Como o dicionário registra o há e o atrás.
No Michaelis, o há de há dois anos é o verbo haver indicando tempo decorrido. O atrás, ao lado dele, repete o passado.
O Michaelis Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, publicado pela editora Melhoramentos, registra no verbete haver a acepção de tempo transcorrido: há dois anos, há muito, há pouco. Nesse uso, o verbo equivale a faz e situa o fato no passado.
O mesmo dicionário registra atrás como advérbio (palavra que acrescenta ao verbo uma circunstância, como lugar ou tempo). Entre os sentidos listados estão o de posição, ficar atrás da porta, e o de tempo passado, dois anos atrás.
Cada palavra, sozinha, cumpre a tarefa. Há dois anos e dois anos atrás levam a informação por caminhos diferentes, e as duas construções aparecem corretas em qualquer gramática escolar.
O problema surge na soma. Quando as duas palavras entram na mesma frase, o passado aparece marcado duas vezes, e a gramática chama a repetição de pleonasmo vicioso (repetição de uma ideia sem ganho de sentido ou de estilo).
O gramático Napoleão Mendes de Almeida tratou do caso no Dicionário de Questões Vernáculas, de 1981, e recomendou escolher uma das formas. A obra reúne dúvidas que leitores enviavam ao autor durante décadas de coluna no jornal O Estado de S. Paulo.
O pleonasmo nem sempre é erro. Os gramáticos aceitam a repetição quando ela tem efeito expressivo, como em vi com meus próprios olhos, frase em que a ênfase é a intenção de quem fala.
No caso de há dois anos atrás, a repetição não traz ênfase nenhuma. Ninguém escreve a frase para sublinhar o passado, e sim por hábito da fala, e o texto formal cobra o corte.
O verbo haver tem outra marca útil para a escrita. Quando indica tempo, ele fica no presente para falar de um fato passado: há dois anos, há uma década, há séculos.
Se a narrativa inteira já está no passado, o verbo pode acompanhar: ela morava ali havia dois anos. A forma havia, do pretérito imperfeito (tempo verbal da ação contínua no passado), substitui o há sem mudar a lógica.
A palavra atrás também tem família. Ela vem da junção de a com trás, que por sua vez vem do latim trans (além, do outro lado), e chegou ao português com o sentido de lugar antes de ganhar o de tempo.
O dicionário carrega no título um sobrenome alemão, herança de quem montou a obra original no século 19, muito antes de a Melhoramentos assumir a edição brasileira.
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