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O verbo haver que nunca vai para o plural
Haver de existir não tem sujeito e fica no singular, e o auxiliar da locução herda a regra: deve haver candidatos, nunca devem haver candidatos.
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O m riscado na folha de redação
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“Haviam vagas suficientes para todos." Foi a frase que voltou da correção com dois riscos vermelhos, um em cima do m e outro na margem, ao lado de um pedido curto: reescreva.
A ideia estava perfeitamente clara. O leitor entendeu que existiam vagas, entendeu quantas e entendeu para quem. O corretor não discutiu conteúdo, discutiu o m que apareceu sem que nada na frase tivesse autorizado ele a aparecer.
Haver, quando significa existir, é um verbo impessoal, ou seja, um verbo que não tem sujeito nenhum na frase. Sem sujeito, não sobra com quem concordar, e o verbo trava na terceira pessoa do singular para sempre: havia vagas, houve denúncias, haverá recursos, haja providências.
O termo que aparece ao lado dele não manda no verbo. Vagas ali é objeto direto, o complemento que recebe a ação, o mesmo papel que carro exerce em comprei um carro. Ninguém escreve compraram um carro porque o carro está no singular, e ninguém deveria escrever haviam vagas porque as vagas estão no plural.
O ouvido brasileiro faz o caminho contrário sem pedir licença. Ele escuta um termo plural encostado num verbo e puxa o verbo junto, por reflexo de concordância. O reflexo acerta em noventa por cento das frases da língua e erra justamente nesta, que é a frase que a banca escolhe para separar quem decorou de quem entendeu.
A armadilha fica mais bem escondida quando haver deixa de ser o verbo principal e vira o segundo de uma dupla. Devem haver candidatos, podem haver recursos e vão haver mudanças circulam em ata de reunião, em despacho e em edital, escritos por gente que jamais escreveria haviam candidatos na linha de cima. O erro migrou para o auxiliar, o verbo que vem antes e carrega o tempo, e ali quase ninguém procura.
A dúvida de hoje monta quatro linhas de um edital com o mesmo verbo nas quatro. Depois vem a regra que explica por que o singular não é escolha de estilo, e o teste que resolve a frase sem abrir gramática.
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I A Dúvida do Dia
Quatro linhas de edital com o mesmo verbo e duas erradas
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Um verbo sem sujeito, duas linhas erradas, um m que ninguém autorizou.
As linhas são estas: Haviam vagas remanescentes no cargo de analista; Havia vagas remanescentes no cargo de analista; Devem haver candidatos aprovados fora da lista; Deve haver candidatos aprovados fora da lista. Duas voltam marcadas, e o leitor apressado marca justamente as duas erradas como corretas.
A segunda linha é a que nenhum corretor contesta. Havia significa existia, o verbo não tem sujeito e por essa falta fica no singular, mesmo com vagas remanescentes logo depois dele em pleno plural.
A primeira linha declara exatamente o mesmo fato e ganhou um m que ninguém autorizou. Ela é a forma que sai na fala, porque o falante lê vagas, escuta plural e conjuga o verbo para acompanhar. O que ele acompanhou foi um objeto direto, e objeto direto não comanda concordância em língua portuguesa.
A quarta linha resolve a versão com locução verbal, o par formado pelo verbo auxiliar e pelo verbo principal. Deve haver candidatos mantém o singular porque a impessoalidade de haver contamina o auxiliar inteiro: dever não tem sujeito para concordar, já que haver não tem, e a dupla toda trava no singular.
A terceira linha é a errada mais elegante das quatro, e a que mais passa em revisão. Devem haver candidatos parece correta porque candidatos está no plural e porque o olho do revisor procura o erro em haver, encontra o infinitivo intacto e segue adiante. O m se refugiou no auxiliar.
O que decide a conjugação, portanto, não é o termo que aparece do lado direito da frase. É a existência ou a ausência de sujeito. Haver de existir não tem sujeito, e verbo sem sujeito não tem com quem concordar.
O deslize custa caro no texto de concurso porque a frase de existência se repete do começo ao fim do documento. Edital, ata, relatório de comissão e parecer jurídico são feitos de linhas que declaram o que existe e o que não existe: havia processos pendentes, houve impugnações, haverá recursos. Quem erra a primeira ocorrência erra as vinte seguintes por coerência, e o avaliador recebe o mesmo furo distribuído do preâmbulo ao anexo.
Há o caminho que o redator experiente usa quando a frase fica pesada: trocar o verbo. Existiam vagas remanescentes e ocorreram impugnações dizem o mesmo com concordância normal, porque existir e ocorrer têm sujeito de verdade e vão para o plural sem susto. A troca vale no documento do trabalho e não vale na prova, porque a prova cobra o verbo que está no enunciado.
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II A Regra
Haver de existir não tem sujeito, e o auxiliar herda o singular
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Haver no sentido de existir, acontecer ou ocorrer é impessoal, quer dizer, não tem sujeito, e fica sempre na terceira pessoa do singular: havia vagas, houve denúncias, haverá recursos. O termo ao lado é objeto direto e não comanda o verbo. Na locução verbal, o auxiliar herda a impessoalidade e também fica no singular: deve haver candidatos, pode haver recursos, vai haver mudanças.
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A verificação tem dois movimentos. O primeiro é conferir o sentido do verbo naquela linha, porque só o haver de existência é impessoal. O segundo é olhar o auxiliar da frase, quando existe um, porque é ali que o plural se esconde depois que o redator aprendeu a primeira metade da regra.
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"O verbo haver, no sentido de existir, ocorrer, acontecer, é impessoal e, portanto, só se conjuga na terceira pessoa do singular."
Celso Cunha e Luís Filipe Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985
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A gramática resolve a dúvida em uma linha, e o detalhe está na palavra portanto. O singular não é uma exceção decorada, é a consequência lógica da falta de sujeito. Sem sujeito não existe concordância possível, e o verbo fica na forma neutra que a língua reserva para esses casos.
O tempo verbal não muda nada na regra, e vale escrever a série inteira porque a prova sorteia qualquer uma delas. Houve, havia, haverá, haveria, houvesse e haja ficam no singular diante de complemento plural: houve três impugnações, haveria protestos, embora houvesse candidatos. As formas houveram e haviam com sentido de existir não existem na norma padrão, em tempo nenhum.
A locução verbal amplia a regra sem alterá-la. Qualquer auxiliar que se junte a haver entra no singular: deve haver, pode haver, vai haver, costuma haver, começou a haver, parece haver. Devem haver, podem haver e vão haver são o mesmo erro da primeira linha, apenas deslocado uma palavra para a esquerda.
Existe um haver que aceita plural, e a banca adora usá-lo como distrator na alternativa. É o haver com sujeito de verdade, que significa comportar-se ou ter: os réus houveram-se com dignidade, os aprovados houveram por bem recorrer. Nesses casos o verbo tem sujeito claro, concorda com ele e vai para o plural sem erro nenhum. O sentido de existência continua fora dessa permissão.
Um cuidado final separa haver de dois vizinhos de sentido parecido. Existir tem sujeito e concorda normalmente, existiam vagas, e por ter sujeito não serve de modelo para haver. Fazer indicando tempo decorrido segue o mesmo caminho de haver e também trava no singular: faz dez anos, fazia três meses, nunca fazem dez anos.
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