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Faz dez anos, nunca fazem dez anos
O verbo fazer indicando tempo decorrido não tem sujeito e fica no singular, e a banca cobra justamente o plural que soa natural.
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Dez anos no calendário, o verbo fica no singular
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Escreva "faz dez anos que não vejo o mar" num editor de texto e nenhum sublinhado aparece. Troque para "fazem dez anos que não vejo o mar" e o editor continua calado. As duas frases passam pelo corretor automático, e só uma passa no gabarito.
A diferença mora numa pergunta que a frase esconde: quem faz os dez anos? Ninguém faz. O tempo corre por conta própria, e o verbo que anuncia a passagem dele trabalha sozinho, sem ninguém no comando da ação. Verbo sem sujeito não tem com quem concordar.
O português guarda um grupo pequeno de verbos nessa condição. Chove. Anoitece. Há vagas. Faz calor. Nenhum deles aceita a pergunta "quem?", e nenhum deles muda de forma quando o resto da frase vai para o plural. Ficam parados na terceira pessoa do singular, do começo ao fim da frase.
A armadilha aparece quando um número entra em cena. A expressão "dez anos" tem cara de sujeito: aparece no plural, ocupa o lugar que o sujeito costuma ocupar na frase e puxa o ouvido para o plural também. A banca conhece a atração e monta a questão inteira em cima dela.
Repare que a mesma frase vive em dois regimes. Na conversa de mesa, o plural sai da boca sem que ninguém pisque, porque a fala aceita a concordância pelo som. Na prova escrita, o som perde a palavra: o critério passa a ser a norma registrada nas gramáticas, e ela procura o sujeito antes de contar sílabas.
O ponto vale nota. Concordância verbal está no edital das grandes bancas de concurso, e Linguagens ocupa 45 das 180 questões do Enem. Um verbo impessoal levado ao plural é o tipo de marca que o corretor registra na redação e que a alternativa errada explora na prova objetiva.
A questão de hoje é a mais cobrada da família: o verbo fazer indicando tempo decorrido. Você vai ver como a pegadinha é montada, qual é a regra que resolve a frase em dez segundos, o que acontece quando aparece um auxiliar antes do fazer, e por que "dez anos se completam" continua correto no plural.
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I A Dúvida do Dia
Dez anos com cara de sujeito
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Duas frases com o mesmo sentido, e uma delas reprovada no gabarito. Veja onde a prova esconde o plural que soa natural e por que o ouvido cai na armadilha todas as vezes.
A dúvida chega quase sempre na mesma forma: faz dez anos ou fazem dez anos que a lei entrou em vigor? As duas versões circulam na fala, aparecem em legenda de jornal e soam naturais para a maioria dos ouvidos brasileiros.
A norma escrita reconhece uma só. O verbo fazer, quando marca tempo decorrido, fica no singular, e a forma no plural entra na conta de desvio em qualquer prova que cobre concordância verbal.
A banca raramente entrega a frase limpa. O primeiro disfarce é a distância: entre o verbo e a expressão de tempo entra um trecho inteiro, e quem lê perde o fio da concordância no meio do caminho.
Repare no efeito em "fazem, segundo o levantamento divulgado pelo instituto, dez anos que a regra vale". O plural passa despercebido porque o número aparece longe do verbo, e o trecho no meio ocupa a atenção que faria a checagem.
O segundo disfarce é o auxiliar. Numa locução verbal, a impessoalidade se transmite ao verbo da frente, e o teto do singular passa a valer para os dois. A frase "deve fazer dez anos que a regra vale" está de pé, e "devem fazer dez anos que a regra vale" cai, mesmo com o fazer intacto no infinitivo.
O terceiro disfarce é o advérbio de reforço. Construções como "já fazem quase três semanas" e "ainda fazem dois meses" chegam ao texto com ar de frase pronta, e o plural entra de carona no ritmo da fala, antes de qualquer conferência.
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O plural pede alguém para concordar, e nesta frase não existe ninguém fazendo os dez anos.
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A mesma construção circula longe da sala de prova. A linha "fazem dois meses que enviei a proposta" abre email de cobrança todo dia útil, e "fazem cinco anos que atuo na área" abre carta de apresentação e perfil profissional.
Quem recebe o email quase nunca comenta o plural, e quem estuda para prova não tem a mesma sorte: ali a construção vira alternativa marcada em vermelho, com ponto perdido no espelho de correção.
Existe uma explicação simples para o erro ser tão comum. O ouvido brasileiro trabalha por vizinhança, e a palavra no plural mais próxima do verbo puxa o verbo para o plural. Com "dez anos" encostado, a atração fica quase irresistível.
Junte a atração de vizinhança ao cansaço da segunda hora de prova e o resultado fica previsível. A alternativa com o plural soa familiar, o candidato marca por conforto sonoro, e o ponto sai sem que a dúvida tenha sequer aparecido na cabeça dele.
Reconhecer o mecanismo já resolve metade da questão. A outra metade é ter a regra pronta na ponta da língua, curta o bastante para caber no tempo que a prova concede a cada item.
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II A Regra
Sem sujeito, sem plural
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O verbo fazer indicando tempo decorrido é impessoal: não tem sujeito e fica sempre na terceira pessoa do singular. Faz dez anos, fazia duas semanas, fez três meses. A expressão de tempo ao lado dele é complemento, nunca sujeito, e sem sujeito na frase não existe plural a buscar.
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A regra cabe em uma linha porque o mecanismo é simples. Concordância verbal é o acordo entre o verbo e o sujeito. Sem sujeito na frase, o acordo perde a segunda parte, e o verbo permanece na forma neutra da terceira pessoa do singular.
A fonte é explícita nos manuais de referência. O Michaelis marca a acepção de tempo decorrido do verbete fazer como verbo impessoal, e as gramáticas escolares repetem a mesma trava, sem abrir exceção para o número que aparece ao lado.
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"Os verbos impessoais haver, no sentido de existir, acontecer ou decorrer, e fazer, indicando tempo decorrido, ficam na terceira pessoa do singular."
Domingos Paschoal Cegalla, Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, 2008
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O parente mais próximo da regra é o verbo haver. A frase "há dez anos que a regra vale" diz exatamente o mesmo que "faz dez anos que a regra vale", e o haver também recusa o plural nessa função. A forma "hão dez anos" não existe na norma escrita.
O contágio do auxiliar merece uma linha própria, porque é ali que a maioria das questões mora. Em "vai fazer dez anos", "deve fazer duas semanas" e "pode fazer três meses", o verbo da frente carrega a impessoalidade do fazer e fica no singular junto com ele.
Agora o contraste que a banca usa como pente fino. Trocar fazer por completar muda o quadro inteiro, porque completar tem sujeito. Em "dez anos se completam hoje", quem se completa são os dez anos, o sujeito está escrito na frase, e o verbo vai para o plural sem hesitação.
O mesmo vale para passar e para decorrer. As construções "passaram-se dez anos" e "decorreram dez anos" estão corretas no plural, porque nas duas o tempo assume o papel de sujeito e cobra a concordância normal.
A diferença fica visível quando a pergunta é feita em voz alta. Quem se completa? Dez anos. Quem faz os dez anos? Ninguém. Uma frase tem sujeito e concorda com ele; a outra não tem sujeito e permanece no singular.
Na fala espontânea e em parte da imprensa, o plural aparece com frequência, e ninguém deixa de ser entendido por causa dele. A prova trabalha com outro critério: a norma escrita registrada nas gramáticas, e ali o singular é a única forma aceita.
Vale registrar o alcance da trava, porque ela não se limita a ano. Faz duas semanas, faz quarenta minutos, faz três séculos: a unidade de tempo muda à vontade e o verbo continua parado no singular, do minuto ao século.
Quem quiser o plural tem uma saída legítima, que é trocar o verbo. As formas "completam-se dez anos", "já se passaram dez anos" e "decorreram dez anos" entregam a mesma informação, com a concordância no plural devidamente justificada.
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III O Teste
Troque por há e confira
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1. Troque fazer por haver e leia de novo. Se "há dez anos que não vejo o mar" continuar de pé, o verbo indica tempo decorrido e fica no singular. O haver nessa função nunca vai ao plural, e o ouvido não pede o plural dele.
2. Pergunte quem faz, em voz alta. Se aparecer um responsável pela ação, o verbo tem sujeito e concorda com ele. Se ninguém responder, o singular está travado e a expressão de tempo é complemento.
3. Olhe para a esquerda do fazer. Se houver dever, poder, ir ou começar antes dele, passe a mesma régua nesse auxiliar: deve fazer, vai fazer, pode fazer, sempre no singular.
Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que a concordância verbal está correta. Entre as opções aparecem "fazem dez anos que a lei entrou em vigor" e "faz dez anos que a lei entrou em vigor", separadas por duas frases longas que servem apenas para consumir o seu tempo.
Aplicado às duas, o teste do haver resolve em segundos. A frase "há dez anos que a lei entrou em vigor" funciona, portanto o verbo é impessoal, portanto a alternativa com o plural cai antes de qualquer leitura das outras.
Longe da prova, o teste serve na mesma velocidade. Antes de enviar o email que começa com "fazem dois meses que...", troque mentalmente por "há dois meses que...". Se couber, ajuste o verbo para o singular e mande.
Um cuidado fecha o teste e evita a correção exagerada. Nem todo fazer é impessoal, e o verbo volta a concordar normalmente quando alguém executa a ação: "os alunos fazem a prova" e "as máquinas fazem o trabalho" pedem o plural, porque ali existe quem faça.
Faz dez anos e dez anos se completam estão os dois corretos, e só um deles tem sujeito na frase.
"Quem, na frase que você vai escrever hoje, está fazendo os dez anos?"
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Quiz da edição
Quantas das 180 questões do Enem pertencem à área de Linguagens, citada no texto ao lado da concordância verbal?
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