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O autor cujo livro vendeu, nunca cujo o livro
Cujo já carrega a posse e recusa artigo depois de si, e concorda com a coisa possuída que vem em seguida.
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O artigo a mais que a cláusula trouxe
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Quatro e dez da tarde, sala de reunião de uma editora, um contrato de cessão de direitos aberto na tela e projetado na parede para leitura conjunta. A cláusula terceira começa assim: o autor cujo o livro foi selecionado receberá adiantamento na assinatura.
A jurídica leu a cláusula em voz alta duas vezes, o editor acompanhou linha por linha, a assistente conferiu valores e prazos, e ninguém parou na terceira palavra. A frase é longa, o assunto é dinheiro, e a atenção da sala inteira foi para o número do adiantamento.
O defeito está num artigo de uma letra que não deveria estar ali. Cujo não é um relativo comum: ele já traz dentro de si o valor de posse, funciona como um de quem enxertado no meio da frase, e um possessivo não aceita artigo grudado depois dele.
Ninguém escreve o autor de quem o livro, do mesmo jeito que ninguém escreve meu o livro nem seu o carro. A construção com cujo segue a mesma lógica, e o artigo entra na escrita por eco da fala, que sente falta de uma sílaba de apoio antes do substantivo.
A segunda metade do problema é a concordância. Cujo olha para frente, não para trás: ele concorda em gênero e número com a coisa possuída que vem logo depois, e não com o dono que ficou para trás na frase.
O autor cujas obras esgotaram, a autora cujo romance vendeu, os editores cujas decisões mudaram o catálogo. Em todas essas linhas o gênero da palavra escolhida foi ditado pelo substantivo à direita, e o dono à esquerda não interferiu na flexão.
A banca de concurso gosta desse pronome porque ele permite esticar a frase até a memória do candidato falhar. O item põe o dono no começo do período, atravessa duas orações intercaladas cheias de vírgula, e só então solta o cujo, quando o leitor já perdeu de vista qual palavra manda na concordância.
A questão de hoje começa por essa cláusula da editora, com as quatro versões que circulam em contrato, e-mail e ata, e a pergunta de qual delas passa na norma escrita. Depois vem a regra que explica por que o artigo não entra e para onde a concordância aponta, e o teste que resolve a linha antes de o documento seguir para assinatura.
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I A Dúvida do Dia
Um artigo a mais na cláusula
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Um pronome, duas armadilhas.
A dúvida cabe em quatro linhas quase idênticas: o autor cujo livro foi selecionado, o autor cujo o livro foi selecionado, a autora cujo romance vendeu, a autora cuja romance vendeu. As quatro saem de texto real, de contrato, de parecer, de mensagem de trabalho e de ata de reunião.
Duas delas passam na norma escrita, e a divisão não tem nada a ver com formalidade nem com a extensão da frase. O que decide é o que cujo carrega dentro de si e para qual lado ele olha na hora de flexionar.
O autor cujo livro foi selecionado é a linha da norma. Cujo entra sozinho, sem artigo, e concorda no masculino singular porque livro é masculino singular, mesmo com autor plantado logo antes dele.
O autor cujo o livro foi selecionado é a linha que o contrato trouxe e a norma recusa. O artigo o repete uma posse que o pronome já tinha anunciado, e o resultado é uma duplicação de sentido dentro de duas palavras vizinhas.
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A comparação que torna o defeito visível é a troca por de quem. Cujo equivale a de quem, e o autor de quem o livro foi selecionado soa estranho para qualquer ouvido, porque a posse aparece duas vezes na mesma sequência.
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A autora cujo romance vendeu é a linha correta do outro lado da dupla. O pronome ignora autora, que ficou para trás, e vai concordar com romance, o substantivo que vem logo depois e nomeia a coisa possuída.
A autora cuja romance vendeu é o desvio que nasce da atração pelo dono. O escritor vê autora no feminino, puxa o relativo para o feminino também, e produz um desacordo direto com a palavra que está colada nele.
A frase longa é a arma da banca. O item de prova coloca o dono na primeira linha do período, insere um aposto entre vírgulas, depois uma oração explicativa, e só solta o cujo quatro linhas adiante, quando a memória de trabalho já soltou o fio.
A preposição é o segundo disfarce e derruba quem decorou apenas metade da regra. Em o autor a cujas obras me referi, a preposição a foi pedida pelo verbo referir-se e entra antes do pronome, nunca depois, e o artigo continua proibido no lugar de sempre.
O plural do outro lado confunde na mesma medida. Os editores cuja decisão mudou o catálogo está correto, porque decisão é singular, e o plural de editores não tem força nenhuma sobre a flexão do relativo.
Quem assina o contrato com o artigo a mais segue a semana sem consequência. Quem presta concurso descobre o preço na correção: a alternativa marcada perde o ponto, e o gabarito publicado depois não muda por recurso.
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II A Regra
Cujo olha para a frente
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Cujo equivale a de quem e já contém a posse, por isso nunca aceita artigo depois de si: o autor cujo livro, nunca o autor cujo o livro. A flexão acompanha o substantivo que vem logo em seguida, a coisa possuída, e nunca o dono citado antes.
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A regra tem duas decisões, e as duas são rápidas. A primeira é não escrever artigo depois do pronome. A segunda é olhar para a palavra imediatamente à direita e copiar dela o gênero e o número.
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"Cujo é o único relativo que estabelece uma relação de posse entre dois substantivos, e concorda em gênero e número com o nome da coisa possuída, que vem imediatamente depois dele."
Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985
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A gramática registra a construção como propriedade do pronome, e não como preferência de estilo ou de região. Cujo o livro e cujo livro têm a mesma intenção na leitura da sala de reunião, e só a segunda passa no texto que vai ser corrigido.
A primeira situação é a mais simples, com o possuidor e a coisa possuída lado a lado: a empresa cujo faturamento caiu, o candidato cuja prova foi anulada, a professora cujos alunos passaram. O pronome copia o substantivo da direita e ignora a palavra da esquerda.
A segunda situação é a da frase esticada, e ela é a que derruba mais gente. O período põe o dono no começo, atravessa aposto e oração intercalada, e entrega o cujo tão longe do início que o escritor concorda com a última palavra feminina que lembra.
A terceira situação é a da preposição exigida por verbo ou por nome. O livro a cujo autor escrevi, o processo em cujos autos consta a perícia, o edital de cujas regras discordamos: a preposição vem antes do pronome, empurrada pela regência, e o artigo continua fora.
A quarta situação é a do relativo repetido no mesmo período, que multiplica a chance de erro. A editora cujo catálogo cresceu e cujas vendas dobraram exige duas concordâncias independentes, uma com catálogo e outra com vendas, cada uma resolvida no seu próprio ponto.
Um detalhe fecha o quadro e resolve muita dúvida de escrita profissional. Cujo não admite substituição por que o ou por o qual o na mesma posição, e a tentativa de reescrever com de que costuma piorar a frase em texto formal, o que faz do pronome a saída mais econômica.
Um vizinho ajuda a fixar o desenho porque cai no mesmo tipo de atração pela palavra errada. O par onde e aonde segue a lógica da regência, e o desvio nasce igual: o escritor concorda com a palavra que está à vista em vez da estrutura que a frase exige.
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III O Teste
Troque por de quem, depois olhe à direita
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1. Substitua o pronome por de quem na cabeça. Se a frase pede um substantivo puro logo depois, sem artigo, a construção com cujo também vai sem artigo: o autor de quem o livro travou, então o autor cujo livro segue limpo.
2. Olhe para a palavra imediatamente à direita. O gênero e o número dela mandam na flexão: obras pede cujas, romance pede cujo, decisão pede cuja, e o dono citado antes não entra nessa conta.
3. Cubra a frase até o pronome com a mão. Se o trecho que sobra ainda deixa a concordância evidente, a escolha está certa, e a leitura curta elimina a interferência da oração intercalada.
Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que o pronome relativo está empregado de acordo com a norma. Entre as opções aparecem o autor cujo o livro venceu o prêmio e a autora cujas obras foram traduzidas, cercadas por parágrafos administrativos longos.
Aplicado às duas, o teste resolve em segundos. A primeira leva artigo depois do relativo e cai fora na hora, a segunda flexiona no feminino plural porque obras é feminino plural, e a alternativa correta se destaca sem depender de releitura do período inteiro.
Longe da prova, o teste serve na mesma velocidade. Antes de mandar o contrato para assinatura com a cláusula do autor cujo o livro foi selecionado, apague o artigo e confirme a flexão em livro, e a linha volta para a norma sem discussão.
A frase longa pede um cuidado extra, e ele é mecânico. Quando o período tiver mais de três linhas até chegar ao relativo, reescreva a oração em duas frases curtas ou aproxime o dono do pronome, porque distância grande é o que produz a concordância errada.
A escolha entre cujo, cuja, cujos e cujas não é questão de ouvido nem de registro. O desvio nasce quando a flexão é feita pelo dono que ficou para trás, e o artigo entra quando a fala pede uma sílaba de apoio que a escrita não autoriza.
Um segundo cuidado vale para o texto de trabalho, onde o pronome aparece em contrato, parecer e relatório. O cliente cujo pedido atrasou e a área cujas metas foram revistas levam a flexão da palavra seguinte, e nenhuma das duas aceita artigo entre o pronome e o substantivo.
O autor cujo livro vendeu e a autora cujas obras esgotaram estão as duas na norma, e a linha que cai na correção é a que enfiou um artigo depois do pronome ou concordou com o dono em vez da coisa possuída.
"No último contrato, parecer ou relatório que você escreveu com uma frase longa, o cujo saiu concordando com a palavra colada nele ou com o nome que tinha ficado três linhas atrás?"
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Guia Português do Dia · Novo
A Folha Deixa de Ser Branca
O Esqueleto de Cinco Parágrafos que põe a redação de pé em uma hora.
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Quiz da edição
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Na frase 'a autora cujo romance vendeu', com qual palavra o pronome cujo concorda em gênero e número?
Resultado da última edição: 50% acertaram.
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