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Fui eu quem fiz também passa na prova

Com quem, o verbo vai para a terceira pessoa ou acompanha o eu. Cunha e Cintra aceitam as duas formas.

Relatório com a palavra fiz riscada a caneta e fez escrito por cima.

Fiz ou fez: a gramática aceita os dois

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A frase saiu assim no relatório de um estagiário: “Fui eu quem fiz a planilha.” O gerente riscou o fiz a caneta, escreveu fez por cima e devolveu a folha com um comentário curto sobre concordância.

O estagiário tinha escrito uma forma que a gramática aceita. O gerente corrigiu para outra forma que a gramática também aceita. Os dois saíram da conversa achando que um deles tinha errado.

A dúvida aparece toda semana em grupo de estudo para concurso. Uma parte jura que o verbo tem de concordar com eu, porque foi o eu quem agiu. A outra parte jura que quem pede o verbo na terceira pessoa, sempre.

As duas turmas têm parte da razão. O pronome quem, nessa construção, funciona como pronome relativo (palavra que retoma um termo já dito e abre uma oração nova), e a oração que ele abre pode seguir dois caminhos.

No primeiro, o verbo concorda com o próprio quem, que equivale a aquele que e pede a terceira pessoa: fui eu quem fez. No segundo, o verbo concorda com o eu, o antecedente (a palavra a que o pronome se refere): fui eu quem fiz.

Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, de 1985, registram as duas formas. Apontam a terceira pessoa como a mais comum na língua culta e a concordância com o antecedente como uso vivo, frequente em escritores brasileiros e portugueses.

As bancas conhecem a regra e montam a armadilha nos dois sentidos. Ora oferecem fui eu quem fiz como alternativa errada, para pegar quem decorou só a terceira pessoa. Ora pedem a forma preferida, e o candidato precisa saber se a questão cobra a forma possível ou a recomendada.

O mesmo vale para nós e para vocês. Fomos nós quem pagou a conta e fomos nós quem pagamos a conta passam na norma culta.

Logo abaixo, de onde vem o quem que vale por aquele que, a regra das duas concordâncias e as trocas para fazer antes de marcar a alternativa.

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I  A Dúvida do Dia

Quem vale por aquele que

Por que o quem aceita duas concordâncias.

Quem, nessa frase, carrega dentro de si um antecedente escondido, e o verbo pode olhar para ele ou para o eu.

Quem é um pronome relativo diferente dos outros. Que, o qual e cujo retomam um nome que já está na frase; quem pode aparecer sem nome nenhum antes e, mesmo assim, fazer sentido: quem estuda passa.

Nessa frase, quem equivale a aquele que. Quem estuda passa é o mesmo que aquele que estuda passa. O verbo estuda fica na terceira pessoa porque o sujeito dele é o aquele embutido no pronome.

A gramática chama esse uso de relativo indefinido (o relativo que não retoma ninguém já nomeado na frase). É o uso mais antigo e mais firme de quem na língua.

Na frase fui eu quem fez, o quem guarda a mesma força. Lida por partes, ela diz fui eu aquele que fez, e aquele pede o verbo na terceira pessoa, como qualquer substantivo pediria.

Por esse caminho, a terceira pessoa soa natural a quem estudou gramática. O verbo concorda com o sujeito da própria oração, e o sujeito de fez é o quem, não o eu.

A segunda leitura nasce do ouvido. O falante sente que o eu da primeira oração praticou a ação, e o verbo puxa a primeira pessoa: fui eu quem fiz.

Essa concordância pelo sentido tem nome técnico: concordância atrativa (quando o verbo se deixa atrair por um termo próximo e não pelo sujeito gramatical). Ela aparece em textos de Portugal e do Brasil desde os clássicos.

A construção inteira tem ainda um terceiro elemento. O verbo ser da primeira oração concorda com o pronome pessoal: fui eu, foste tu, fomos nós, foram eles.

O erro sem discussão está nesse primeiro verbo. Foi eu quem fez troca a pessoa do ser e não passa em prova nenhuma, qualquer que seja o segundo verbo.

O tempo do ser acompanha a cena. No presente, sou eu quem faço e sou eu quem faz são as duas formas aceitas; no passado, fui eu quem fiz e fui eu quem fez.

Na Moderna Gramática Portuguesa, Evanildo Bechara descreve a mesma dupla possibilidade e trata as duas concordâncias como corretas no padrão culto.

 
 

II  A Regra

Terceira pessoa ou o eu

Com quem, o segundo verbo pode ir para a terceira pessoa ou acompanhar o pronome que vem antes. Na prova, a terceira pessoa é a escolha mais segura.

Cunha e Cintra organizam a regra a partir do sujeito. Quando o sujeito do verbo é o pronome relativo quem, o verbo vai, de preferência, para a terceira pessoa do singular.

A preferência vale para qualquer pessoa da primeira oração. Fui eu quem fez, foste tu quem fez, fomos nós quem fez, foram eles quem fez: o segundo verbo fica parado em fez.

Os mesmos autores registram a outra forma como corrente. O verbo pode concordar com o antecedente, e aí ganha a pessoa e o número dele: fui eu quem fiz, foste tu quem fizeste, fomos nós quem fizemos.

Cada forma pede coerência dentro da frase. Fomos nós quem fiz mistura as duas leituras e não serve: ou o verbo segue o quem, e fica fez, ou segue o nós, e vira fizemos.

A ordem da frase pode virar. Quem fez o relatório fui eu: aqui o fez fica sempre na terceira pessoa, porque a oração com quem abre a frase, e o ser continua concordando com o eu.

A escolha entre as duas formas é de estilo. A terceira pessoa soa neutra e próxima do texto técnico; a concordância com o eu põe ênfase em quem agiu e aparece com frequência na fala e na literatura.

Em documento oficial, relatório e redação de concurso, a terceira pessoa evita discussão com o corretor. A forma com fiz está certa, mas nem todo avaliador conhece a regra inteira, e o recurso custa tempo.

Na questão objetiva, o enunciado decide. Se a banca pede a frase em desacordo com a norma culta, fui eu quem fiz não pode ser marcada como erro. Se pede a concordância preferida pelos gramáticos, a resposta é a terceira pessoa.

A banca costuma esconder o erro no primeiro verbo. Foi nós quem fez, foi eles quem decidiu: o ser deixou de concordar com o pronome, e só essa troca derruba a alternativa.

A negação e o tempo verbal não mexem na regra. Não fui eu quem assinou e não fui eu quem assinei seguem as mesmas duas concordâncias, e o mesmo vale para seremos nós quem pagará e seremos nós quem pagaremos.

Com vocês, o cuidado é outro. Vocês leva o verbo para a terceira pessoa do plural, então foram vocês quem fez e foram vocês quem fizeram são as duas formas possíveis.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  O Teste

Três trocas antes de marcar

Diante de uma frase com ser, pronome pessoal e quem, três passos resolvem a questão.

1. Confira o verbo ser. Ele concorda com o pronome pessoal: fui eu, foste tu, fomos nós, foram eles. Se aparecer foi eu ou foi nós, a frase está errada.

2. Troque quem por aquele que. Se fui eu aquele que fez fica de pé, o verbo na terceira pessoa está certo.

3. Leia o segundo verbo junto com o pronome pessoal. Eu fiz, nós fizemos: se a pessoa bate com o pronome da primeira oração, a concordância com o antecedente também está certa.

Aplicado ao relatório do estagiário: fui eu passa no passo 1. Fui eu aquele que fez passa no passo 2. Eu fiz passa no passo 3. As duas versões, a dele e a do gerente, estão de acordo com a norma.

Na prova, o par costuma vir assim. Assinale a frase em desacordo com a norma culta: (A) Fui eu quem fez o relatório. (B) Fomos nós quem pagamos a conta. (C) Foi eu quem assinou o contrato. (D) Foste tu quem decidiu a data.

A alternativa A segue a terceira pessoa, preferida por Cunha e Cintra. A B concorda com nós, a forma que os mesmos autores registram como corrente. A D volta à terceira pessoa, com o ser concordando com tu.

A C é o gabarito. O verbo ser ficou em foi, e o eu pede fui. O segundo verbo, assinou, está certo; a falha mora toda no primeiro.

Na redação, escolha uma forma e mantenha. Um texto que alterna fui eu quem fez num parágrafo e fomos nós quem fizemos no seguinte não quebra a regra, mas passa ao avaliador a impressão de descuido.

No relatório do trabalho, a busca do editor ajuda. Procure por quem e leia cada ocorrência com o ser antes: o primeiro verbo precisa bater com o pronome.

Quem revisa texto alheio tem uma obrigação a mais. Antes de riscar fiz e escrever fez por cima, lembre que as duas formas aparecem na Nova Gramática do Português Contemporâneo, e a correção do gerente trocou uma forma certa por outra forma certa.

Uma última variação da frase troca o pronome quem por que, e a regra das duas saídas deixa de valer.

Confira antes de entregar a prova: o ser concordando com o pronome pessoal,
quem trocado por aquele que sem quebrar a frase,
o segundo verbo numa forma só do começo ao fim do texto.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Se quem virar que, a frase fui eu que fez continua certa?

 
 
Quiz da edição

No relato do estagiário, qual frase o texto aponta como erro sem discussão, independente da forma escolhida para o segundo verbo?

AFui eu quem fez a planilha.
BFui eu quem fiz a planilha.
CFoi eu quem fez a planilha.
DFomos nós quem fizemos a planilha.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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