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O particípio pede mais bem, nunca melhor
Diante de escrito, feito e redigido a comparação vai para mais bem e mais mal, e a banca cobra a forma dentro de uma frase de comparação.
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A ata do prêmio com a comparação trocada
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Nove e vinte da manhã, sala de reunião de uma construtora de porte médio, a ata do prêmio interno circula impressa entre os sete avaliadores. A linha do meio, a que define o vencedor do trimestre, registra que a comissão escolheu o relatório melhor escrito entre os doze inscritos.
A palavra melhor entrou ali porque resolve quase tudo na fala e não pede pausa nenhuma de quem digita. A palavra seguinte é escrito, particípio do verbo escrever, e é ela que muda a exigência da norma antes de a frase chegar ao substantivo premiado.
A comparação de superioridade tem duas formas em português e elas não cobrem o mesmo terreno. Melhor e pior servem ao adjetivo comum, e diante de particípio a norma escrita pede as formas de duas palavras, mais bem e mais mal, sem depender do gosto de quem redige.
O relatório mais bem escrito do trimestre é a linha correta da ata. O projeto mais bem executado, o texto mais mal redigido, a peça mais bem acabada: em todas, a comparação vem em duas palavras antes do particípio, e a forma curta fica de fora.
O erro do documento tem origem clara. Melhor cabe em menos espaço e soa mais formal em papel de comissão, e quem redige ata, parecer ou edital tenta enxugar a frase, apagando o mais bem sem perceber que trocou a classe da palavra seguinte no caminho.
A banca de concurso monta o item exatamente sobre essa economia. Ela escreve uma frase de comparação, oferece a versão com melhor colada no particípio entre as alternativas e conta que o candidato escolha pelo ritmo, porque a linha errada soa mais enxuta do que a linha certa.
A questão de hoje começa por quatro linhas quase iguais, todas sobre o mesmo relatório e todas com a mesma comparação em forma diferente. Depois vem a regra que separa particípio de adjetivo comum, e o teste que resolve a escolha antes de a ata circular na mesa.
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I A Dúvida do Dia
Quatro linhas para o mesmo relatório
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Uma palavra depois da comparação.
A dúvida cabe em quatro linhas quase iguais: o relatório mais bem escrito do trimestre, o relatório melhor escrito do trimestre, o relatório mais melhor escrito do trimestre, o relatório mais bom escrito do trimestre. As quatro saem de material real, de ata de comissão, de e-mail de retorno, de parecer técnico e de legenda de rede social corporativa.
Só a primeira passa na norma escrita e as outras três caem na correção, e a diferença não tem nada a ver com o tamanho da frase nem com o grau de formalidade que o documento tenta ter. O que decide é a classe da palavra que vem logo depois da comparação.
O relatório mais bem escrito do trimestre é a única linha correta. A comparação aparece em duas palavras, mais bem, o particípio escrito vem em seguida, e as peças ficam nessa ordem em qualquer frase que compare a maneira como algo foi feito.
O relatório melhor escrito do trimestre é o desvio mais comum do texto de escritório. A forma curta ocupou o lugar da forma de duas palavras porque soa mais econômica no papel, passou por cima do particípio que estava logo à frente e deixou a linha com um erro que a leitura em voz alta não denuncia.
O relatório mais melhor escrito do trimestre é o desvio de quem tenta consertar sem entender a regra. A pessoa percebe que falta alguma palavra antes do particípio, encaixa o mais na frente de melhor e produz uma comparação dobrada, porque melhor já carrega o valor de mais bom dentro de si.
O relatório mais bom escrito do trimestre é a versão que desmonta a forma curta pelo lado errado. Ela aparece em texto traduzido às pressas e em fala transcrita sem revisão, separa bom em vez de bem e troca o advérbio que qualifica o particípio por um adjetivo que não cabe naquela posição.
A vizinhança do documento amplia o problema porque a mesma ata traz outras comparações. O canteiro melhor organizado do semestre, a obra pior planejada da carteira, e as duas repetem o desvio da linha principal com outros particípios logo depois da comparação.
O e-mail de retorno é onde a troca custa mais barato e aparece mais. A resposta ao autor sai com o seu texto ficou melhor escrito que a versão anterior, quem recebe lê sem estranhar, e o mesmo desvio circula em dezenas de caixas de entrada por semana sem que ninguém corrija.
O item de prova multiplica a armadilha com distância. Ele afasta a comparação do particípio com um advérbio ou com um complemento no meio, escreve o projeto melhor, embora tardiamente, executado da série, e conta que o candidato perca de vista a palavra que comanda a escolha da forma.
Quem assina a ata com a forma curta colada no particípio passa o trimestre sem consequência nenhuma. Quem presta concurso descobre o preço na correção, porque o item costuma trazer exatamente a linha de aparência mais enxuta entre as alternativas, e ela é a única que não resiste à leitura da palavra seguinte.
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II A Regra
Diante de particípio, melhor vira mais bem
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Antes de particípio, a comparação de superioridade sai em duas palavras: mais bem e mais mal, nunca melhor e pior. Escrito, feito, redigido, executado, acabado, sucedido e elaborado exigem a forma analítica, por mais econômica que a forma curta pareça no documento.
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A regra tem duas decisões e as duas são rápidas. A primeira é olhar a palavra que vem logo depois da comparação e verificar se ela é particípio. A segunda é abrir melhor em mais bem, ou pior em mais mal, e a frase sai pronta dessa verificação.
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"Diante de particípio, dá-se preferência às formas analíticas mais bem e mais mal, em lugar das sintéticas melhor e pior."
Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, 37ª edição, 2009
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A formulação do gramático trata o particípio como o gatilho da troca, e não como detalhe de estilo. A forma curta guarda dentro de si o advérbio bem e o comparativo mais ao mesmo tempo, e o particípio pede que as duas cargas apareçam separadas, cada uma na sua palavra.
A primeira situação é a do particípio regular, a mais frequente do texto de trabalho: mais bem escrito, mais bem feito, mais bem redigido, mais bem elaborado. Todas trazem a comparação em duas palavras e nenhuma admite a forma curta encostada no particípio.
A segunda situação é a do lado negativo, que passa despercebido porque a troca de pior soa ainda mais estranha ao ouvido. Em o parecer mais mal fundamentado da série e em a planilha mais mal formatada do arquivo, a simetria com mais bem se mantém inteira.
A terceira situação é a do adjetivo comum, que devolve a forma curta ao seu lugar. Em este relatório é melhor que o anterior e em a segunda versão ficou pior, não existe particípio depois da comparação, e a forma curta é a única correta nas duas linhas.
A quarta situação é a do particípio com hífen já dicionarizado, que confunde por causa da grafia. Em o profissional mais bem sucedido do grupo, a comparação continua em duas palavras antes do particípio, e a forma curta permanece proibida também nessa família de expressões.
Um detalhe fecha o quadro e resolve a dúvida da ata. Quando a comparação vem depois do verbo, e não antes do particípio, a forma curta volta a passar, como em ele escreve melhor do que a equipe inteira, que é a linha correta justamente por não ter particípio nenhum logo à frente.
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