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Meio-dia e meia ou meio-dia e meio
Meia concorda com a hora subentendida, e meio trava como advérbio diante do adjetivo.
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A hora escondida decide a letra
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Onze e quarenta da manhã, mural da recepção de uma prefeitura do interior, dois papéis colados a um palmo de distância um do outro. O edital de convocação avisa que a sessão ordinária começa ao meio-dia e meio. O convite do casamento da servidora do protocolo, pregado logo ao lado, marca a cerimônia para meio-dia e meia.
Os dois papéis falam do mesmo instante do relógio e escrevem esse instante de dois jeitos diferentes. Ninguém que passa pela recepção repara na divergência, porque a fala não separa uma forma da outra e o ouvido atravessa as duas linhas sem tropeço.
A palavra que decide a letra final não está escrita em nenhum dos dois papéis. Meia concorda com hora, um substantivo feminino que fica subentendido logo depois do numeral, e a concordância acontece com aquilo que a frase deixou de fora.
A prova gosta dessa peça exatamente porque o alvo é invisível. O candidato olha para meio-dia, encontra um masculino diante dos olhos, faz a concordância com o que enxerga e marca meio, sem perceber que a metade nunca foi do dia inteiro, foi da hora.
Do outro lado da mesma palavra mora um caso que parece outro assunto e é o mesmo. Ela ficou meio nervosa, a porta está meio aberta, a sala ficou meio vazia depois do intervalo: nessas linhas meio não concorda com nada e fica travado no masculino singular.
O motivo da trava é a classe da palavra. Quando meio encosta num adjetivo para dizer o grau, ele deixa de ser numeral e vira advérbio, e advérbio não flexiona em gênero nem em número em português.
A dificuldade prática é que as duas situações usam a mesma palavra na mesma conversa, às vezes na mesma frase. Chegou meio-dia e meia meio atrasada é uma linha correta que soa errada, e a linha que soa certa é a que perde ponto no espelho de correção.
A questão de hoje começa pelo mural da prefeitura, com as quatro linhas em que a dupla aparece e a pergunta de qual delas passa na norma escrita. Depois vem a regra que separa o numeral do advérbio, o caso do meio-dia e meia hora, a meia entrada e a meia porção, e o teste que resolve antes de você mandar o convite para a gráfica.
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I A Dúvida do Dia
Uma letra no fim do convite
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Uma letra, duas funções.
A dúvida cabe em quatro linhas quase idênticas: a sessão começa ao meio-dia e meia, a sessão começa ao meio-dia e meio, ela ficou meio nervosa, ela ficou meia nervosa. As quatro saem de texto real, de edital, de convite, de mensagem de trabalho e de ata, e a maioria dos leitores atravessa as quatro sem parar.
Duas delas passam na norma escrita, e a divisão não depende do tom nem da formalidade do texto. A diferença está na função que a palavra ocupa em cada linha, e a função muda com a companhia que ela tem ao lado.
A sessão começa ao meio-dia e meia é a linha da norma. Meia é numeral fracionário aqui, está dizendo metade de uma hora, e concorda em gênero com hora, o substantivo feminino que a frase deixou implícito depois do numeral.
A sessão começa ao meio-dia e meio é a linha que a fala esconde e a prova recusa. Quem escreve meio está concordando com dia, e o problema é que a metade anunciada nunca foi metade do dia: metade do dia seriam seis horas, não trinta minutos.
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O raciocínio fica visível quando a palavra escondida volta para o papel. Meio-dia e meia hora é a forma completa, e ninguém escreveria meio-dia e meio hora, porque o desacordo entre meio e hora salta aos olhos assim que o substantivo aparece.
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Ela ficou meio nervosa é a linha correta do outro lado da dupla. Meio está grudado no adjetivo nervosa, está dizendo o grau do nervosismo, e quem informa grau de adjetivo é advérbio, que em português não varia nunca.
Ela ficou meia nervosa é a versão que a concordância automática produz e a norma recusa. O falante vê nervosa no feminino, puxa a palavra anterior para o feminino também, e a flexão vira erro porque advérbio não tem gênero para flexionar.
A pronúncia colabora com o desvio nas duas frentes. Meio e meia terminam em som de vogal átona que a fala corrida encurta, o ouvido não guarda a diferença e a escolha na hora de escrever vira aposta entre duas formas que parecem equivalentes.
O disfarce mais comum da banca é o texto administrativo longo. O item de prova põe o horário de abertura no começo do parágrafo e um adjetivo com meio na última linha, o candidato acerta a primeira ocorrência, relaxa a atenção e erra a segunda sem perceber que era a mesma palavra.
Existe ainda a aparição de meio como substantivo, com artigo na frente, e ela não pede concordância nenhuma. O meio ambiente, o meio de campo, o meio do caminho, os meios de prova: com determinante antes, a palavra é nome e segue o próprio gênero masculino.
Quem cola o convite errado no mural segue a semana sem consequência. Quem presta concurso descobre o preço na correção: a alternativa marcada perde o ponto, e o gabarito publicado depois não muda por recurso.
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II A Regra
Meia concorda, meio não
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Meia é numeral e concorda com o substantivo, mesmo quando ele fica subentendido: meio-dia e meia hora, meia entrada, meia porção, meias palavras. Meio é advérbio quando informa o grau de um adjetivo, e nessa função nunca varia: ela ficou meio nervosa, a porta está meio aberta.
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A regra tem uma decisão só, e ela vem antes de qualquer letra: descobrir se a palavra está contando metade de alguma coisa ou está graduando um adjetivo. Definida a função, a grafia é automática e não muda com a posição na frase nem com o tempo verbal.
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"Meio, quando é advérbio, permanece invariável, ainda que se refira a adjetivo feminino: ela estava meio cansada."
Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, 1999
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A gramática registra a diferença como classe de palavra, e não como preferência de estilo ou de região. Meia cansada e meio cansada têm a mesma intenção na conversa da recepção, e só a segunda passa no texto que vai ser corrigido.
A primeira situação é a do numeral fracionário com substantivo à vista, e ela é a mais fácil: meia entrada, meia porção, meia dúzia, meia hora, meia página. A palavra encosta num substantivo feminino presente na frase e concorda com ele sem nenhuma dúvida.
A segunda situação é a do numeral com substantivo escondido, e ela é a que derruba mais gente: meio-dia e meia, uma e meia, duas e meia, três e meia. O substantivo que manda na concordância é hora, e ele desaparece da superfície sem desaparecer da conta.
A terceira situação é a do advérbio de grau: meio nervosa, meio aberta, meio cansada, meio vazia, meio distraída. A palavra encosta num adjetivo, aceita a troca por um pouco no lugar, e sai travada no masculino singular por não ter gênero para variar.
A quarta situação é a do substantivo, e ela precisa do artigo como pista. O meio ambiente, o meio de campo, o meio do caminho, os meios de comunicação: com artigo ou determinante na frente, a palavra é nome e segue o próprio gênero.
O caso do meio-dia e meia merece uma linha própria porque a norma aceita a forma completa e a reduzida. Meio-dia e meia hora e meio-dia e meia estão as duas registradas, e a segunda é a que aparece em convite, edital e conversa de trabalho.
Um vizinho fecha o quadro porque cai no mesmo tipo de armadilha da concordância com palavra ausente. O par bastante e bastantes segue o mesmo desenho: bastante é invariável quando gradua adjetivo, como em bastante cansada, e flexiona quando conta substantivo, como em bastantes motivos.
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