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Este mês corre, esse mês já passou
A distância no tempo separa este de esse, e a prova cobra qual dos dois retoma o termo citado por último no parágrafo.
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O mês que corre e o mês que já passou
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“Segue em anexo esse relatório." A frase abriu o email de terça e entregou o desvio na terceira palavra. O arquivo viaja junto com a mensagem, está do lado de quem escreve e ainda não chegou às mãos de ninguém: o demonstrativo que marca a proximidade de quem fala é este. Esse aponta para o lado do leitor, ou para o que já ficou para trás na conversa.
A troca passa despercebida porque soa educada. Esse ganhou fama de forma neutra na correspondência de trabalho, entrou no email, no chat da equipe e na legenda de rede social, e ocupou o lugar de este em frases que descrevem o que está aqui, agora, com quem escreve.
Os três demonstrativos não são sinônimos com graus de formalidade diferentes. Cada um marca uma distância, e a distância se mede em três eixos: o espaço físico, o tempo do calendário e a posição do termo dentro do próprio texto.
No espaço, este fica com quem fala, esse fica com quem ouve, aquele fica longe dos dois. No tempo, este marca o período que ainda corre, esse marca o período já encerrado e aquele marca o período remoto. Este mês fecha no dia 30; esse mês que passou fechou no vermelho; naquele ano a empresa mudou de sede.
O terceiro eixo é o que aparece na prova e quase nunca aparece na escola. Dentro de um parágrafo com dois termos citados, este retoma o que foi mencionado por último e aquele retoma o mais afastado, o que abriu a sequência. Quem escreve no automático inverte os dois e muda o sentido da frase sem perceber.
O contrato, o laudo e o parecer vivem do terceiro eixo. Um período cita a empresa contratante e a empresa contratada, o período seguinte precisa dizer qual delas paga, e a escolha entre este e aquele decide quem assume a despesa aos olhos de um juiz que lê o documento dois anos depois.
A dúvida de hoje começa por três frases retiradas de email corporativo, de aviso de portaria e de laudo técnico, uma correta e duas fora da norma. Depois vem a regra que organiza os três eixos, e o teste que resolve a escolha com o texto ainda aberto na tela.
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I A Dúvida do Dia
Quatro períodos, o mesmo e
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Um pronome que muda de dono conforme a distância.
As três frases são estas: segue em anexo esse relatório; este mês fechou no vermelho, mas o próximo promete; a diretoria e a auditoria discordaram, e aquela venceu a queda de braço. Saíram de um email de prestação de contas, de uma ata de reunião e de um parecer interno arquivado.
Uma respeita a norma e duas pedem correção. O critério não tem relação com o registro formal do documento nem com o gosto de quem redigiu. O que governa é a distância: onde está o objeto, em que ponto do calendário está o período e qual termo do parágrafo o pronome retoma.
Segue em anexo esse relatório pede correção. O arquivo está preso à mensagem que quem escreve acabou de montar, portanto pertence à primeira pessoa do discurso. A forma da norma é este relatório, e a troca só se justificaria se o remetente estivesse falando de um documento que o destinatário já tem em mãos.
Este mês fechou no vermelho também pede correção, e o motivo está no verbo. Fechou indica período encerrado, e período encerrado pede esse. Este mês designa o mês que ainda corre, o que tem dias pela frente e ainda não tem resultado consolidado para relatar.
A diretoria e a auditoria discordaram, e aquela venceu está correta, e a leitura muda conforme o pronome. Aquela retoma o termo mais afastado, a diretoria, que abriu a enumeração. Se o redator tivesse escrito esta venceu, o vencedor da disputa seria a auditoria, e o parecer contaria outra história.
O email corporativo perde a distinção logo na saudação. Esse entrou como forma de cortesia, encobriu este em quase toda frase que descreve o que o remetente tem diante de si, e a leitura só trava quando o destinatário procura na caixa de entrada um anexo que nunca foi enviado antes.
O laudo técnico erra pelo eixo do texto, e o preço é maior. O documento cita dois equipamentos em sequência, retoma um deles com este por instinto, e o leitor que confere o relatório entende que a peça defeituosa é a segunda da lista quando a inspeção apontou a primeira.
O item de prova aproveita exatamente a terceira armadilha. A banca escreve um período com dois termos coordenados, retoma os dois na frase seguinte com este e aquele em ordem invertida, e pergunta quem fez o quê, contando que o candidato responda pela ordem em que os nomes apareceram.
Quem envia o email com o demonstrativo trocado não recebe correção de ninguém, e o texto segue circulando. Quem presta concurso descobre o preço no gabarito, porque a alternativa recusada é justamente a que trata os três pronomes como formas intercambiáveis de um só sentido.
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II A Regra
Sujeito próprio, série enfática, oposição
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Este marca o que está com quem fala, o tempo que ainda corre e o termo citado por último. Esse marca o que está com quem lê, o tempo já encerrado e o termo que veio antes. Aquele marca o que está longe dos dois interlocutores, o passado remoto e o primeiro termo da enumeração.
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A verificação tem dois movimentos rápidos. O primeiro é perguntar em qual dos três eixos a frase está operando, se no espaço, no tempo ou dentro do texto. O segundo é localizar o ponto de referência do eixo escolhido, porque a distância até ele decide o pronome sozinha.
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"Os demonstrativos denotam a posição dos seres em relação às pessoas do discurso, situando-os no espaço, no tempo ou no próprio texto em que aparecem."
Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, 1999
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A formulação do gramático arruma os três eixos em uma frase e explica por que a escolha nunca é estilística. O pronome não descreve o objeto, ele descreve a posição do objeto em relação a quem fala, a quem lê e ao que já foi dito antes na página.
O eixo do espaço é o mais fácil de conferir e o mais atropelado no trabalho remoto. Este caderno está na minha mesa, esse caderno está na sua, aquele caderno ficou na sala de reunião. No email, o anexo que acabou de ser preso à mensagem ocupa o lugar do que está na minha mesa.
O eixo do tempo trabalha com o calendário, não com o relógio da conversa. Esta semana ainda tem dias por vir, essa semana terminou na sexta-feira anterior e naquela semana de janeiro a equipe fechou o inventário. O verbo da frase costuma denunciar a escolha errada antes do pronome.
O eixo do texto é o que separa o candidato aprovado do reprovado, e funciona por proximidade na página. Comprei um dicionário e uma gramática; esta ficou na estante da sala. Esta retoma a gramática, mencionada por último, e aquela retomaria o dicionário, mencionado primeiro.
Existe ainda o uso que aponta para a frente, e ele pertence só a este. Quando o pronome anuncia o que vem depois dos dois-pontos, a norma pede a forma da proximidade: o problema é este, faltam duas assinaturas na página final. Esse nessa posição aponta para trás e desmonta a frase.
Esse tem um emprego próprio que a correspondência ignora, e ele retoma o que o interlocutor acabou de dizer. Quando alguém responde essa proposta me interessa, o pronome devolve a proposta ao lado de quem a apresentou, e a forma está correta justamente porque a origem não é quem escreve.
A pergunta que resolve a escolha cabe na cabeça de quem redige. Vale perguntar de quem é o objeto, se o período já acabou e qual dos termos citados o pronome está trazendo de volta, porque a resposta escolhe entre os três sem precisar de lista decorada.
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