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Inflingir não existe: a pena se inflige

Infringir é descumprir a norma; infligir é aplicar a pena. A mistura inflingir não consta no VOLP e derruba a questão.

Parecer disciplinar com o verbo inflingir circulado em vermelho pela chefia.

O R da regra, o L da pena

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O rascunho do parecer dizia: "A comissão inflingiu ao servidor a pena de suspensão." O estagiário releu duas vezes, achou a frase elegante e mandou para a chefia. Voltou com um círculo vermelho em volta do verbo.

A palavra inflingir não existe. Ela soa culta, tem cara de termo jurídico e aparece em petição, em edital e em resposta de concurso, mas nenhum dicionário a registra. Quem a escreve juntou dois verbos verdadeiros num terceiro que a língua nunca aceitou.

Os dois verbos verdadeiros são infringir e infligir. O primeiro significa descumprir, violar uma regra: o servidor infringe a norma do edital. O segundo significa aplicar uma punição: a comissão inflige a pena ao servidor. Um é o ato de quem erra; o outro, o ato de quem pune.

O estagiário misturou o R do primeiro com o L do segundo. Saiu inflingir, com as duas letras ao mesmo tempo, e a frase ficou com um verbo que não aplica nem descumpre nada.

A troca é antiga e tem explicação no ouvido. Os dois verbos diferem por um som só, o R ou o L depois do F, e na fala rápida a diferença some. São parônimos (palavras de grafia e pronúncia parecidas, com sentidos diferentes), da mesma família de comprimento e cumprimento.

A banca de direito administrativo gosta da armadilha porque o assunto pede os dois verbos na mesma frase. Todo processo disciplinar tem alguém que infringiu um dever e alguém que inflige uma sanção. Basta trocar as letras numa alternativa para separar quem leu de quem só ouviu.

O tropeço também aparece fora da prova. No aviso do síndico que promete inflingir multa, no contrato que fala em infligir cláusula, no relatório que diz que a empresa infligiu a lei ambiental. Nos três casos, o verbo escolhido diz o contrário do pretendido ou não diz nada.

A frase do parecer tem conserto em uma letra: a comissão infligiu ao servidor a pena de suspensão. Falta entender por que cada verbo tem a sua letra e como a origem de cada um ajuda a lembrar qual é qual.

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I  A Dúvida do Dia

Quem erra e quem pune

Por que a frase do parecer volta com o verbo circulado em vermelho.

Infringir e infligir descrevem os dois lados do mesmo processo: um nomeia a falta, o outro nomeia o castigo. A forma inflingir não aparece no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP, a lista oficial de palavras da Academia Brasileira de Letras).

Infringir é verbo transitivo direto (o que pede um complemento sem preposição). Quem infringe, infringe uma regra escrita: a lei, o regulamento, o contrato, a norma do edital. O sentido é sempre o de desrespeitar uma regra que existia antes do ato.

Infligir também é transitivo, mas pede dois complementos. Quem inflige, inflige algo a alguém: a pena ao réu, a multa à empresa, a derrota ao adversário. O primeiro complemento é a punição; o segundo, com a preposição a, é quem a recebe.

A diferença de regência (o tipo de complemento que o verbo exige) já denuncia a troca. Infringir a pena não faz sentido, porque pena não é regra que se desrespeite. Infligir o edital também não, porque edital não é castigo que se aplique a alguém.

Volte ao parecer do estagiário. A comissão é quem pune, a suspensão é a punição e o servidor é quem a recebe. O verbo certo pede esses três elementos: a comissão infligiu a suspensão ao servidor.

Agora inverta a frase e conte o motivo da punição. O servidor faltou ao serviço sem justificativa por mais de 30 dias seguidos. Ele infringiu o dever de assiduidade. Aqui não há castigo, só a falta, e o verbo é o do R.

Os substantivos ajudam a separar os dois. De infringir vem infração, a palavra que todo edital usa para falta disciplinar. De infligir vem inflição, rara na fala, mas registrada nos dicionários com o sentido de aplicação de pena.

Infração é a pista mais útil, porque ninguém escreve inflação quando quer dizer falta grave. Se o substantivo é infração, o verbo é infringir. A letra R passa da palavra conhecida para a menos usada.

O sujeito também costuma revelar o verbo, e a banca raramente o esconde. Quem infringe é o servidor, o motorista, a empresa, o candidato. Quem inflige é a comissão, o juiz, a autoridade, o tribunal. Um lado da mesa descumpre; o outro aplica a consequência. Quando o sujeito é uma autoridade e o complemento é uma pena, a resposta já está dada antes de olhar a letra.

O particípio segue a mesma divisão. A norma foi infringida pelo servidor; a pena foi infligida pela comissão. Na voz passiva, o sujeito vira o complemento, e a pergunta continua a mesma: o que sofreu a ação é regra ou castigo?

 
 

II  A Regra

O R que quebra, o L que bate

Infringir vem do latim infringere, quebrar; infligir vem do latim infligere, golpear. A origem de cada verbo guarda a letra que ele carrega.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001) liga infringir ao latim infringere, formado por in e frangere (quebrar). Infringir uma lei é, ao pé da letra, quebrá-la. A mesma raiz deu fratura, fração e fragmento, todas com R depois do F.

O mesmo dicionário liga infligir ao latim infligere, formado por in e fligere (bater, golpear). Infligir uma pena é desferir o golpe contra alguém. Da mesma raiz vêm afligir e aflição, todas com L depois do F.

Domingos Paschoal Cegalla, no Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa (1999), registra os dois verbos como parônimos e alerta para a confusão. Ele define infringir como transgredir, violar, e infligir como aplicar pena, castigo ou repreensão.

A família de cada verbo resolve a dúvida na hora da prova. Quem quebra a regra provoca fratura no regulamento: R. Quem aplica o castigo causa aflição no punido: L. Basta lembrar uma palavra comum de cada família.

O direito administrativo usa os dois verbos com frequência. A Lei 8.112, de 1990, que rege os servidores públicos federais, lista no artigo 127 as penalidades disciplinares: advertência, suspensão, demissão, cassação de aposentadoria ou disponibilidade, destituição de cargo em comissão e destituição de função comissionada.

Toda penalidade dessa lista é infligida pela autoridade a quem infringiu um dever. A suspensão é infligida; o dever de assiduidade é infringido. Uma questão sobre o artigo 127 que troque os verbos está trocando os papéis da autoridade e do servidor.

Infligir tem ainda um uso fora do castigo formal. A lei inflige perdas, o time inflige uma goleada, a doença inflige sofrimento. O sentido continua o de fazer alguém sofrer algo, sempre com a ideia de golpe que vem do latim.

Infringir não ganha esse sentido de dano a uma pessoa. Ninguém infringe uma goleada nem infringe sofrimento ao outro. O verbo do R só aceita regra como complemento: lei, norma, cláusula, acordo, regimento, código.

A forma inflingir surge exatamente no meio do caminho entre as duas famílias. Ela pega o L de afligir e o R de quebrar, e assim não pertence a nenhuma delas. O VOLP não a registra, e a banca a usa só como alternativa errada.

 

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III  O Teste

Troque pelo sinônimo e confira

1. Procure o complemento do verbo. Se for regra, como lei, norma ou edital, o verbo é infringir, com R.

2. Se o complemento for castigo, como pena, multa ou sanção, aplicado a alguém, o verbo é infligir, com L.

3. Na dúvida, troque pelo sinônimo. Se couber descumprir ou violar, escreva infringir; se couber aplicar, escreva infligir. Se a palavra no papel tiver R e L juntos, apague.

Aplicado ao parecer, o passo 3 resolve a frase. A comissão aplicou ao servidor a pena de suspensão: cabe aplicar, então a comissão infligiu. O servidor violou o dever de assiduidade: cabe violar, então o servidor infringiu.

Agora a questão no formato de direito administrativo. Assinale a frase correta: (A) O servidor inflingiu o dever de assiduidade. (B) A autoridade infringiu ao servidor a pena de advertência. (C) O servidor infringiu a norma do edital e a comissão lhe infligiu suspensão. (D) A comissão infligiu o regimento interno ao aplicar a multa.

A alternativa A usa a forma que não existe no VOLP. A alternativa B põe o verbo do R onde há pena aplicada a alguém. A alternativa D põe o verbo do L onde o complemento é uma regra. Só a C usa cada verbo no seu papel, e ela é o gabarito.

Repare que a C é a única com os dois verbos, e justamente por esse motivo parece a mais arriscada. A banca conta com o candidato que desconfia da frase longa e marca uma curta. Quem testa o complemento de cada verbo chega à C sem hesitar.

No trabalho, o teste vale para o email e o relatório. A empresa infringiu a cláusula de prazo pede R, porque cláusula é regra. A fiscalização infligiu multa à empresa pede L, porque multa é castigo aplicado a alguém.

No aviso do condomínio, o caminho é o mesmo. O morador que infringir o regimento terá multa infligida pela administração. Os dois verbos cabem na mesma linha, e cada um mantém a sua letra.

"Em qual documento seu o verbo do castigo já trocou de lugar com o verbo da regra?"

Confira antes de assinar o parecer: infringir com complemento que é regra,
infligir com pena aplicada a alguém,
nenhuma palavra com R e L juntos depois do F.

 
 
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Qual frase usa o verbo certo, segundo a edição?

AO servidor inflingiu o dever de assiduidade.
BA comissão infringiu a pena de suspensão ao servidor.
CA comissão infligiu a pena de suspensão ao servidor.
DO servidor infligiu o dever de assiduidade.

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