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O plural de ONG leva 1 s e zero apóstrofo
Sigla vai ao plural com s minúsculo colado, sem apóstrofo: ONGs, CPFs, PMs. O sinal só marca letra que caiu.
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O apóstrofo que sobra na sigla
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D oe para as ONG's do bairro: a legenda saiu assim, com um apóstrofo entre a sigla e o s, no post de uma campanha de agasalhos que circulou pelos grupos de família no inverno. A forma certa tem um caractere a menos: ONGs.
O apóstrofo pendurado na sigla aparece em toda parte. Está no aviso do condomínio que pede os CPF's dos visitantes, na manchete que conta os PM's afastados, na vitrine que anuncia DVD's em promoção, no formulário do clube que lista os RG's dos sócios. Em todos esses casos, o sinal sobra.
O tropeço vem do inglês. Lá, o apóstrofo seguido de s marca o possessivo (a ideia de posse, como em the NGO's budget, o orçamento da ONG). Quem vê a forma em marca, filme e cardápio importados acaba transferindo o sinal para o plural português, onde ele nunca teve função.
No português, o apóstrofo tem um trabalho só: marcar uma letra que caiu quando duas palavras se juntaram. Caixa-d'água, pau-d'arco, galinha-d'angola e Sant'Ana levam o sinal porque a preposição de perdeu o e, ou porque Santa perdeu o a. No plural de sigla, nenhuma letra cai. O s apenas se soma ao fim.
A forma sem apóstrofo é a que orienta o Manual de Redação da Presidência da República, o guia que padroniza a escrita dos documentos oficiais do governo federal. As bancas de concurso seguem a mesma orientação e tratam ONG's como erro de grafia.
O teclado ajuda a espalhar uma variante ainda pior. Muita gente digita ONG´s com o acento agudo solto no lugar do apóstrofo, porque as duas teclas ficam vizinhas em boa parte dos teclados brasileiros. O resultado junta dois erros numa palavra de quatro letras.
O post da campanha se conserta apagando um sinal. Antes da regra, vale ver de onde veio o hábito, e por que nem os ingleses aceitam a forma que chegou até aqui.
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I A Dúvida do Dia
Um vício que nem o inglês aceita
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Por que ONGs dispensa o apóstrofo que o inglês empresta.
Em inglês, o plural de NGO, sigla de non-governmental organization (organização não governamental), também se escreve sem apóstrofo: NGOs. A forma NGO's, com o sinal, só é correta quando indica posse, e os gramáticos de língua inglesa condenam o uso dela como plural.
O apóstrofo fora de lugar ganhou até apelido por lá: greengrocer's apostrophe, o apóstrofo do quitandeiro. O nome vem das placas de feira na Inglaterra, onde vendedores escreviam apple's e banana's para anunciar maçãs e bananas.
A jornalista britânica Lynne Truss dedicou um capítulo inteiro ao sinal no livro Eats, Shoots & Leaves (Come, atira e vai embora), lançado em 2003. O livro virou best-seller no Reino Unido e nos Estados Unidos e tratou o plural com apóstrofo como um dos erros de pontuação mais comuns da língua.
Em 2001, o jornalista aposentado John Richards fundou na Inglaterra a Apostrophe Protection Society (Sociedade de Proteção do Apóstrofo). A associação mandava cartas educadas a lojas e órgãos públicos com placas erradas. Encerrou as atividades em 2019, quando Richards, então com 96 anos, declarou que a ignorância e a preguiça tinham vencido a disputa.
Quem escreve ONG's em português, portanto, imita um hábito que os próprios falantes de inglês tentam corrigir. O sinal chega por cópia visual: logotipos, nomes de lanchonete, títulos de filme. A pessoa vê a forma repetida e a toma como padrão internacional.
O inglês admite o apóstrofo no plural em um caso isolado: letras soltas, como na expressão mind your p's and q's (cuide dos pês e quês, ou seja, tenha modos). Mesmo ali, parte dos manuais de estilo de língua inglesa prefere dispensar o sinal sempre que a leitura não fica ambígua.
A sigla ONG chegou ao português pelo mesmo caminho. É decalque (tradução palavra por palavra) do termo que a Carta das Nações Unidas, assinada em 1945, usa no artigo 71 para as entidades civis que podem ser consultadas pelo Conselho Econômico e Social da ONU.
O decalque trouxe a sigla, mas não trouxe a gramática do possessivo. Em português, a posse se expressa com a preposição de: o orçamento da ONG, a sede das ONGs. Não há construção com apóstrofo seguido de s em nenhum caso.
As outras siglas da manchete seguem a mesma lógica. CPF é Cadastro de Pessoas Físicas; PM, Polícia Militar ou policial militar; DVD, a sigla inglesa de digital versatile disc (disco digital versátil). Todas formam o plural do jeito mais simples possível: os CPFs, os PMs, os DVDs.
PM ainda guarda uma sutileza de gênero. A PM é a corporação, e as PMs são as polícias militares dos estados. O PM é o soldado, e os PMs são os policiais. A sigla se escreve igual nos dois casos; quem mostra o sentido é o artigo.
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II A Regra
O s minúsculo colado na sigla
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Plural de sigla: acrescente um s minúsculo, colado, sem apóstrofo e sem espaço. ONGs, CPFs, PMs, DVDs, TVs.
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O Manual de Redação da Presidência da República, na 3ª edição, publicada em 2018, segue o padrão que a imprensa brasileira já usava: a sigla em maiúsculas e a marca de plural em minúscula, logo depois da última letra.
A minúscula tem função. Se o s viesse em caixa alta, ONGS poderia ser lida como uma sigla de quatro letras, com um S que representasse outra palavra. A letra pequena avisa ao leitor que ali termina a sigla e começa a flexão (a mudança na forma da palavra para indicar número).
O artigo concorda com a palavra principal escondida na sigla. As ONGs, porque organização é feminino. Os CPFs, porque cadastro é masculino. As TVs, porque televisão é feminino. Na dúvida, abra a sigla por extenso e escolha o artigo pelo primeiro substantivo.
Siglas que já terminam em S pedem cuidado. OS, de ordem de serviço, fica igual no plural: as OS. O artigo e o verbo mostram a quantidade, como acontece com ônibus e lápis. Somar outro s geraria uma forma estranha, que os manuais evitam.
Siglas que se leem como palavra e se escrevem só com a inicial maiúscula seguem a regra comum: Detran vira Detrans; Procon vira Procons. O s também vem colado, sem sinal nenhum.
Abreviatura funciona por outra regra. Senhor abreviado é Sr., e o plural é Srs. Página abreviada é pág., e o plural é págs. O s entra antes do ponto, e o apóstrofo continua de fora.
Marca registrada é outra história. Uma rede de lanchonetes que se chama Bob's mantém a grafia do registro, porque nome próprio segue a escolha do dono. O caso pertence à marca e não serve de modelo para a sigla comum.
O mesmo vício aparece nas décadas. Quem escreve anos 80's mistura duas marcas de plural: a do português, no artigo os, e a do inglês, no s com apóstrofo. A forma correta é anos 80, ou anos 1980, sem s nenhum depois do número.
Fica, então, o apóstrofo com os usos legítimos. Ele marca a supressão (a queda de uma letra) em compostos e nomes: caixa-d'água, olho-d'água, mãe-d'água, pau-d'alho, Sant'Ana, Santa Bárbara d'Oeste. Em todos esses casos, alguma letra sumiu na junção.
Na sigla no plural, nada some. Por esse critério simples, o sinal não tem onde entrar.
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