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Obedeço ao chefe, nunca obedeço o chefe
Obedecer e desobedecer pedem a preposição a mesmo soando estranho na fala do escritório, e a banca cobra a regência escondida no pronome lhe.
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Obedecer nunca chega sem a preposição
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Sete e quarenta da manhã, sala de treinamento do hospital, equipe do plantão sentada de crachá e o protocolo de higienização projetado na parede. A enfermeira responsável lê o slide em voz alta e fecha com a frase que todo mundo anota: toda a equipe deve obedecer o protocolo, sem exceção.
Ninguém levanta a mão para falar de preposição. A sala discute horário, insumo e escala, o treinamento termina no tempo previsto, e a frase cumpre o serviço sem despertar suspeita.
Escrita, ela fica. Vai para o slide que circula por email, para o comunicado afixado no posto de enfermagem, para o procedimento operacional que a auditoria vai ler e para a questão de regência verbal que vale ponto no espelho de correção.
Obedecer não encosta no complemento. Ele é transitivo indireto e pede a preposição a em qualquer situação: obedece-se a uma ordem, a uma lei, a um protocolo, a um chefe. Desobedecer segue o mesmo caminho, com a mesma preposição.
A fala brasileira derrubou a preposição há décadas. Obedeça as regras, obedeça o sinal e desobedeceu a ordem do juiz circulam no jornal, no grupo de trabalho e na conversa de corredor, e o ouvido aceita as quatro sem piscar.
A norma escrita mantém a peça no lugar. O complemento chega com a preposição, e a crase aparece quando o substantivo seguinte é feminino e admite artigo: obedecer às regras, obedecer à lei, obedecer à ordem do juiz.
O pronome é o lugar em que a regência aparece por escrito sem disfarce. Complemento indireto vira lhe, nunca o ou a, e a linha correta é obedeço-lhe, não obedeço-o, mesmo quando a pessoa obedecida é o chefe da sala.
A voz passiva é a segunda pista, e ela é a mais curiosa da dupla. Verbo transitivo indireto normalmente não vai para a voz passiva, e obedecer e desobedecer são a exceção registrada pela gramática: o protocolo foi obedecido é linha correta.
A questão de hoje começa pelas linhas em que a dúvida aparece lado a lado, no crachá e no comunicado. Depois vem a regra que fixa a preposição, o pronome que denuncia a construção, a passiva que só esta dupla aceita, e o teste que resolve antes de você mandar a mensagem.
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I A Dúvida do Dia
O verbo que o crachá atropela
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Quatro linhas com o mesmo verbo, e só duas sobrevivem à correção.
A dúvida aparece em quatro linhas quase iguais: obedeço ao chefe, obedeço o chefe, obedecer às regras, obedecer as regras. As quatro saem de comunicado de verdade, de manual de conduta e de conversa de plantão, e a maioria dos leitores passa pelas quatro sem parar.
Duas delas passam na norma escrita, e as que ficam de fora são justamente as mais faladas. A diferença não está no verbo nem no tamanho da frase: está numa preposição de uma letra que a fala apagou.
Obedeço ao chefe é a linha da norma. Obedecer é transitivo indireto, o complemento chega ligado pela preposição a, e a contração com o artigo masculino produz o ao que soa formal demais no escritório.
Obedeço o chefe é a linha que a fala consagrou e a prova recusa. Ali o verbo aparece como se fosse transitivo direto, e a regência que a gramática registra para ele não admite o complemento colado.
Obedecer às regras é a mesma construção com substantivo feminino. A preposição a encontra o artigo a que as regras admitem, as duas se fundem, e o acento grave marca a fusão na escrita.
Obedecer as regras é a versão sem preposição, e ela cai pelo mesmo motivo da segunda linha. O acento grave não é enfeite de formalidade: ele é a prova visível de que a preposição exigida pelo verbo está ali.
A origem do escorregão está na frequência. Obedeça o sinal, obedeça a fila e obedeça o horário circulam em placa, aviso e ordem de serviço, e a linha falada entra na linha escrita inteira, já sem a preposição.
O sentido do verbo ajuda a esconder a peça. Obedecer parece agir sobre alguém, como respeitar e acatar, que são transitivos diretos de verdade, e o falante empresta a regência do vizinho para o verbo errado.
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Respeitar a lei e obedecer à lei dizem quase a mesma coisa e têm regências diferentes. O sentido não decide a preposição: quem decide é o verbo, um por um, e obedecer nunca abre mão da preposição a.
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O pronome é onde a diferença aparece sem chance de disfarce. Complemento indireto vira lhe, e a linha da norma é obedeço-lhe e desobedeço-lhe, com o pronome que só serve para complemento preposicionado.
Obedeço-o e desobedeço-o são as versões que caem. O pronome o é a marca do complemento direto, e usá-lo com um verbo indireto denuncia a regência trocada antes mesmo de o corretor chegar ao fim da frase.
A banca trabalha em cima da troca. O primeiro disfarce é o acento grave retirado da frase, com alternativas do tipo o time obedeceu as instruções do técnico, copiadas do noticiário esportivo.
O segundo disfarce é o pronome. A questão traz obedeça-o no lugar de obedeça-lhe, e quem lê rápido aceita a frase porque o pronome o é o mais comum da língua e passa despercebido no meio do período.
Quem escreve o comunicado segue a vida sem consequência. Quem presta concurso descobre o preço na hora da correção: a alternativa marcada perde o ponto, e o gabarito publicado não muda por recurso.
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II A Regra
Quem obedece obedece a alguém
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Obedecer e desobedecer são transitivos indiretos e pedem a preposição a: obedeço ao chefe, desobedeço às regras. O complemento pronominal é lhe, nunca o ou a. E os dois aceitam voz passiva, exceção rara entre verbos indiretos: a ordem foi obedecida.
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A regra tem uma decisão só, e ela não muda com o tempo verbal nem com o tamanho da frase. O complemento de obedecer chega preposicionado sempre, e a única variação é a crase, que depende do substantivo seguinte.
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"Obedecer: verbo transitivo indireto. Obedecer a alguém, a alguma coisa. Obedeça a seus pais. Obedecemos ao regulamento."
Celso Pedro Luft, Dicionário Prático de Regência Verbal, 1987
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A gramática registra a exigência como regência verbal, não como preferência de estilo. Obedeço ao chefe e obedeço o chefe têm a mesma intenção no corredor do hospital, e só a primeira passa no texto que vai ser corrigido.
A primeira situação é a do complemento masculino, e ela é a mais visível: obedecer ao regulamento, ao juiz, ao protocolo, ao pai. A preposição a encontra o artigo o e as duas se contraem no ao que a fala evita.
A segunda situação é a do complemento feminino, e ela traz a crase junto: obedecer à lei, à ordem, à norma, à decisão do conselho. O acento grave marca a fusão da preposição exigida com o artigo do substantivo.
A terceira situação é a do complemento sem artigo, e ela dispensa o acento. Obedecer a instruções, a critérios rígidos, a Vossa Excelência: a preposição continua obrigatória, e o acento só desaparece porque o artigo não entrou.
A quarta situação é a do pronome, e ela é a mais cobrada em prova. O complemento indireto vira lhe no singular e lhes no plural: obedeça-lhe, obedeça-lhes, e nunca obedeça-o ou obedeça-os.
A quinta situação é a da voz passiva, e ela é a única brecha da dupla. Obedecer e desobedecer são os dois verbos transitivos indiretos que a gramática admite na passiva: a ordem foi obedecida, o sinal foi desobedecido.
A passiva funciona porque a construção é herdada do latim, em que os dois verbos já se comportavam assim. Nenhum outro transitivo indireto de uso comum consegue a mesma passagem, e a banca cobra a exceção justamente por ser exceção.
Desobedecer segue o irmão em tudo. Desobedeço ao chefe, desobedeço às regras, desobedeço-lhe, a regra foi desobedecida, e a versão sem preposição cai pelos mesmos motivos, com a mesma frequência na fala.
Um registro fecha a lista, e ele explica a força do desvio. Obedeça as regras é linha corrente na fala brasileira, tratada como uso natural na conversa, e a prova cobra a outra camada, a da norma escrita.
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