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O subjuntivo explica o venha do cartaz

Com você, venha e traga. Com tu, vem e traz. A banca cobra uma pessoa só do começo ao fim do texto.

Cartaz de loja com a palavra venha em letras grandes.

Venha e traga com você, vem e traz com tu

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O cartaz da loja de móveis dizia assim: “Vem conferir e traga sua família.” O primeiro verbo fala com tu, o segundo fala com você, e numa redação essa troca custa ponto.

A frase soa natural porque a fala brasileira faz a mesma mistura o tempo todo. Quase ninguém diz vinde nem trazei, e pouca gente para pra pensar em qual pessoa está usando ao dar uma ordem. O ouvido aceita vem e traga juntos sem estranhar.

O caso mais conhecido é um bordão publicitário da Caixa Econômica Federal: “Vem pra Caixa você também.” O verbo vem pertence a tu, e o pronome que fecha a frase é você. O bordão pegou justamente porque imita a conversa de rua.

Na propaganda, a mistura é escolha de estilo. Na redação de vestibular, no ofício e no edital, conta como falha de uniformidade de tratamento (manter a mesma pessoa gramatical do começo ao fim do texto).

A confusão tem raiz na história do pronome você. Ele nasceu de Vossa Mercê, fórmula de respeito usada com nobres, e daí conjuga o verbo na terceira pessoa, como ele. Tu sempre foi segunda pessoa, a de quem fala com um igual.

Daí o imperativo das duas pessoas sair de fontes diferentes. Para tu, a forma afirmativa vem do presente do indicativo sem o s final. Para você, vem do presente do subjuntivo (o tempo do desejo e da hipótese, o de que ele venha).

Quem escreve sem conhecer as duas fontes acaba com venha e traz na mesma linha, ou com faz e diga no mesmo parágrafo de instrução. O erro passa despercebido na leitura rápida e aparece na correção, onde o avaliador lê devagar e com o lápis na mão.

Logo abaixo, as duas fontes aparecem separadas verbo a verbo, com os irregulares que mais caem em prova.

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Quem banca a edição de hoje

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I  A Dúvida do Dia

Duas fontes para uma ordem

De onde sai cada forma do imperativo.

Com tu, o imperativo afirmativo é o indicativo sem o s: vem, traz, faz. Com você, é o subjuntivo: venha, traga, faça.

Comece por tu. No presente do indicativo, a conjugação é tu vens, tu vais, tu tens. Corte o s final e sai a ordem: vem, vai, tem. Vem cá, vai devagar, tem paciência.

Com trazer, fazer e dizer, o corte dá traze, faze e dize. A norma registra também a forma reduzida, traz, faz e diz, que é a corrente no Brasil. As duas estão certas, desde que o texto siga com tu.

O verbo ser é a exceção que a banca mais cobra. Tu és vira sê, e não és nem seja: sê forte, sê paciente. Estar segue a regra geral: tu estás vira está, como em está atento.

Agora você. Monte o presente do subjuntivo com a terceira pessoa: que ele venha, que ele traga, que ele faça, que ele diga, que ele seja. Tire o que ele, e sobra a ordem: venha, traga, faça, diga, seja.

Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo (1985), explicam a divisão: o imperativo afirmativo só tem forma própria nas segundas pessoas, tu e vós. As outras, inclusive a de você, saem emprestadas do subjuntivo.

Vós segue o mesmo caminho de tu. Vós vindes perde o s e vira vinde; vós trazeis vira trazei. A forma sobrevive em textos religiosos e em hinos, como no “Vinde a mim” das traduções da Bíblia.

Outros irregulares seguem o mesmo molde. Pôr dá ponha para você e põe para tu; ir dá vá e vai; dar dá dê e dá; querer, raro na ordem, dá queira e quer.

O plural de você também sai do subjuntivo: venham, tragam, façam, sejam. Vocês, como você, conjuga o verbo na terceira pessoa.

Há um atalho para descobrir a pessoa de qualquer imperativo: troque o verbo por ser. Se a frase aceita seja, você está falando com você. Se aceita sê, está falando com tu.

 
 

II  A Regra

Uma pessoa do começo ao fim

Escolhida a pessoa, todo verbo, pronome e possessivo do texto segue com ela: você pede venha, seu e o; tu pede vem, teu e te.

A troca não para no verbo. “Traga seu documento e preenche teu cadastro” erra duas vezes: muda a pessoa do imperativo e muda o possessivo. A versão com você fica traga seu documento e preencha seu cadastro.

A versão com tu também está certa: traz teu documento e preenche teu cadastro. O que a norma cobra é a escolha mantida, e não uma pessoa específica.

As placas de trânsito brasileiras mostram a escolha feita. A placa de parada obrigatória, prevista no Código de Trânsito Brasileiro, traz escrito PARE, imperativo de você. Com tu, a placa diria para, e o motorista leria a preposição.

O imperativo negativo segue outra lógica e sai inteiro do subjuntivo, nas duas pessoas. Com você, não venha, não traga. Com tu, não venhas, não tragas. Não vem e não traz são formas da fala, fora da norma padrão.

A música popular dá um exemplo de tratamento mantido. Geraldo Vandré, em Pra Não Dizer que Não Falei das Flores (1968), escreveu “Vem, vamos embora, que esperar não é saber”: o verbo fica em tu do começo ao fim do refrão.

Na fala de muitas regiões, tu aparece com verbo de terceira pessoa: tu vai, tu quer, tu vem amanhã. É um uso regional legítimo na conversa, mas a norma padrão pede tu vais, tu queres, tu vens.

O imperativo aparece pouco na dissertação, que costuma usar a terceira pessoa. Ele aparece muito nos vestibulares que pedem carta, panfleto, manifesto ou anúncio, como o da Unicamp, e nos concursos que cobram redação oficial.

Em Portugal, o quadro é outro: tu domina a conversa entre íntimos, e você soa distante ou até ríspido em muitas situações. Um panfleto escrito para leitores portugueses tende a usar tu ou o senhor, e o imperativo acompanha a escolha local.

Em texto formal no Brasil, a escolha segura é você, ou o senhor e a senhora quando o destinatário pede cerimônia. Os três conjugam como terceira pessoa e pedem o mesmo subjuntivo: o senhor venha, a senhora traga.

O pronome oblíquo acompanha a mesma escolha. Com você, a frase fica eu o espero na entrada ou eu lhe envio o convite; com tu, eu te espero na entrada. Misturar te com você, como em você sabe que eu te ajudo, é outro desvio de uniformidade que a banca marca.

A regra vale para o texto inteiro, título incluído. Se o cartaz abre com Vem e o rodapé pede Ligue já, a uniformidade quebrou entre a primeira e a última linha.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  O Teste

Cartaz corrigido verbo a verbo

Diante de qualquer texto com ordem, convite ou instrução, três passos acertam a pessoa.

1. Ache o primeiro pronome ou possessivo do texto: você, seu, sua, tu, teu, tua. Ele define a pessoa que o resto precisa seguir.

2. Teste cada imperativo trocando o verbo por ser. Se cabe seja, a forma é de você; se cabe sê, é de tu.

3. Corrija o que destoa pela fonte certa: subjuntivo para você, indicativo sem o s para tu.

Aplicado ao cartaz da loja de móveis: o possessivo sua e o verbo traga apontam para você, e vem destoa. Fica venha conferir e traga sua família. Com tu, o cartaz inteiro muda: vem conferir e traz tua família.

O bordão da Caixa passa pelo mesmo teste. Na norma padrão, sai venha para a Caixa você também, ou vem para a Caixa tu também. O pra, contração de para, também é marca da fala.

Agora a questão no formato de concurso. Assinale a frase com tratamento uniforme: (A) Venha à palestra e traz teu currículo. (B) Vem à palestra e traga seu currículo. (C) Venha à palestra e traga seu currículo. (D) Vem à palestra e traga teu currículo.

A alternativa A começa em você e termina em tu, no verbo e no possessivo. A B faz o caminho inverso: vem é de tu, traga e seu são de você.

A D é a armadilha mais eficiente, porque o possessivo teu combina com vem e engana quem confere só o começo e o fim. O verbo do meio, traga, é de você, e a frase quebra ali.

A C mantém você em todos os pontos e é o gabarito. Venha e traga saem do subjuntivo, e seu acompanha a terceira pessoa.

Quem quiser treinar o olho pode reler o bordão da Caixa com o atalho do ser: seja pra Caixa você também soa estranho, mas mostra que venha é a forma que combina com o você do final.

No trabalho, o teste vale para aviso de mural, email de convite e manual de instrução. Antes de publicar, procure no editor por teu, tua e você. Se os dois grupos aparecem no mesmo texto, um deles precisa sair.

“No último aviso que você escreveu, todos os verbos falavam com a mesma pessoa?”

Confira antes de imprimir o cartaz: verbos com você na forma do subjuntivo, como venha e traga,
verbos com tu sem o s do indicativo, como vem e traz,
nenhum teu ou tua num texto que começou com você.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que ano Celso Cunha e Lindley Cintra publicaram a Nova Gramática do Português Contemporâneo, que explica a divisão do imperativo entre tu e você?

A1968
B1972
C1985
D1998

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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