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Ideia perdeu o acento em 2009, herói não
Paroxítona com éi ou ói perdeu o agudo no Acordo; oxítona e monossílabo, como papéis, herói e céu, ficaram com ele.
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O agudo que caiu e o que ficou
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A revisora do convite de formatura encontrou na prova da gráfica a linha: “Pedimos à platéia que desligue o celular.” Riscou o acento, anotou na margem e devolveu. O cerimonial respondeu que platéia sempre teve acento e que a revisora estava inventando moda.
Os dois lados tinham razão, cada um na sua época. Até 2008, platéia levava acento agudo no e. Desde 1º de janeiro de 2009, quando o Acordo Ortográfico de 1990 entrou em vigor no Brasil, a grafia correta é plateia, sem sinal nenhum.
A mesma mudança alcançou ideia, assembleia, estreia, europeia, geleia, jiboia, boia e heroico. Todas perderam o agudo de uma vez. Muita gente segue escrevendo como aprendeu na escola, porque a palavra com acento parece mais correta aos olhos de quem se alfabetizou antes da troca.
O tropeço também acontece no caminho inverso, e esse custa mais caro. Quem decorou que ideia perdeu o acento passa a tirar o agudo de tudo que tem éi ou ói. Escreve papeis, aneis, heroi, ceu. Todas essas formas estão erradas: papéis, anéis, herói e céu continuam acentuadas, hoje como antes.
A regra nova não aboliu o acento do ditongo aberto. Ela cortou o sinal num lugar só: a sílaba tônica (a mais forte da palavra) das paroxítonas, as palavras cuja sílaba forte é a penúltima. Nas oxítonas (sílaba forte na última) e nos monossílabos tônicos (palavras de uma sílaba, ditas com força), o agudo ficou onde estava.
Daí herói ter acento e heroico não ter, embora as duas palavras sejam da mesma família. Em herói, o ditongo ói está na última sílaba. Em heroico, a sílaba forte é roi, a penúltima, e o acento caiu.
A banca de concurso explora as duas pontas. Uma alternativa traz idéia com acento para pegar quem parou no tempo; outra traz papeis sem acento para pegar quem generalizou a regra. Os dois candidatos erram pelo mesmo motivo: não olharam onde fica a sílaba forte.
O convite da formatura tem conserto num traço de caneta: plateia. Falta entender por que o Acordo cortou justamente nas paroxítonas e como saber, diante de uma palavra nova, de que lado ela cai.
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I A Dúvida do Dia
Onde o agudo caiu
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Por que plateia ficou sem acento e papéis continua com ele.
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em Lisboa em 16 de dezembro de 1990, tirou o agudo dos ditongos abertos éi e ói só nas paroxítonas. No Brasil, o texto passou a valer pelo Decreto 6.583, de 29 de setembro de 2008, com vigência a partir de 1º de janeiro de 2009.
Ditongo é o encontro de uma vogal com uma semivogal (o i ou o u de som fraco) na mesma sílaba. Em ideia, o ditongo é ei, na sílaba dei. Aberto quer dizer que o e soa como em fé, e não como em dedo.
Antes do Acordo, o ditongo aberto levava agudo onde quer que estivesse a tônica. Escrevia-se idéia, assembléia, platéia, heróico, jibóia. A sílaba forte dessas palavras é a penúltima: i-dei-a, as-sem-blei-a, pla-tei-a, he-roi-co, ji-boi-a.
Com a mudança, todas passaram a ser escritas sem o sinal: ideia, assembleia, plateia, heroico, jiboia. A pronúncia não mudou. Quem dizia platéia com o e aberto continua dizendo do mesmo jeito; só a grafia perdeu o traço.
As oxítonas ficaram fora do corte. Papéis, anéis, pastéis, fiéis, herói, constrói e destrói continuam com acento, porque a sílaba forte é a última. O mesmo vale para os monossílabos tônicos: réis, dói, sóis, mói.
O ditongo éu entra no grupo das oxítonas e dos monossílabos. Céu, véu, chapéu, troféu e ilhéu mantêm o agudo. Em paroxítona, o éu aberto quase não aparece em português, e o Acordo nem precisou tratar dele.
A família da palavra é o ponto em que o leitor mais erra. Herói tem acento; heroico perdeu. Heroína e heroísmo têm acento no i por outro motivo: o i forma hiato (vogais em sílabas separadas) com o o anterior, e esse sinal nada tem a ver com o ditongo.
Papel e papéis mostram o mesmo movimento pela outra ponta. Papel é oxítona sem ditongo e não tem acento. No plural, ganha o ditongo éi na última sílaba e passa a levar agudo. O plural continua oxítona, e o acento continua com ele.
Anel e anéis seguem o mesmo trilho, assim como pastel e pastéis, carretel e carretéis. Quem lembra do singular sem acento e do plural com acento já tem o caso mais comum das oxítonas resolvido.
Uma exceção completa o quadro. Paroxítonas terminadas em r, como destróier (navio de guerra) e Méier, o bairro do Rio de Janeiro, mantêm o agudo. O acento delas vem de outra regra: toda paroxítona terminada em r é acentuada, como açúcar e caráter. O ditongo apenas mora na mesma sílaba.
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II A Regra
O motivo está na pronúncia
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Base IX do Acordo: sem acento nos ditongos ei e oi tônicos das paroxítonas. Base VIII: com acento nos ditongos abertos éi, éu e ói das oxítonas e dos monossílabos.
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O texto do Acordo separa as duas situações em bases diferentes. A Base VIII, que trata das oxítonas, manda acentuar os ditongos abertos grafados éi, éu e ói, e dá como exemplos anéis, papéis, céu, chapéu, herói e sóis.
A Base IX, que trata das paroxítonas, vai na direção oposta. O item 3 diz que não se acentuam os ditongos ei e oi da sílaba tônica dessas palavras e lista assembleia, ideia, heroico, jiboia e paranoico (quem sofre de paranoia, desconfiança extrema) entre os exemplos.
A justificativa vem escrita na própria Base IX. O texto do Acordo Ortográfico de 1990 afirma que o acento cai “dado que existe oscilação em muitos casos entre o fechamento e a abertura na sua articulação”. Em português corrente: nem todo falante pronuncia aberto o e de ideia.
A oscilação é real e muda de região para região. Aldeia, baleia e cadeia sempre tiveram o e fechado no Brasil e nunca levaram acento. Já ideia e assembleia soavam abertas na maior parte do país, e em Portugal muitas delas soam fechadas. O mesmo ditongo, na mesma posição, ganhava ou perdia o sinal conforme o ouvido de quem escrevia.
O Acordo resolveu a oscilação tirando o sinal de todas. Aldeia, baleia, ideia e assembleia passaram a seguir a mesma grafia, e cada falante continua lendo com a abertura que usa na fala.
Nas oxítonas, a oscilação não existe. Ninguém diz herói com o o fechado, nem papéis com o e fechado. O som aberto é estável, e o acento ainda separa formas como réis, a moeda antiga, de reis, os monarcas.
O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP, a lista oficial de grafias publicada pela Academia Brasileira de Letras) registrou as novas formas na 5ª edição, lançada em 2009. É a obra que bancas de concurso e revisores consultam para decidir a grafia correta.
A troca teve prazo de adaptação. O Decreto 7.875, de 2012, estendeu até 31 de dezembro de 2015 o período em que as duas grafias eram aceitas. Desde 1º de janeiro de 2016, só a forma sem acento vale em documento oficial, prova e livro didático.
Os nomes próprios seguem a mesma regra quando são palavras comuns da língua. Coreia, Galileia e Pompeia perderam o acento. Já o bairro do Méier e sobrenomes registrados em cartório com acento podem manter a grafia do documento, porque nome de pessoa e de lugar registrado segue o registro.
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