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Há 2 anos dispensa o atrás

O há já leva a frase ao passado e deixa o atrás repetido. Para o futuro, a forma certa é daqui a dois anos.

Currículo impresso com a palavra atrás circulada em vermelho.

Há olha para trás, daqui a olha à frente

▼
 

No currículo da candidata, a linha da experiência dizia: “Saí da empresa há dois anos atrás.” A recrutadora circulou o atrás com caneta vermelha antes de chegar ao segundo parágrafo.

A frase tem duas palavras fazendo o mesmo serviço. O há já informa que o fato ficou para trás no calendário. O atrás repete a informação, como quem escreve subir para cima ou entrar para dentro.

O deslize passa despercebido na conversa. Falando, ninguém para a frase para conferir quantas palavras marcam o passado, e a repetição soa até natural, quase um reforço.

No papel, o reforço vira sobra. A banca de redação, o revisor do jornal e a recrutadora atenta leem a frase com tempo, e o atrás aparece como palavra que não acrescenta nada.

O conserto pede um corte só, e qualquer uma das duas palavras pode sair. Saí da empresa há dois anos está certo. Saí da empresa dois anos atrás também está certo. Errado é manter as duas juntas.

O mesmo currículo tinha um segundo problema, três linhas abaixo, no campo dos planos: “Pretendo concluir o mestrado daqui há dois anos.” Aqui o erro corre na direção oposta.

O há só olha para trás. Quando a frase aponta para a frente, para um prazo que ainda não chegou, entra a preposição a: daqui a dois anos, daqui a uma semana, daqui a pouco.

As duas formas soam iguais na fala do Brasil. O h é mudo, e o ouvido não distingue o verbo da preposição. Sobra para quem escreve a tarefa de saber para que lado o tempo corre.

Os dois erros do currículo, portanto, nascem da mesma confusão entre passado e futuro, e cada um pede um ajuste diferente: cortar uma palavra no primeiro, trocar uma letra no segundo.

A seguir, o que o dicionário registra para cada forma, a regra que separa o há do a, e um teste rápido para aplicar antes de mandar o currículo.

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I  A Dúvida do Dia

O verbo olha para trás

Como o dicionário registra o há e o atrás.

No Michaelis, o há de há dois anos é o verbo haver indicando tempo decorrido. O atrás, ao lado dele, repete o passado.

O Michaelis Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, publicado pela editora Melhoramentos, registra no verbete haver a acepção de tempo transcorrido: há dois anos, há muito, há pouco. Nesse uso, o verbo equivale a faz e situa o fato no passado.

O mesmo dicionário registra atrás como advérbio (palavra que acrescenta ao verbo uma circunstância, como lugar ou tempo). Entre os sentidos listados estão o de posição, ficar atrás da porta, e o de tempo passado, dois anos atrás.

Cada palavra, sozinha, cumpre a tarefa. Há dois anos e dois anos atrás levam a informação por caminhos diferentes, e as duas construções aparecem corretas em qualquer gramática escolar.

O problema surge na soma. Quando as duas palavras entram na mesma frase, o passado aparece marcado duas vezes, e a gramática chama a repetição de pleonasmo vicioso (repetição de uma ideia sem ganho de sentido ou de estilo).

O gramático Napoleão Mendes de Almeida tratou do caso no Dicionário de Questões Vernáculas, de 1981, e recomendou escolher uma das formas. A obra reúne dúvidas que leitores enviavam ao autor durante décadas de coluna no jornal O Estado de S. Paulo.

O pleonasmo nem sempre é erro. Os gramáticos aceitam a repetição quando ela tem efeito expressivo, como em vi com meus próprios olhos, frase em que a ênfase é a intenção de quem fala.

No caso de há dois anos atrás, a repetição não traz ênfase nenhuma. Ninguém escreve a frase para sublinhar o passado, e sim por hábito da fala, e o texto formal cobra o corte.

O verbo haver tem outra marca útil para a escrita. Quando indica tempo, ele fica no presente para falar de um fato passado: há dois anos, há uma década, há séculos.

Se a narrativa inteira já está no passado, o verbo pode acompanhar: ela morava ali havia dois anos. A forma havia, do pretérito imperfeito (tempo verbal da ação contínua no passado), substitui o há sem mudar a lógica.

A palavra atrás também tem família. Ela vem da junção de a com trás, que por sua vez vem do latim trans (além, do outro lado), e chegou ao português com o sentido de lugar antes de ganhar o de tempo.

O dicionário carrega no título um sobrenome alemão, herança de quem montou a obra original no século 19, muito antes de a Melhoramentos assumir a edição brasileira.

 
 

II  A Regra

Passado com há, futuro com a

Tempo que já passou leva há. Tempo que ainda vai chegar, ou distância, leva a preposição a.

A divisão começa pelo sentido da frase. Se o fato aconteceu antes do momento em que se fala, a palavra é o verbo haver: chegou há dez minutos, estudou ali há anos.

Se o fato ainda vai acontecer, a palavra é a preposição a (palavra que liga dois termos e indica relação entre eles). O daqui parte do presente, e a preposição aponta o trecho de tempo à frente.

Daqui a dois anos, daqui a três meses, daqui a pouco, daqui a instantes: todas as formas levam a, sem h e sem acento. O Michaelis registra a locução daqui a com esse sentido de futuro.

A preposição também mede distância no espaço. A escola fica a dois quilômetros, a casa está a cinco quadras, o mar começa a poucos passos. Nenhuma dessas frases fala de passado, e nenhuma leva h.

O par há pouco e daqui a pouco mostra o contraste numa linha. Ela saiu há pouco descreve o que já aconteceu. Ela volta daqui a pouco descreve o que ainda vai acontecer.

A forma com h no futuro, daqui há dois anos, não aparece em dicionário nenhum. O erro junta o verbo do passado com o daqui do futuro, e as duas peças puxam a frase em direções contrárias.

O atrás tem par simétrico no futuro, e o par é o adiante ou o depois. Dois anos depois, dois anos adiante. Ninguém escreve daqui a dois anos depois, e o mesmo raciocínio vale para o atrás.

A expressão há cerca de também pertence ao passado. Mudou-se há cerca de um mês significa faz aproximadamente um mês. Ela convive com acerca de, escrita junta, que significa a respeito de: falou acerca do projeto.

O português de Portugal adota a regra idêntica. Lá, a pronúncia também iguala o há e o a, e a escrita separa as formas pelo sentido de tempo.

Nos concursos, a banca costuma testar as duas pontas na mesma questão. Uma alternativa traz há dois anos atrás, outra traz daqui há dois anos, e o candidato apressado aceita as duas porque reconhece as palavras.

Na redação, o atrás repetido entra na conta da correção como vício de linguagem. Quem escreve sobre o próprio percurso, num memorial ou numa carta de apresentação, costuma cair nele duas ou três vezes no mesmo texto.

 

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III  O Teste

Três perguntas antes de enviar

Diante de há ou a numa frase de tempo, três trocas resolvem a escolha.

1. Troque a palavra por faz. Se a frase continua de pé, como em faz dois anos, o tempo é passado e a forma certa é há.

2. Procure o daqui antes da palavra. Se ele aparece, o tempo é futuro e a forma certa é a, sem h.

3. Procure um atrás logo depois da expressão de tempo. Se ele aparece depois de um há, corte uma das duas palavras.

Aplicado ao currículo da candidata: saí da empresa faz dois anos atrás ainda soa estranho, o que denuncia a sobra. Fica saí da empresa há dois anos, ou saí da empresa dois anos atrás.

Aplicado ao campo dos planos: daqui faz dois anos não se sustenta, porque o prazo ainda não chegou. O daqui pede a preposição, e a frase certa é pretendo concluir o mestrado daqui a dois anos.

Na prova, o par costuma vir em quatro frases. (A) Ele se formou há três anos atrás. (B) A reunião começa daqui há dez minutos. (C) Ela se mudou há cinco anos. (D) O prédio fica há duas quadras.

A alternativa A repete o passado com há e atrás. A B põe o verbo do passado num prazo futuro. A D usa o verbo onde a frase mede distância e pede a preposição a.

A C é o gabarito. A troca por faz funciona, ela se mudou faz cinco anos, e nenhum atrás acompanha o há.

No trabalho, a busca do editor de texto ajuda. Procure por atrás e por daqui no documento e confira, em cada ocorrência, se a palavra vizinha marca o tempo na direção certa.

No celular, o corretor não ajuda. Há, a e atrás existem no dicionário do teclado, e a ferramenta aceita qualquer combinação entre elas sem sinalizar a repetição.

O cuidado vale para expressões parecidas. Há muito tempo e há anos falam do passado; a longo prazo e daqui a uma década falam do futuro; a partir de hoje marca um começo e leva a preposição.

Confira antes de enviar o currículo: faz no lugar do há para o passado,
nenhum atrás depois de um há,
daqui a, sem h, antes de prazo futuro.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

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