Português do Dia   Português do Dia
ED 012

Paguei ao entregador, paguei a conta

Pagar entra direto no complemento que é coisa e pede a preposição a no complemento que é gente, e o pronome lhe entrega a diferença.

Uma nota de dinheiro passando da mão de um morador para a mão de um entregador na porta do prédio, com a conta do pedido aberta na bancada ao lado.

Quem recebe leva a preposição

 

Sete e quarenta da noite, a campainha toca e a sacola chega ainda quente no corredor do prédio. O aplicativo já cobrou o pedido, a gorjeta sai em dinheiro, e o morador anuncia o gesto antes de fechar a porta: paguei o entregador.

Ninguém no corredor responde falando de regência. O rapaz agradece, desce a escada, o pedido entra na mesa, e a frase cumpre o serviço sem levantar suspeita de gramática nenhuma.

Escrita, ela fica registrada. Vai parar na prestação de contas do condomínio, no relatório de despesa da empresa, no recibo que o cliente pede por email e na questão de regência verbal que vale ponto no espelho de correção.

Pagar não trata todos os complementos da mesma forma. Quando o complemento é coisa, o verbo encosta nele sem intermediário. Quando o complemento é gente, uma preposição de uma letra entra no meio da frase.

A fala apaga essa letra sem esforço. Paguei o pedreiro, paguei a faxineira e paguei o mecânico circulam em qualquer conversa de rua, e o ouvido brasileiro aceita as três sem piscar.

A norma escrita separa as duas contas. A coisa paga entra colada ao verbo, a pessoa que recebe chega com a preposição a na frente, e nenhuma das duas ocupa o lugar da outra.

O pronome é onde a diferença fica visível. Coisa vira o e a, gente vira lhe, e a banca monta a questão exatamente em cima dessa troca de duas letras.

Quem recebe o dinheiro não repara na preposição. O corretor de prova repara, e a banca aproveita: regência verbal é item de edital em quase todo concurso, e pagar é o exemplo preferido porque ele mora na conta de todo mundo.

A questão de hoje começa pelas três linhas em que a dúvida aparece lado a lado. Depois vem a regra que cabe em uma frase, o caso do pronome que denuncia a classe do complemento, e o teste que resolve antes de você mandar a mensagem.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Dúvida do Dia

Duas contas para o mesmo verbo

Três linhas com o mesmo verbo, e quem recebe o dinheiro decide qual delas passa.

A dúvida aparece em três linhas quase iguais: paguei o entregador, paguei ao entregador, paguei a conta ao entregador. As três saem de conversa de verdade, de grupo de condomínio e de relatório de despesa, e a maioria dos leitores passa pelas três sem parar.

Duas delas passam na norma escrita, e a que fica de fora é justamente a mais falada. A diferença não está no verbo nem no tamanho da frase: está no complemento que vem depois dele.

Paguei o entregador coloca a pessoa no lugar da coisa. O verbo encosta direto em quem recebe, e a norma escrita não autoriza esse encaixe: quem entra direto em pagar é o que se paga, nunca quem embolsa.

Paguei ao entregador é a linha da norma. O entregador é quem recebe, e quem recebe chega com a preposição a na frente, no singular e no plural: paguei ao entregador, paguei aos entregadores.

Paguei a conta ao entregador junta as duas peças na mesma frase. A conta é a coisa e vai direto, o entregador é a gente e vai com a preposição, e cada complemento ocupa o seu lugar sem disputar o outro.

A origem do escorregão está na fala. Paguei o pedreiro é o que se diz na obra, na feira e no grupo do prédio, e a linha falada entra na linha escrita inteira, com a preposição já apagada no caminho.

O verbo ainda ajuda a esconder a peça. Pagar aceita complemento sozinho dos dois lados, então paguei o entregador e paguei a conta têm o mesmo desenho na tela, e só o significado de cada complemento separa as duas.

Quem recebe o dinheiro não entra direto no verbo pagar. A coisa paga é que entra, e a pessoa chega sempre pela preposição a, mesmo quando a conversa apaga a letra antes de você digitar.

O pronome é onde a diferença aparece por escrito. A coisa paga vira o ou a, como em paguei a conta e paguei-a. A pessoa que recebe vira lhe, como em paguei ao entregador e paguei-lhe.

A banca conhece a troca e trabalha em cima dela. O primeiro disfarce é o pronome errado na pessoa, com alternativas do tipo paguei-o pelo serviço, que trata o profissional como coisa paga.

O segundo disfarce é o acento. Com pessoa feminina que pede artigo, a preposição encontra o artigo e o a sai com o acento grave: paguei à diarista, paguei à professora, paguei às costureiras.

O terceiro disfarce é a preposição posta na coisa. Paguei ao aluguel e paguei à conta aparecem dentro de uma frase longa para pegar quem decorou metade da regra.

Quem recebe o dinheiro confere as notas e segue a vida. Quem presta concurso descobre o preço na hora da correção: a alternativa marcada perde o ponto, e o gabarito publicado não muda por recurso.

 
 

II  A Regra

Quem recebe leva a preposição

Pagar é transitivo direto com a coisa paga e transitivo indireto com a pessoa que recebe: paguei a conta, paguei ao entregador. Na mesma frase, os dois convivem: paguei a conta ao entregador.

A regra tem uma decisão só, e ela não depende do tamanho da frase. Olha-se para o complemento e pergunta-se se ele é coisa ou gente, porque a classe do complemento é o que decide se a preposição entra ou fica fora.

"Paga-se alguma coisa (objeto direto) a alguém (objeto indireto): paguei a conta ao garçom."

Celso Pedro Luft, Dicionário Prático de Regência Verbal, 1999

A gramática registra a diferença como regência verbal, não como estilo. Paguei o entregador e paguei ao entregador têm a mesma intenção na conversa, e só uma das duas passa no texto que vai ser corrigido.

A primeira situação é a da coisa paga, e ela é a mais comum na vida de qualquer pessoa: paguei a conta, paguei o aluguel, paguei a multa, paguei as parcelas do carro. Nenhuma delas pede preposição.

A segunda situação é a da pessoa que recebe, e ela pede a preposição toda vez: paguei ao entregador, paguei ao pedreiro, paguei aos fornecedores, paguei à diarista.

A terceira situação junta as duas na mesma frase, e a ordem entre elas é livre: paguei a diária à diarista, paguei ao mecânico o conserto do carro. Cada complemento mantém a sua forma onde quer que caia.

A quarta situação é a do acento grave, e ela nasce da segunda. Quando a pessoa é feminina e pede artigo, a preposição a encontra o artigo a, e o encontro das duas sai com crase: paguei à cozinheira.

Nome próprio de pessoa muda o cálculo, porque ele costuma dispensar o artigo. Paguei a Marina sai sem acento nenhum; quando o artigo aparece, como em paguei à Marina do financeiro, o acento aparece junto com ele.

A quinta situação usa outra preposição e diz outra coisa. Pagar por marca o preço ou o motivo: paguei duzentos reais pelo conserto, paguei pela pressa de fechar o negócio.

Com pessoa depois do por, a frase muda de dono. Paguei pelo entregador diz que a conta dele saiu do seu bolso, e não que ele recebeu o dinheiro das suas mãos.

A hipercorreção nasce da metade da regra. Quem aprende que pagar pede preposição começa a preposicionar a coisa também, e escreve paguei ao aluguel, com um a que a coisa paga nunca teve.

Perdoar e agradecer seguem o mesmo desenho e caem na mesma questão: perdoei a ofensa e perdoei ao ofensor, agradeci o convite e agradeci ao anfitrião.

Um registro fecha a lista, e ele explica a força do desvio. Paguei o pedreiro é linha corrente na fala brasileira, tratada como uso consagrado na conversa, e a prova cobra a outra camada, a da norma escrita.

 
 

III  O Teste

Troque o complemento por lhe

1. Ache o complemento e pergunte se ele é coisa ou gente. A conta, o aluguel e a multa são coisa; o entregador, a diarista e o fornecedor são gente.

2. Troque o complemento por um pronome. Se a frase pedir lhe, como em paguei-lhe, o complemento é gente e a preposição a entra. Se pedir o ou a, como em paguei-a, o complemento é coisa e entra direto.

3. Se o complemento for pessoa feminina com artigo, ponha o acento. A preposição a encontra o artigo a, e o encontro das duas sai com crase: paguei à diarista.

Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que a regência verbal está de acordo com a norma. Entre as opções aparecem paguei o marceneiro e paguei ao marceneiro, cercadas por duas frases longas.

Aplicado às duas, o teste resolve em segundos. O marceneiro é gente, gente pede lhe, e a alternativa que deixou o complemento colado ao verbo perde o ponto sem que você precise ler o período inteiro.

O teste funciona porque o pronome não aceita disfarce. Lhe só entra onde existe preposição, o e a só entram onde ela não existe, e a escolha entre os dois expõe a classe do complemento na primeira leitura.

Longe da prova, o teste serve na mesma velocidade. Antes de mandar a mensagem que começa com paguei o eletricista, troque a peça: paguei-lhe, e a preposição aparece sozinha na frase reescrita.

Nenhuma das duas construções é mais educada que a outra, e a escolha entre paguei a conta e paguei ao caixa não muda a intenção de quem escreve. O desvio nasce só quando a pessoa ocupa o lugar da coisa.

O mesmo teste resolve perdoar e agradecer, que caem na mesma questão de regência: perdoei-lhe a falta, agradeci-lhe o convite. Obedecer entra na família com uma diferença, porque ele pede a preposição em qualquer complemento.

Um cuidado fecha o teste, e ele é o mais fácil de deixar passar. O complemento pode estar longe do verbo, dentro de uma oração intercalada, e a preposição continua obrigatória mesmo com seis palavras entre os dois.

Um segundo cuidado vale para o por. Paguei pelo conserto e paguei pelo colega não entram no teste: ali a preposição marca preço ou substituição, e o pronome lhe não tem lugar nenhum na frase.

Paguei a conta e paguei ao entregador estão as duas na norma, e a linha que cai na correção é a que encostou o verbo em quem recebe o dinheiro.

"Na última mensagem em que você contou que pagou alguém, a preposição entrou na frase, ou o verbo encostou direto em quem recebeu?"

 
 
Guia Português do Dia · Novo
Capa do guia A Folha Deixa de Ser Branca

A Folha Deixa de Ser Branca

O Esqueleto de Cinco Parágrafos que põe a redação de pé em uma hora.

Quero o guia →
 
Quiz da edição

No texto, o que significa de fato a frase 'paguei pelo entregador'?

AQue o entregador recebeu o dinheiro direto das mãos de quem fala
BQue a conta do entregador saiu do bolso de quem fala
CQue o entregador pagou a conta do pedido
DQue o pagamento foi feito com a preposição ao

Resultado da última edição: 0% acertaram.

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

✍️✍️✍️✍️✍️  ótima ✍️✍️✍️✍️  boa ✍️✍️✍️  ok ✍️✍️  ruim ✍️  péssima
 
Recomendação de Newsletter
A Origem das Palavras

A Origem das Palavras

Todo dia, 12:12. Uma palavra que você usa sem pensar revela séculos de história escondida, em dois minutos de leitura.

Quero receber 

 
Indique e destrave

Chame mais um estudante pro caderno

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

    
você123
 3
EDIÇÃO
Colecionador
 
DO MÊS
🥇
Edição de Colecionador do mês
 5
ebook A Folha Deixa de Ser Branca
ebook A Folha Deixa de Ser Branca
 10
ebook Casa da Mãe Joana
ebook Casa da Mãe Joana
 
 
 
 

Escreva com segurança hoje.

Português do Dia

PORTUGUÊS DO DIA

Uma questão por dia, resolvida antes da prova

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter