|
|
Para eu fazer, nunca para mim fazer
Uma troca de dez segundos decide qual dos dois pronomes a frase aceita antes do verbo no infinitivo.
|
O pronome muda quando o verbo vem atrás
|
| ▼ |
| |
|
Amensagem sai do celular às sete e dez da manhã, com nove palavras: separa os documentos para mim assinar mais tarde. A resposta chega meia hora depois, com a mesma ideia escrita de outro jeito: separei tudo para você assinar antes do almoço.
Entre as duas linhas mora uma das trocas mais frequentes do português escrito. Eu e mim parecem disputar a mesma vaga depois da preposição, e a norma escrita reserva um serviço diferente para cada um deles.
A escolha não depende de formalidade, do tamanho da frase nem de quem vai ler. Ela depende de uma informação objetiva e visível a olho nu: o que vem imediatamente depois do pronome.
A preposição é a parte que confunde, porque parece resolver sozinha. Depois de para, de, com, por e sem, o reflexo pede a forma oblíqua, e mim entra por hábito, com a mesma naturalidade de para mim está bom.
O reflexo acerta metade das vezes. Quando o pronome apenas fecha o trecho, mim é a forma certa e ninguém discute. Quando um verbo no infinitivo aparece logo atrás, o trecho ganha um sujeito, e sujeito não se escreve com a forma oblíqua.
Na prova, o item quase nunca chega nu. A banca escreve um período longo, empurra o par para o meio dele e monta as alternativas com as duas formas, cercadas por orações que servem apenas para consumir o seu tempo de leitura.
Fora da prova, a troca circula em email de trabalho, em bilhete de escola, em legenda de post e em contrato encaminhado para três pessoas. Ninguém comenta, a mensagem chega inteira, e a forma fora da norma segue viva em cada cópia repassada depois.
A questão de hoje começa pelo formato em que a dúvida chega, com os dois pronomes brigando pela mesma vaga. Depois vem a regra que separa os dois em uma linha, o caso em que mim manda de verdade, e a troca de dez segundos que fecha a decisão antes de você apertar enviar.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Dúvida do Dia
Duas linhas, um pronome de diferença
|
|
Dois pronomes, uma vaga, e o que vem depois decide qual deles entra.
A dúvida chega quase sempre nesta forma: separa os documentos para mim assinar ou para eu assinar? As duas versões aparecem em mensagem de trabalho, em bilhete de escola e em prova, e a maioria dos leitores passa por elas sem parar.
A norma escrita reconhece uma só nesse lugar. O verbo assinar vem logo depois do pronome, e quem vai assinar é a mesma pessoa que fala. Para eu assinar é a forma correta, e a versão com mim entra na conta de desvio.
Tire o verbo e a resposta se inverte na hora. Separa os documentos para mim fecha o trecho ali mesmo, sem ninguém para praticar ação nenhuma, e ali mim é a única forma que a norma aceita.
A origem do escorregão é fácil de reconstruir. Quem escreve trata a preposição como decisão final: se vem para na frente, mim entra por reflexo. O reflexo acerta em trouxe o contrato para mim e erra em para mim assinar, com a mesma convicção nas duas vezes.
O erro tem duas direções, e a segunda é mais teimosa. A primeira é pôr mim onde o verbo pede eu. A segunda é a correção exagerada, que espalha eu por toda parte e produz linhas como entre eu e você e o convite é para eu.
|
Nenhum dos dois pronomes é mais correto que o outro: cada um tem uma função na frase, e o desvio está em trocar a função, nunca no nível de formalidade.
|
A banca raramente entrega a frase nua. O primeiro disfarce é a distância entre as duas peças: uma palavra se enfia no meio, como em para eu mesmo revisar o texto e para eu também assinar, e o verbo some da vista na leitura rápida.
O segundo disfarce é a vírgula. Em para mim, revisar o texto leva dez minutos, o pronome fecha o trecho antes da pausa, e o verbo que vem depois pertence a outra oração. A frase está certa com mim, e a única pista é o sinal no meio.
O terceiro disfarce é o pronome que aparece sozinho no fim. Em o relatório ficou pronto e chegou para mim, nada vem atrás, e mim é a forma exigida. É o caso mais simples dos três e o que mais sofre correção desnecessária.
A mesma construção circula longe da sala de prova. A linha manda o link para mim conferir abre conversa de equipe toda semana, e o separa a planilha para mim revisar aparece em email, em bilhete e no aviso que a chefia manda para o time.
Quem lê o email quase nunca comenta a troca, e quem estuda para prova não tem a mesma sorte. Ali a construção vira alternativa marcada em vermelho, com ponto perdido no espelho de correção e nenhuma chance de recurso depois do gabarito publicado.
|
|
|
|
|
II A Regra
Quem pratica a ação escreve eu
|
|
Se um verbo no infinitivo vem logo depois do pronome, escreva eu: ele é o sujeito desse verbo. Se nada vem depois, ou se uma vírgula fecha o trecho, escreva mim: ali o pronome só completa a preposição.
|
A regra cabe em duas linhas porque o mecanismo tem uma decisão só. Não se olha a preposição, não se olha o tom e não se olha o tamanho do período. Olha-se a palavra que ocupa a posição seguinte à do pronome.
|
"Emprega-se o infinitivo pessoal quando ele tem sujeito próprio, claro ou determinado."
Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985
|
A citação explica o mecanismo inteiro. O verbo no infinitivo pode ter sujeito próprio, e quando tem, alguém precisa ocupar esse lugar. Eu ocupa, mim não ocupa, e é por essa razão que a troca não é questão de gosto.
A primeira situação é a do verbo logo atrás, e ela vale para qualquer preposição: para eu resolver, sem eu saber, antes de eu falar, até eu chegar, apesar de eu ter avisado. Em toda ocorrência dessa família, alguém pratica a ação nomeada pelo infinitivo.
A segunda situação é a do pronome que fecha o trecho, e ali mim é obrigatório: o pacote chegou para mim, ele falou de mim, guarde um lugar para mim. Nada vem depois, ninguém pratica ação nenhuma, e a forma oblíqua entra sem concorrência.
A terceira situação é a que engana pela aparência, porque tem preposição, pronome e verbo na mesma linha. Em para mim, fazer o relatório leva dez minutos, o infinitivo é o sujeito de leva, não uma ação do pronome, e a vírgula depois de mim marca a fronteira.
Vale ler a diferença em voz alta uma vez, porque ela some no papel. Para eu fazer o relatório, o prazo é curto tem eu fazendo o relatório. Para mim, fazer o relatório é rápido tem o relatório sendo feito por alguém que a frase nem nomeia.
A mesma lógica governa as outras pessoas, e o sinal ali é a flexão do verbo. Para nós fecharmos, para vocês entregarem, para eles decidirem: o infinitivo ganha terminação própria justamente porque tem sujeito na frente.
Existe ainda o caso da hipercorreção, e ele nasce de estudar a regra pela metade. Quem aprende que mim não fica antes de verbo às vezes conclui que mim não fica em lugar nenhum, e passa a escrever entre eu e você, o convite é para eu, chegou até eu.
As três linhas acima estão fora da norma pelo mesmo motivo. Não há verbo no infinitivo depois do pronome em nenhuma delas, e sem verbo não há sujeito para ocupar: entre mim e você, o convite é para mim, chegou até mim.
Quem não quiser lidar com a decisão tem uma saída limpa, que é trocar a estrutura. As linhas separa os documentos que eu preciso assinar e me manda o link para conferir entregam a mesma informação sem nenhum dos dois pronomes no caminho.
|
|
|