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O verbo no futuro que expulsa o pronome do fim

Convidá-lo-ei está certo, convidarei-lo não: futuro do presente e do pretérito recusam a ênclise e põem o pronome no meio do verbo.

Folha de prova com o pronome sublinhado e uma seta apontando para o meio do verbo.

O pronome que o gabarito mandou pro meio

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“Convidarei-lo amanhã para a reunião de encerramento." Foi a frase que o candidato escreveu na questão de redação oficial e que o gabarito devolveu marcada, com o pronome sublinhado e uma seta apontando para o miolo do verbo.

O sentido estava claro, a concordância estava certa, o vocabulário estava adequado ao documento. O que derrubou a linha foi a posição de duas letras. Em português, um verbo no futuro do presente ou no futuro do pretérito não aceita pronome átono pendurado atrás dele, e a norma padrão manda encaixar o pronome dentro da própria forma verbal.

A colocação recebe um nome que assusta mais do que o fenômeno: mesóclise. Meso quer dizer meio, e é literalmente isso que acontece. O verbo se abre, o pronome entra no vão, e o resultado sai com dois hifens costurando a peça inteira: convidá-lo-ei, convidá-lo-ia, entregar-lhe-emos, far-se-á.

A razão é histórica e explica o desenho estranho. As formas do futuro nasceram da junção do infinitivo com o verbo haver: cantar hei virou cantarei, cantar havia virou cantaria. O pronome se instalou na emenda entre as duas partes quando elas ainda eram palavras separadas, e continuou lá depois que a solda ficou invisível. O falante de hoje enxerga uma palavra só, a língua escrita ainda enxerga duas.

Quem escreve em ambiente de trabalho quase nunca esbarra na construção, porque a fala brasileira resolve o problema por outro caminho: joga o pronome na frente do verbo e segue adiante. Na prova o caminho fecha, porque o item costuma cobrar a forma exata que o registro formal exige, e ele aparece em edital de banca grande com regularidade suficiente para valer o estudo.

A dúvida de hoje chega pelo lado prático, com frases de documento em que o pronome muda de lugar conforme o que vem antes do verbo. Depois vem a regra que separa a mesóclise da próclise obrigatória, e o teste que resolve a colocação sem decorar nomenclatura.

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I  A Dúvida do Dia

Quatro frases de convocação e o pronome que muda de casa

Duas letras mudam de lugar, e a frase muda de gabarito.

As frases são estas: Convidarei-lo amanhã; Convidá-lo-ei amanhã; Não o convidarei amanhã; Amanhã convidá-lo-ei. A primeira é a única que o corretor devolve marcada. As outras três estão de pé, cada uma pelo seu motivo.

A frase riscada põe o pronome depois do verbo, em posição de ênclise. O verbo está no futuro do presente, e essa forma verbal recusa o pronome atrás dela na escrita padrão. A correção do gabarito foi abrir o verbo e alojar o pronome no meio, com hifen dos dois lados.

A segunda frase faz o encaixe correto. Convidarei se parte em convidar mais ei, o pronome entra na junta, o r do infinitivo cai antes do o e o acento agudo aparece no a para segurar a tônica: convidá-lo-ei. A grafia parece decorada, mas cada peça dela obedece a uma regra que já vale em outros pontos da língua.

A terceira frase é a que mais confunde, porque nela o verbo está no mesmo futuro do presente e o pronome está na frente, sem hifen nenhum. O motivo está na palavra que abre a oração. O advérbio de negação puxa o pronome para antes do verbo, e a próclise vence a mesóclise sempre que existe uma palavra atrativa antes.

A lista de palavras atrativas é curta e se repete em prova: advérbios de negação, advérbios em geral colados ao verbo, pronomes relativos, pronomes indefinidos, conjunções subordinativas e as orações exclamativas ou optativas. Qualquer uma delas antes do verbo no futuro cancela o encaixe do meio.

A quarta frase mostra o outro lado do mesmo critério. O advérbio amanhã aparece no começo, mas separado do verbo pelo que a gramática chama de pausa, e o pronome volta para o meio da forma verbal. Advérbio distante do verbo perde a força de atração, e a mesóclise reassume o posto.

O que decide, então, não é o verbo sozinho. É o par formado pelo tempo verbal e pelo que existe à esquerda dele dentro da oração. Futuro sem palavra atrativa antes pede pronome no meio. Futuro com palavra atrativa antes pede pronome na frente. Ênclise, nesse tempo verbal, não entra em nenhuma das duas hipóteses.

O deslize aparece em ofício, em ata e em parecer justamente quando o redator tenta soar formal. Ele sabe que a fala brasileira prefere o pronome na frente, imagina que o documento pede o contrário, e empurra o pronome para trás do verbo. A correção que ele buscava estava no meio da palavra, no lugar que a fala do dia a dia nunca usa.

 
 

II  A Regra

Futuro parte o verbo e aloja o pronome na junta

Verbo no futuro do presente ou no futuro do pretérito nunca aceita pronome átono depois dele. Sem palavra atrativa antes, o pronome vai para o meio da forma verbal, entre hifens: convidá-lo-ei, dir-te-ia, far-se-á. Com palavra atrativa antes (negação, advérbio colado, conjunção subordinativa, pronome relativo ou indefinido), o pronome vai para a frente do verbo, sem hifen: não o convidarei.

A verificação tem dois movimentos. O primeiro é conferir se o verbo está mesmo em um dos dois futuros simples, e não em locução nem em outro tempo. O segundo é olhar o que vem antes do verbo na mesma oração e decidir entre meio e frente.

"Com as formas do futuro do presente e do futuro do pretérito, não se usa a ênclise: o pronome átono coloca-se no interior da forma verbal, entre o radical do infinitivo e a desinência, salvo quando alguma palavra da oração exigir a próclise."

Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985

A ressalva final da gramática carrega a parte que a maioria das listas de estudo esquece. A mesóclise não é obrigatória por decreto, ela é a colocação que sobra quando nenhuma palavra puxa o pronome para a frente. Havendo palavra atrativa, a próclise passa na frente sem discussão, e insistir no encaixe do meio vira erro tão marcado quanto a ênclise.

A grafia da forma encaixada segue regras conhecidas, aplicadas em conjunto. O r final do infinitivo cai diante de o, a, os, as, e o pronome ganha um l: amar mais o vira amá-lo, logo amá-lo-ei. O verbo terminado em vogal tônica recebe acento: dará mais lhe vira dar-lhe-á. O verbo terminado em som nasal transforma o pronome com n: dizem mais o vira dizem-no, e no futuro fica dir-se-á pela mesma família de ajustes.

Um detalhe de tempo verbal separa duas construções parecidas. Cantarei é futuro do presente e pede o encaixe do meio. Vou cantar é locução, com verbo auxiliar no presente, e nela o pronome se acomoda antes do auxiliar ou depois do principal: vou convidá-lo, vou o convidar em registro coloquial. A locução escapa da mesóclise porque o futuro dela mora no auxiliar, não na forma simples.

O futuro do pretérito repete o comportamento sem nenhuma exceção própria. Convidaria vira convidá-lo-ia; entregaria vira entregar-lhe-ia; faria vira far-se-ia na voz passiva sintética. Trocar o tempo verbal muda a terminação da palavra e nada mais na colocação.

Vale registrar o que a norma diz sobre a frequência da construção. Gramáticos e manuais de redação oficial reconhecem que a forma encaixada soa artificial na comunicação corrente e recomendam reescrever a frase quando ela puder ser evitada. A recomendação vale para o documento; para a prova, o item cobra a forma padrão e a reescrita não está entre as alternativas.

 

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III  O Teste

Ache o futuro, olhe à esquerda, corte o verbo em dois

1. Confirme o tempo verbal. Se a forma termina em rei, rás, rá, remos, reis, rão, ela é futuro do presente; se termina em ria, rias, ríamos, ríeis, riam, ela é futuro do pretérito. Fora desses dois grupos, nada do que vem a seguir se aplica e a colocação segue as regras gerais.

2. Olhe o que existe à esquerda do verbo na mesma oração. Achou negação, advérbio colado, conjunção subordinativa, pronome relativo ou pronome indefinido, jogue o pronome para a frente do verbo, sem hifen, e o assunto acabou aí.

3. Não achando palavra atrativa, corte o verbo no ponto em que o infinitivo termina e encaixe o pronome ali, com hifen dos dois lados. Convidar mais ei recebe o pronome na emenda e vira convidá-lo-ei, com o r caindo e o acento aparecendo.

Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que a colocação pronominal respeita a norma padrão. Entre as opções aparecem uma frase de futuro sem palavra atrativa, uma de futuro com negação e uma de locução verbal, com os pronomes trocados de posição de propósito entre elas.

Aplicado às frases da abertura, o teste resolve em segundos. Convidarei está no futuro do presente e nada atrai o pronome, logo o encaixe do meio era obrigatório e a ênclise derrubou a linha. A versão com não tem palavra atrativa e pede a próclise. A versão que abre com advérbio separado do verbo perde a atração e devolve o pronome ao meio.

Longe do gabarito, o mesmo raciocínio serve em ofício, parecer, contrato e ata. O redator confere o tempo verbal, olha à esquerda e decide sem apelar para memória de nomenclatura. Quando a forma sair pesada demais para o documento, ainda cabe reescrever com locução verbal, que resolve a colocação e deixa a frase mais leve.

A escolha entre as três posições tem uma consequência prática que passa despercebida. Colocação errada não cria ambiguidade de sentido, ela cria ruído de registro: o leitor entende a frase e ao mesmo tempo percebe que ela foi escrita por quem tentou formalizar o texto sem dominar a regra.

Das quatro frases de abertura, três já estavam corretas antes de qualquer correção, e a defeituosa era justamente a que o candidato considerou mais formal: empurrou o pronome para trás de um verbo que nunca o recebe nessa posição.

Confira antes de fechar o documento: se o verbo termina em rei, rá, rão, ria ou riam,
se existe negação, advérbio colado ou conjunção subordinativa antes dele na mesma oração,
se o pronome encaixado no meio está entre dois hifens, com o r do infinitivo já retirado.

"Na última mensagem formal que você escreveu, o pronome ficou atrás de um verbo no futuro?"

 
 

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