeira perde ponto na correção, e as outras duas passam intactas, com o mesmo sinal que a primeira usa errado.
A primeira frase escreve o verbo parar como quem escrevia em 2008. Nenhuma forma do verbo recebe acento na norma vigente: para, paras, paramos, param. O ônibus para no ponto, a obra para em dezembro, o relógio parou de madrugada, e o leitor entende pela posição do verbo na frase que ali não há preposição nenhuma.
A segunda frase usa o circunflexo para marcar tempo verbal, e por causa disso o sinal ficou de pé. Pôde é passado: ela não pôde comparecer significa que a ausência já aconteceu. Apagar o acento muda a frase para o presente, ela não pode comparecer, e a alteração de sentido não se recupera pelo contexto quando a frase aparece isolada num item de prova.
A terceira frase usa o circunflexo para separar verbo de preposição. Vou pôr o documento na mesa traz o infinitivo do verbo pôr. Escrito sem acento, vou por o documento na mesa, o trecho trava, porque por sem acento é a preposição de passei por aqui e de feito por ela.
Os compostos do verbo pôr entram no texto sem acento nenhum, e a distração mora aí. Repor, compor, dispor, supor, impor e propor não disputam a escrita com preposição alguma, então seguem a regra comum das oxítonas terminadas em r e ficam limpas. Escrever repôr o documento é erro tão marcado quanto escrever pára com acento.
Pôde também tem vizinhos que não carregam sinal. Pude, a primeira pessoa do passado, nunca recebe acento; puderam, o plural, também não; puder e pudermos, do futuro do subjuntivo, idem. O circunflexo aparece numa forma só, a terceira pessoa do singular do pretérito perfeito, e é ali que o corretor coloca a lupa.
Um caso fora do verbo mostra que a norma nova conservou o desenho antigo em pontos escolhidos. Pôr do sol perdeu os dois hifens que carregava e manteve o circunflexo, porque o núcleo continua sendo o verbo pôr substantivado. Quem escreve por do sol comete dois desvios de uma vez, o do acento e o da classe da palavra.
Em prova, as três frases da abertura costumam vir embaralhadas num único item, com uma correta e três alternativas montadas para punir quem decorou a manchete do Acordo sem ler a lista de exceções que vem logo em seguida.
|
|
|
|
|
II A Regra
O circunflexo ficou onde o sentido ainda escorrega
|
|
O acento diferencial acabou como regra geral em 1º de janeiro de 2016 no Brasil: pára, pêlo, pêra e pólo escrevem-se hoje como para, pelo, pera e polo. Duas exceções obrigatórias sobreviveram, pôr diante da preposição por e pôde diante do presente pode, e uma facultativa, fôrma diante de forma.
|
A lógica da varredura cabe numa frase de critério. Quando as duas palavras homógrafas pertencem a classes distintas, a posição dentro da frase já separa uma da outra, e o acento vira enfeite; quando as duas pertencem à mesma classe e mudam só o tempo verbal, a posição não separa nada, e o sinal continua trabalhando.
|
"Prescinde-se do acento agudo ou do circunflexo para distinguir palavras paroxítonas que, tendo respectivamente vogal tónica aberta ou fechada, são homógrafas de palavras de pronúncia átona."
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, Base IX, 1990
|
O texto do Acordo diz o que caiu e usa a expressão que confunde o candidato: prescinde-se, quer dizer, dispensa-se. O trecho fala das paroxítonas homógrafas de palavras átonas, e pára contra para é o retrato exato da descrição, com o verbo tônico caindo em cima da preposição átona.
Logo depois do trecho, o mesmo Acordo abre a porta das exceções. Pôde recebe o circunflexo por se opor a pode em tempo verbal, e fôrma aparece como acento opcional, a critério de quem escreve, para o molde de assar diante de forma, o feitio. O uso de fôrma acentuado não é cobrado como erro nas duas direções, e a banca costuma deixar o caso de fora do gabarito justamente por ser facultativo.
O verbo pôr tem tratamento próprio e por um motivo independente do resto. Ele é o único infinitivo do português terminado em or tônico, condição que o faria acentuado por regra de oxítona, e ainda por cima divide a escrita com uma preposição de uso altíssimo. As duas razões empurram no mesmo sentido e o acento permanece sem discussão.
Vale separar do assunto um par que parece pertencer à mesma família e não pertence. O acento de têm e de vêm marca plural, não distinção de significado: ele tem, eles têm; ele vem, eles vêm. O sinal ali é de número, sobreviveu ao Acordo sem entrar na lista de exceções, e continua obrigatório na escrita de qualquer documento.
Já os antigos circunflexos de hiato desapareceram junto com o acento diferencial, e o candidato costuma misturar os dois grupos na hora da prova. Vêem virou veem, lêem virou leem, crêem virou creem, dêem virou deem, vôo virou voo e enjôo virou enjoo. Nenhuma dessas mudanças tem relação com distinguir palavras, e todas caem no mesmo item de prova que cobra pára.
No documento de trabalho, o custo do erro aparece antes da prova. Ata, contrato, edital e ofício guardam modelos escritos há mais de uma década, e cada reaproveitamento de arquivo arrasta o acento morto de pára para um texto novo, com data de hoje no cabeçalho.
|
| |
|