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Entreguei a ela o laudo, nunca à ela
Pronome pessoal não admite artigo, então o acento grave não cabe, e a banca esconde a forma errada dentro de frase longa de ofício.
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O ofício com o acento indevido antes do pronome
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Duas e meia da tarde, balcão de protocolo de uma vara cível de cidade média, um ofício de duas laudas espera carimbo com a cópia grampeada por cima. A linha final do primeiro parágrafo informa que o setor entregou à ela o laudo pericial no prazo fixado pelo despacho, e o acento sobre o a foi digitado por quem revisou o texto três vezes antes de imprimir.
O acento grave entrou ali por confiança, não por descuido. Quem escreveu já tinha aprendido que o verbo entregar pede a preposição a, viu o a solitário na frente da palavra seguinte e concluiu que o sinal faltava, aplicando um raciocínio que funciona em quase toda linha de ofício e falha exatamente nesta.
A crase é o encontro de duas peças, e a peça que fica escondida é a que decide tudo. A primeira é a preposição a, que o verbo ou o nome anterior exige. A segunda é o artigo a, que precisa estar diante da palavra que vem depois. Sem as duas juntas, não existe fusão, e sem fusão o acento não tem o que representar.
O pronome pessoal recusa artigo em português. Ninguém escreve a ela chegou cedo nem viu a ele no corredor, e a recusa vale para ela, elas, ele, eles, nós, vós, você, vocês, mim e ti. Sem artigo disponível, sobra só a preposição, e a preposição sozinha se escreve com o a simples, sem sinal nenhum em cima.
O ofício do balcão é o ambiente perfeito para o desvio passar. O período tem quatro linhas, carrega dois adjuntos entre o verbo e o pronome, e o revisor chega no acento quando já perdeu de vista quem governava a preposição lá atrás, no começo da frase.
A banca de concurso conhece o hábito e monta o item sobre ele. Ela alonga o período, distancia o verbo do pronome, mistura na mesma alternativa um caso em que a crase é obrigatória e outro em que ela é proibida, e conta que o candidato decida pela aparência formal do texto.
A dúvida de hoje começa por quatro linhas quase idênticas do mesmo ofício, todas com o mesmo verbo e todas com o acento em posição diferente. Depois vem a regra que separa a preposição do artigo, e o teste que resolve a escolha antes de o documento subir para assinatura.
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I A Dúvida do Dia
Quatro linhas do mesmo ofício
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Um acento que parece exigido pelo verbo.
A dúvida cabe em quatro linhas quase iguais: entreguei a ela o laudo pericial, entreguei à ela o laudo pericial, entreguei a ela e à perita o laudo pericial, entreguei à ela e a perita o laudo pericial. As quatro saem de material real, de ofício de repartição, de email de escritório, de petição digitada às pressas e de ata de reunião.
Só a primeira e a terceira passam na norma escrita, e a diferença não tem relação com o grau de formalidade do documento nem com a extensão do período. O que decide é a classe da palavra que vem logo depois do a, porque é ela que aceita ou recusa o artigo que a crase precisa para existir.
Entreguei a ela o laudo pericial é a linha correta e a mais econômica. O verbo entregar exige a preposição a, o pronome ela não admite artigo, o encontro não acontece, e o a fica sem acento em qualquer frase em que um pronome pessoal ocupe essa posição.
Entreguei à ela o laudo pericial é o desvio mais comum do texto de repartição. Quem escreveu percebeu a regência do verbo, entendeu que ali havia preposição e usou o acento como marca dessa preposição, quando o acento marca a soma da preposição com um artigo que o pronome nunca recebeu.
Entreguei a ela e à perita o laudo pericial é a linha que mostra a regra funcionando dos dois lados no mesmo período. Diante do pronome, o a fica simples porque não há artigo. Diante do substantivo feminino perita, o artigo aparece, encontra a preposição e produz a crase legítima, com acento obrigatório.
Entreguei à ela e a perita o laudo pericial é a versão que inverte exatamente os dois acentos. Ela põe o sinal onde ele é proibido e o retira de onde ele é obrigatório, e costuma nascer de uma correção apressada, feita por quem trocou de linha sem reler o resto do período.
O email de escritório é onde o desvio se multiplica mais rápido. A frase encaminho à ela a minuta revisada sai de um modelo salvo, viaja para dezenas de destinatários por semana, ninguém responde apontando o acento, e o modelo continua produzindo a mesma linha por meses.
O item de prova usa distância e mistura para esconder a escolha. Ele escreve o setor de perícias, após reiterados pedidos formulados pela defesa, entregou à ela o laudo, e enterra o pronome em três linhas de vocabulário técnico que fazem o acento parecer parte do registro formal do documento.
Quem manda o ofício com o acento indevido recebe o carimbo assim mesmo e segue o dia. Quem presta concurso descobre o preço na correção, porque o item costuma trazer justamente a alternativa de aparência mais culta entre as opções, e ela é a única que não resiste à checagem da classe da palavra seguinte.
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II A Regra
Pronome não aceita artigo
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Crase é a fusão da preposição a com o artigo a, e só existe quando as duas peças aparecem. Pronome pessoal não admite artigo, então a segunda peça nunca chega, e diante de ela, elas, ele, eles, você, mim e ti o a se escreve sempre simples.
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A regra tem duas verificações e as duas são rápidas. A primeira é confirmar que existe preposição, olhando o verbo ou o nome que vem antes. A segunda é perguntar se a palavra seguinte aceita artigo, e a resposta fecha a decisão sem nenhuma releitura do período.
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"A crase resulta da fusão da preposição a com o artigo definido a, ou com o a inicial dos pronomes demonstrativos aquele, aquela, aquilo. Não há crase antes de pronome pessoal, que não admite artigo."
Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, 1999
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A formulação do gramático trata as duas peças como condição, e não como escolha de estilo. Onde não houver artigo disponível, a fusão não tem como acontecer, e o sinal aplicado ali passa a informar ao leitor uma soma que a frase não realizou em nenhum momento.
A primeira situação é a do pronome pessoal reto e oblíquo tônico, a mais comum do texto formal: entreguei a ela, comuniquei a eles, dirigi a palavra a você, isto não cabe a mim. Todas trazem preposição, nenhuma traz artigo, e nenhuma delas admite acento.
A segunda situação é a do pronome de tratamento, que segue a mesma recusa. Em encaminho a Vossa Senhoria o parecer e em cabe a Vossa Excelência decidir, o a fica simples, porque a forma de tratamento não recebe artigo mesmo ocupando a posição que um substantivo feminino ocuparia.
A terceira situação é a do substantivo feminino comum, onde a crase volta a existir e costuma ser esquecida. Em entreguei o laudo à perita e em o ofício foi dirigido à diretora, a preposição encontra o artigo, a fusão acontece e o acento passa a ser obrigatório, não opcional.
A quarta situação é a dos demonstrativos que começam por a, que abrem exceção sem quebrar o princípio. Em refiro-me àquela reunião e em cabe àquele setor responder, a preposição se funde com o a inicial do demonstrativo, e o acento aparece por fusão legítima, não por regência isolada.
Um detalhe fecha o quadro e resolve a linha do balcão. O pronome relativo a qual segue o comportamento do artigo que carrega, e em a perita à qual entreguei o laudo o acento é obrigatório, porque ali existe artigo, e é justamente ele que falta diante de ela.
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