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Mal com verbo, mau com substantivo

Mal é o contrário de bem e acompanha verbo. Mau é o contrário de bom e acompanha substantivo. Uma troca resolve a prova.

Redação com mau planejado circulado em vermelho pela banca.

Malcriado junto, mau humor separado

▼
 

A frase do candidato estava no terceiro parágrafo da redação: “O projeto foi mau planejado desde o início.” A banca descontou meio ponto, e o corretor do editor de texto não sublinhou nada.

O programa deixou passar porque mau existe. A palavra está no dicionário, escrita do jeito certo, e o verificador ortográfico confere cada palavra solta, sem olhar a vizinha. Para ele, mau planejado e mal planejado são duas sequências válidas.

O corretor humano lê a frase inteira. Ele vê um particípio (a forma do verbo terminada em -ado ou -ido, como planejado e escrito) logo depois da palavra e sabe o que ela precisa ser ali: um advérbio, a palavra que modifica o verbo. Mau não faz esse trabalho.

A troca acontece nos dois sentidos. Quem escreve mau planejado também escreve, na mesma prova, saiu de mal humor ou fechou um mal negócio. São três erros nascidos de uma confusão só, e cada um custa o seu desconto.

Os editais costumam listar ortografia e emprego das classes de palavras no conteúdo de língua portuguesa, e as bancas gostam do par justamente porque a fala o apaga. Na maior parte do Brasil, mal e mau soam iguais: o l no fim da sílaba ganhou som de u.

Na escrita, a pronúncia deixa de ajudar. Quem escreve de ouvido acerta metade das vezes, e metade é pouco para quem precisa de nota na redação ou de um relatório sem marca de caneta.

A saída cabe numa troca de palavras que qualquer pessoa faz de cabeça, sem gramática aberta na mesa. Ela funciona na prova, no email do trabalho e na legenda do post.

Logo abaixo, de onde vem cada forma, por que a troca resolve e os casos em que mal gruda na palavra seguinte, com ou sem hífen.

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I  A Dúvida do Dia

Duas palavras com um som só

De onde vem o l, de onde vem o u.

Mal é advérbio e se opõe a bem. Mau é adjetivo e se opõe a bom. A grafia muda conforme a palavra ao lado.

As duas formas vêm do latim. Mal descende de male, advérbio (palavra que modifica verbo, adjetivo ou outro advérbio) que os romanos usavam para dizer de modo ruim. Mau descende de malus, adjetivo (palavra que qualifica um substantivo) com o sentido de ruim ou perverso.

Durante séculos, a pronúncia separou as duas. Em Portugal, o l final segue marcado na fala, e mal soa diferente de mau para quem escuta com atenção.

No Brasil, o l em fim de sílaba passou a soar como u na maior parte do país. Os linguistas chamam o fenômeno de vocalização (quando uma consoante ganha som de vogal). Com ela, Brasil e Brasiu, mal e mau, saem da boca do mesmo jeito.

O ouvido, então, não decide. Sobra a função da palavra na frase, e a função depende da vizinha.

Mal acompanha verbo. Ele diz como a ação aconteceu: dormiu mal, escreveu mal, o relatório foi mal escrito. Também modifica adjetivo e particípio: mal pago, mal informado, mal feito.

Mau acompanha substantivo. Ele diz como a pessoa ou o objeto é: mau humor, mau caráter, mau negócio, mau aluno. No feminino, vira má: má sorte, má vontade, má-fé.

O feminino ajuda a enxergar a diferença. Adjetivo varia em gênero e número: mau, má, maus, más. Advérbio não varia nunca. Ninguém escreve as provas foram más corrigidas, e o detalhe denuncia o advérbio.

Mal ainda tem duas outras funções. Como substantivo, ele se opõe a o bem: o mal do século, um mal necessário, os males da cidade. Nesse caso, leva artigo e aceita plural.

Como conjunção (palavra que liga duas orações), mal significa assim que: mal chegou, o telefone tocou. Ali também se escreve com l, e a troca por logo que confirma a leitura.

Mau só tem um emprego. Ele é sempre adjetivo, colado a um substantivo dito ou subentendido. Na frase antiga os maus serão punidos, a palavra subentende pessoas ou homens.

As gramáticas escolares põem mal na lista dos advérbios de modo e mau na lista dos adjetivos, cada um no seu capítulo. A separação ajuda a decorar, mas na hora da prova ninguém consulta o índice.

O resumo cabe em duas linhas. Se a palavra conta como a ação foi feita, é mal. Se conta como alguém ou algo é, é mau.

 
 

II  A Regra

Bem e bom decidem a grafia

Troque a palavra por bem ou por bom. Se bem cabe, escreva mal. Se bom cabe, escreva mau.

O teste nasce da oposição. Cada forma tem um contrário fixo, e o contrário não sofre com o som: bem e bom ninguém confunde, porque soam diferentes em qualquer região.

Na frase do candidato, o projeto foi bom planejado não existe em português. O projeto foi bem planejado soa natural. Logo, o projeto foi mal planejado.

Com substantivo, a troca segue no outro rumo. Saiu de bem humor estranha qualquer ouvido; saiu de bom humor passa. Então se escreve mau humor, com u.

O teste vale para o feminino e o plural, com boa, bons e boas. Más notícias vira boas notícias. Maus hábitos vira bons hábitos. Se a troca pedir boa, a forma certa é má.

O segundo passo é o hífen, e ele pega até quem já acertou o l. Quando mal funciona como prefixo e forma uma palavra só, a grafia depende da letra seguinte.

O Acordo Ortográfico de 1990, em vigor no Brasil desde 2009, manda usar hífen quando a segunda parte começa por vogal, h ou l: mal-educado, mal-estar, mal-humorado, mal-limpo. Antes das outras consoantes, a palavra se escreve junta: malcriado, malvisto, malsucedido.

Malcriado segue a regra da consoante e sai numa palavra só, sem hífen e com l. Mau criado, separado e com u, só serviria para falar de um empregado ruim, o criado que serve mal à casa. A forma corrente nos dicionários é malcriado, adjetivo para a pessoa grosseira ou sem educação.

Malfeito, junto, também está no dicionário como adjetivo: um serviço malfeito. Separado, mal feito aparece quando o advérbio modifica o particípio dentro da frase verbal: o serviço foi mal feito pelo pedreiro. Nos dois casos, a letra é l.

Mal escrito segue o caminho do separado. A frase o texto foi mal escrito traz o advérbio diante do particípio, e a troca por bem escrito confirma a grafia.

Mal-humorado e mau humor convivem na mesma frase sem contradição. O adjetivo composto leva l e hífen porque humorado começa com h; o substantivo humor pede o adjetivo mau, separado. Ele acordou mal-humorado, com um mau humor de segunda-feira.

Mau-caráter tem dois jeitos. Ele tem mau caráter, sem hífen, fala do caráter da pessoa. Ele é um mau-caráter, com hífen, transforma a expressão em substantivo para a pessoa inteira, forma registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras.

Na prova, a banca costuma esconder o par dentro de frase longa, longe do verbo ou do substantivo que decide. Ler a frase inteira antes de marcar evita a pressa.

 

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III  O Teste

A redação corrigida frase a frase

Diante de qualquer mal ou mau, três passos resolvem.

1. Troque por bem e por bom. A forma que soar natural escolhe a grafia: bem pede mal, bom pede mau.

2. Se a palavra vier grudada em outra para formar um adjetivo composto, olhe a letra seguinte: vogal, h ou l pedem hífen; as outras consoantes pedem a palavra junta.

3. Se a dúvida continuar, passe a frase para o feminino. Se ela aceita má, o original era mau; se a palavra não varia de jeito nenhum, era mal.

Aplicado à redação do candidato: o projeto foi bem planejado soa certo, então o meio ponto voltaria com mal planejado, separado e sem hífen, porque ali mal é advérbio solto antes do particípio.

Para treinar, quatro frases de uma redação de concurso, e só uma está correta: (A) Ele saiu de mal humor da reunião. (B) O contrato foi mau redigido. (C) O aluno malcriado respondeu com má vontade. (D) Foi um mal negócio para a prefeitura.

A alternativa A erra porque humor é substantivo. De bom humor passa no teste, então o certo é mau humor.

A B erra no sentido contrário. Redigido é particípio, e foi bem redigido pede foi mal redigido.

A D repete o erro da A com outra palavra. Negócio é substantivo, e um bom negócio pede um mau negócio.

A C é o gabarito. Malcriado sai junto porque criado começa com consoante, e má vontade usa o feminino de mau diante de substantivo.

O verificador do editor de texto aprovaria as quatro frases, porque todas as palavras existem. Só a leitura com o teste da troca separa a frase certa das erradas.

No trabalho, a busca do editor ajuda num documento longo. Procure por mau e depois por mal, uma forma de cada vez, e aplique a troca em cada ocorrência antes de mandar o arquivo.

Num relatório de dez páginas, a busca devolve poucas ocorrências. Leia cada uma com os três passos e corrija só as que falham no teste, sem trocar no automático.

Confira antes de entregar a redação: mal onde cabe bem,
mau onde cabe bom,
hífen só antes de vogal, h ou l.

 
 
Quiz da edição

O texto diz que o Acordo Ortográfico de 1990 está em vigor no Brasil desde que ano, mandando hífen em mal-humorado e mal-estar?

A1990
B2009
C2008
D2016

Resultado da última edição: 100% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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