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Paguei ao entregador, paguei a conta
Pagar entra direto no complemento que é coisa e pede a preposição a no complemento que é gente, e o pronome lhe entrega a diferença.
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Quem recebe leva a preposição
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Sete e quarenta da noite, a campainha toca e a sacola chega ainda quente no corredor do prédio. O aplicativo já cobrou o pedido, a gorjeta sai em dinheiro, e o morador anuncia o gesto antes de fechar a porta: paguei o entregador.
Ninguém no corredor responde falando de regência. O rapaz agradece, desce a escada, o pedido entra na mesa, e a frase cumpre o serviço sem levantar suspeita de gramática nenhuma.
Escrita, ela fica registrada. Vai parar na prestação de contas do condomínio, no relatório de despesa da empresa, no recibo que o cliente pede por email e na questão de regência verbal que vale ponto no espelho de correção.
Pagar não trata todos os complementos da mesma forma. Quando o complemento é coisa, o verbo encosta nele sem intermediário. Quando o complemento é gente, uma preposição de uma letra entra no meio da frase.
A fala apaga essa letra sem esforço. Paguei o pedreiro, paguei a faxineira e paguei o mecânico circulam em qualquer conversa de rua, e o ouvido brasileiro aceita as três sem piscar.
A norma escrita separa as duas contas. A coisa paga entra colada ao verbo, a pessoa que recebe chega com a preposição a na frente, e nenhuma das duas ocupa o lugar da outra.
O pronome é onde a diferença fica visível. Coisa vira o e a, gente vira lhe, e a banca monta a questão exatamente em cima dessa troca de duas letras.
Quem recebe o dinheiro não repara na preposição. O corretor de prova repara, e a banca aproveita: regência verbal é item de edital em quase todo concurso, e pagar é o exemplo preferido porque ele mora na conta de todo mundo.
A questão de hoje começa pelas três linhas em que a dúvida aparece lado a lado. Depois vem a regra que cabe em uma frase, o caso do pronome que denuncia a classe do complemento, e o teste que resolve antes de você mandar a mensagem.
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I A Dúvida do Dia
Duas contas para o mesmo verbo
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Três linhas com o mesmo verbo, e quem recebe o dinheiro decide qual delas passa.
A dúvida aparece em três linhas quase iguais: paguei o entregador, paguei ao entregador, paguei a conta ao entregador. As três saem de conversa de verdade, de grupo de condomínio e de relatório de despesa, e a maioria dos leitores passa pelas três sem parar.
Duas delas passam na norma escrita, e a que fica de fora é justamente a mais falada. A diferença não está no verbo nem no tamanho da frase: está no complemento que vem depois dele.
Paguei o entregador coloca a pessoa no lugar da coisa. O verbo encosta direto em quem recebe, e a norma escrita não autoriza esse encaixe: quem entra direto em pagar é o que se paga, nunca quem embolsa.
Paguei ao entregador é a linha da norma. O entregador é quem recebe, e quem recebe chega com a preposição a na frente, no singular e no plural: paguei ao entregador, paguei aos entregadores.
Paguei a conta ao entregador junta as duas peças na mesma frase. A conta é a coisa e vai direto, o entregador é a gente e vai com a preposição, e cada complemento ocupa o seu lugar sem disputar o outro.
A origem do escorregão está na fala. Paguei o pedreiro é o que se diz na obra, na feira e no grupo do prédio, e a linha falada entra na linha escrita inteira, com a preposição já apagada no caminho.
O verbo ainda ajuda a esconder a peça. Pagar aceita complemento sozinho dos dois lados, então paguei o entregador e paguei a conta têm o mesmo desenho na tela, e só o significado de cada complemento separa as duas.
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Quem recebe o dinheiro não entra direto no verbo pagar. A coisa paga é que entra, e a pessoa chega sempre pela preposição a, mesmo quando a conversa apaga a letra antes de você digitar.
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O pronome é onde a diferença aparece por escrito. A coisa paga vira o ou a, como em paguei a conta e paguei-a. A pessoa que recebe vira lhe, como em paguei ao entregador e paguei-lhe.
A banca conhece a troca e trabalha em cima dela. O primeiro disfarce é o pronome errado na pessoa, com alternativas do tipo paguei-o pelo serviço, que trata o profissional como coisa paga.
O segundo disfarce é o acento. Com pessoa feminina que pede artigo, a preposição encontra o artigo e o a sai com o acento grave: paguei à diarista, paguei à professora, paguei às costureiras.
O terceiro disfarce é a preposição posta na coisa. Paguei ao aluguel e paguei à conta aparecem dentro de uma frase longa para pegar quem decorou metade da regra.
Quem recebe o dinheiro confere as notas e segue a vida. Quem presta concurso descobre o preço na hora da correção: a alternativa marcada perde o ponto, e o gabarito publicado não muda por recurso.
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II A Regra
Quem recebe leva a preposição
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Pagar é transitivo direto com a coisa paga e transitivo indireto com a pessoa que recebe: paguei a conta, paguei ao entregador. Na mesma frase, os dois convivem: paguei a conta ao entregador.
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A regra tem uma decisão só, e ela não depende do tamanho da frase. Olha-se para o complemento e pergunta-se se ele é coisa ou gente, porque a classe do complemento é o que decide se a preposição entra ou fica fora.
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"Paga-se alguma coisa (objeto direto) a alguém (objeto indireto): paguei a conta ao garçom."
Celso Pedro Luft, Dicionário Prático de Regência Verbal, 1999
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A gramática registra a diferença como regência verbal, não como estilo. Paguei o entregador e paguei ao entregador têm a mesma intenção na conversa, e só uma das duas passa no texto que vai ser corrigido.
A primeira situação é a da coisa paga, e ela é a mais comum na vida de qualquer pessoa: paguei a conta, paguei o aluguel, paguei a multa, paguei as parcelas do carro. Nenhuma delas pede preposição.
A segunda situação é a da pessoa que recebe, e ela pede a preposição toda vez: paguei ao entregador, paguei ao pedreiro, paguei aos fornecedores, paguei à diarista.
A terceira situação junta as duas na mesma frase, e a ordem entre elas é livre: paguei a diária à diarista, paguei ao mecânico o conserto do carro. Cada complemento mantém a sua forma onde quer que caia.
A quarta situação é a do acento grave, e ela nasce da segunda. Quando a pessoa é feminina e pede artigo, a preposição a encontra o artigo a, e o encontro das duas sai com crase: paguei à cozinheira.
Nome próprio de pessoa muda o cálculo, porque ele costuma dispensar o artigo. Paguei a Marina sai sem acento nenhum; quando o artigo aparece, como em paguei à Marina do financeiro, o acento aparece junto com ele.
A quinta situação usa outra preposição e diz outra coisa. Pagar por marca o preço ou o motivo: paguei duzentos reais pelo conserto, paguei pela pressa de fechar o negócio.
Com pessoa depois do por, a frase muda de dono. Paguei pelo entregador diz que a conta dele saiu do seu bolso, e não que ele recebeu o dinheiro das suas mãos.
A hipercorreção nasce da metade da regra. Quem aprende que pagar pede preposição começa a preposicionar a coisa também, e escreve paguei ao aluguel, com um a que a coisa paga nunca teve.
Perdoar e agradecer seguem o mesmo desenho e caem na mesma questão: perdoei a ofensa e perdoei ao ofensor, agradeci o convite e agradeci ao anfitrião.
Um registro fecha a lista, e ele explica a força do desvio. Paguei o pedreiro é linha corrente na fala brasileira, tratada como uso consagrado na conversa, e a prova cobra a outra camada, a da norma escrita.
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III O Teste
Troque o complemento por lhe
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1. Ache o complemento e pergunte se ele é coisa ou gente. A conta, o aluguel e a multa são coisa; o entregador, a diarista e o fornecedor são gente.
2. Troque o complemento por um pronome. Se a frase pedir lhe, como em paguei-lhe, o complemento é gente e a preposição a entra. Se pedir o ou a, como em paguei-a, o complemento é coisa e entra direto.
3. Se o complemento for pessoa feminina com artigo, ponha o acento. A preposição a encontra o artigo a, e o encontro das duas sai com crase: paguei à diarista.
Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que a regência verbal está de acordo com a norma. Entre as opções aparecem paguei o marceneiro e paguei ao marceneiro, cercadas por duas frases longas.
Aplicado às duas, o teste resolve em segundos. O marceneiro é gente, gente pede lhe, e a alternativa que deixou o complemento colado ao verbo perde o ponto sem que você precise ler o período inteiro.
O teste funciona porque o pronome não aceita disfarce. Lhe só entra onde existe preposição, o e a só entram onde ela não existe, e a escolha entre os dois expõe a classe do complemento na primeira leitura.
Longe da prova, o teste serve na mesma velocidade. Antes de mandar a mensagem que começa com paguei o eletricista, troque a peça: paguei-lhe, e a preposição aparece sozinha na frase reescrita.
Nenhuma das duas construções é mais educada que a outra, e a escolha entre paguei a conta e paguei ao caixa não muda a intenção de quem escreve. O desvio nasce só quando a pessoa ocupa o lugar da coisa.
O mesmo teste resolve perdoar e agradecer, que caem na mesma questão de regência: perdoei-lhe a falta, agradeci-lhe o convite. Obedecer entra na família com uma diferença, porque ele pede a preposição em qualquer complemento.
Um cuidado fecha o teste, e ele é o mais fácil de deixar passar. O complemento pode estar longe do verbo, dentro de uma oração intercalada, e a preposição continua obrigatória mesmo com seis palavras entre os dois.
Um segundo cuidado vale para o por. Paguei pelo conserto e paguei pelo colega não entram no teste: ali a preposição marca preço ou substituição, e o pronome lhe não tem lugar nenhum na frase.
Paguei a conta e paguei ao entregador estão as duas na norma, e a linha que cai na correção é a que encostou o verbo em quem recebe o dinheiro.
"Na última mensagem em que você contou que pagou alguém, a preposição entrou na frase, ou o verbo encostou direto em quem recebeu?"
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Guia Português do Dia · Novo
A Folha Deixa de Ser Branca
O Esqueleto de Cinco Parágrafos que põe a redação de pé em uma hora.
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Quiz da edição
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No texto, o que significa de fato a frase 'paguei pelo entregador'?
Resultado da última edição: 0% acertaram.
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