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ED 013

Implica atraso, nunca implica em atraso

No sentido de acarretar, implicar entra direto no complemento e recusa a preposição em, e a banca cobra a forma que todo mundo fala no trabalho.

Um cronograma de obra projetado na parede da sala de reunião, com uma barra vermelha de atraso atravessando o mês e a ata aberta no notebook.

Consequência entra sem preposição

 

Nove e dez da manhã, sala de reunião com projetor ligado, e o cronograma da obra aparece com uma barra vermelha atravessando o mês. O engenheiro pede a palavra, aponta a barra e resume a situação em uma frase: a troca do fornecedor implica em atraso de duas semanas.

Ninguém na mesa levanta a mão para falar de regência. O time discute prazo, multa e a conversa com o cliente, a reunião termina no horário, e a frase cumpre o serviço sem levantar suspeita nenhuma.

Escrita, ela fica registrada. Vai parar na ata que circula por email, no relatório que sobe para a diretoria, no parecer que o jurídico anexa ao contrato e na questão de regência verbal que vale ponto no espelho de correção.

Implicar não tem um sentido só. Quando ele quer dizer acarretar, ter como consequência, o verbo encosta direto no complemento e não aceita preposição nenhuma no meio. Quando ele muda de sentido, a preposição volta e passa a ser obrigatória.

A fala mistura as duas camadas sem esforço. Implica em custo, implica em risco e implica em retrabalho circulam em qualquer reunião de empresa, e o ouvido brasileiro aceita as três sem piscar.

A norma escrita separa as camadas com clareza. O sentido de consequência entra colado ao verbo, o sentido de envolver alguém em alguma coisa pede a preposição em, e o sentido de provocar alguém pede a preposição com.

O verbo é o mesmo nas três, e o complemento é quem denuncia qual delas está em jogo. Trocar uma pela outra muda o que a frase diz, e não só a forma como ela soa.

Quem escreve a ata não repara na preposição. O corretor de prova repara, e a banca aproveita: regência verbal é item de edital em quase todo concurso, e implicar é o exemplo preferido porque ele mora na reunião de todo mundo.

A questão de hoje começa pelas três linhas em que a dúvida aparece lado a lado. Depois vem a regra que separa os três sentidos, o caso do pronome que denuncia a construção, e o teste que resolve antes de você mandar a mensagem.

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I  A Dúvida do Dia

O verbo que a reunião preposiciona

Três linhas com o mesmo verbo, e o sentido da frase decide qual delas passa.

A dúvida aparece em três linhas quase iguais: a troca implica atraso, a troca implica em atraso, implicaram o gerente na fraude. As três saem de conversa de verdade, de ata de reunião e de relatório de diretoria, e a maioria dos leitores passa pelas três sem parar.

Duas delas passam na norma escrita, e a que fica de fora é justamente a mais falada. A diferença não está no verbo nem no tamanho da frase: está no sentido que o verbo carrega ali dentro.

A troca implica atraso é a linha da norma quando o assunto é consequência. Implicar significa acarretar, o complemento é o resultado, e o verbo encosta nele sem intermediário nenhum.

A troca implica em atraso é a linha que a fala consagrou e a prova recusa. Ali o sentido continua sendo o de consequência, e nesse sentido a preposição em não tem função nenhuma na frase.

Implicaram o gerente na fraude é outro verbo dentro da mesma grafia. O sentido passou a ser envolver alguém em alguma coisa, e nesse caso a preposição em aparece por direito, ligando a pessoa ao que ela foi acusada de fazer.

A origem do escorregão está na fala. Implica em custo é o que se diz na reunião, no grupo do trabalho e na apresentação de slides, e a linha falada entra na linha escrita inteira, com a preposição já colada no caminho.

O sentido de envolver ainda ajuda a esconder a peça. Como uma das acepções de implicar pede em de verdade, o falante generaliza a preposição para as outras, e a construção errada ganha um álibi que soa técnico.

Consequência entra direto no verbo implicar. O complemento é o efeito que vem depois, o resultado que a decisão produz, e ele chega sem preposição mesmo quando a conversa cola a letra antes de você digitar.

O pronome é onde a diferença aparece por escrito. A consequência vira o ou a, como em a demora implica multa e a demora implica-a. O envolvimento pede nele ou nisso, como em implicaram o sócio nisso.

A banca conhece a troca e trabalha em cima dela. O primeiro disfarce é a preposição posta no sentido de consequência, com alternativas do tipo a medida implicará em corte de gastos, que copiam a fala do noticiário.

O segundo disfarce é o sentido invertido. A questão traz implicar com no lugar de acarretar, como em a decisão implicou com o setor, e quem lê rápido aceita a frase sem sentir a troca.

O terceiro disfarce é a distância. O complemento aparece a seis ou sete palavras do verbo, dentro de uma oração intercalada, e a preposição se instala no vão sem que o olho pegue.

Quem escreve a ata segue a vida sem consequência. Quem presta concurso descobre o preço na hora da correção: a alternativa marcada perde o ponto, e o gabarito publicado não muda por recurso.

 
 

II  A Regra

Acarretar entra sem preposição

Implicar no sentido de acarretar é transitivo direto: a troca implica atraso. No sentido de envolver, é transitivo direto e indireto: implicaram o gerente na fraude. No sentido de provocar, pede com: ele implica com o colega.

A regra tem uma decisão só, e ela não depende do tamanho da frase. Olha-se para o sentido do verbo naquela linha, porque o sentido é o que decide se a preposição entra, qual delas entra, e se ela fica de fora.

"Implicar, na acepção de acarretar, ter como consequência, é transitivo direto e não admite a preposição em: a medida implica aumento de despesa."

Domingos Paschoal Cegalla, Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, 1996

A gramática registra a diferença como regência verbal, não como estilo. A troca implica atraso e a troca implica em atraso têm a mesma intenção na reunião, e só uma das duas passa no texto que vai ser corrigido.

A primeira situação é a da consequência, e ela é a mais comum na vida de qualquer profissional: a mudança implica custo, a greve implica prejuízo, a decisão implica revisão do contrato. Nenhuma delas pede preposição.

A segunda situação é a do envolvimento, e ela pede a preposição em toda vez: implicaram o diretor no esquema, o depoimento implicou dois funcionários na irregularidade. A pessoa vem direto, e o que ela fez chega com em.

A terceira situação é a da implicância, e ela pede com: ele implica com o colega de sala, a chefe implica com o horário do time. Aqui não existe consequência nenhuma, só o ato de provocar.

A quarta situação é a do pronome reflexivo, e ela nasce da segunda. Implicar-se pede em: o sócio implicou-se na negociação suspeita, e a preposição continua ligando quem se envolveu ao que ele fez.

A quinta situação usa outro verbo e resolve o problema de uma vez. Acarretar, causar e provocar entram direto no complemento, e servem de substituto exato quando a dúvida trava a frase no meio.

Com sujeito de coisa, o sentido quase sempre é o de consequência. A greve, a chuva, o decreto e a alta do dólar não implicam com ninguém nem envolvem ninguém em nada: eles acarretam efeito.

A hipercorreção nasce da metade da regra. Quem aprende que implicar às vezes pede em passa a preposicionar tudo, e escreve o atraso implicou em multa, com um em que a consequência nunca teve.

Um registro fecha a lista, e ele explica a força do desvio. Implica em atraso é linha corrente na fala brasileira, tratada como uso consagrado na conversa, e a prova cobra a outra camada, a da norma escrita.

 
 

III  O Teste

Troque implicar por acarretar

1. Ache o sentido do verbo naquela linha. Se ele quer dizer acarretar, ter como resultado, o complemento entra direto. Se ele quer dizer envolver, entra a preposição em. Se ele quer dizer provocar, entra com.

2. Troque implicar por acarretar e leia a frase de novo. Se a frase continuar de pé, como em a troca acarreta atraso, o verbo é transitivo direto e a preposição em não tem lugar ali.

3. Se o teste falhar, procure a pessoa envolvida. Quando existe alguém sendo ligado a um fato, como em implicaram o gerente na fraude, o em é obrigatório e a frase está correta.

Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que a regência verbal está de acordo com a norma. Entre as opções aparecem a reforma implica em corte e a reforma implica corte, cercadas por duas frases longas.

Aplicado às duas, o teste resolve em segundos. A reforma acarreta corte fica de pé, então o verbo entra direto no complemento, e a alternativa com a preposição perde o ponto sem que você precise ler o período inteiro.

O teste funciona porque acarretar não aceita preposição em nenhum contexto. Ele só encaixa onde o sentido é de consequência, e o encaixe bem-sucedido já prova que a preposição sobrava na linha original.

Longe da prova, o teste serve na mesma velocidade. Antes de mandar a mensagem que começa com a mudança implica em retrabalho, troque a peça: a mudança acarreta retrabalho, e o em cai sozinho da frase reescrita.

Nenhuma das três construções é mais educada que a outra, e a escolha entre implica atraso e implicaram o gerente não é questão de formalidade. O desvio nasce só quando a preposição do envolvimento invade a linha da consequência.

O mesmo teste resolve a família toda. Onde acarretar encaixa, use o verbo direto; onde só envolver encaixa, use em; onde só provocar encaixa, use com, e nenhuma das três invade o lugar da outra.

Um cuidado fecha o teste, e ele é o mais fácil de deixar passar. O complemento pode estar longe do verbo, dentro de uma oração intercalada, e a preposição continua proibida mesmo com seis palavras entre os dois.

Um segundo cuidado vale para o futuro do verbo. Implicará em cortes é o desvio mais frequente em texto de jornal e de relatório, porque a forma longa disfarça a colagem e o olho passa por cima.

A troca implica atraso e implicaram o gerente na fraude estão as duas na norma, e a linha que cai na correção é a que pôs a preposição do envolvimento no lugar da consequência.

"Na última mensagem em que você explicou o efeito de uma decisão, o verbo entrou direto no complemento, ou a preposição em entrou junto sem que você percebesse?"

 
 
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A edição cita um dicionário de dificuldades da língua portuguesa pra sustentar que implicar, no sentido de acarretar, não aceita a preposição em. De qual autor é essa obra?

ACelso Cunha, autor da Nova Gramática do Português Contemporâneo
BNapoleão Mendes de Almeida, autor do Dicionário de Questões Vernáculas
CDomingos Paschoal Cegalla, autor do Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa
DEvanildo Bechara, autor da Moderna Gramática Portuguesa

Resultado da última edição: 0% acertaram.

 
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