Por que a preposição a não combina com nível.
A frase do memorando pedia uma palavra só: prioridade. A locução a nível de entrou para enfeitar e trouxe uma preposição errada junto.
Volte ao texto da diretoria: a nível de prioridade, o pedido do setor jurídico vem primeiro. Tire a locução e leia de novo. O pedido do setor jurídico tem prioridade. A frase encolhe e diz o mesmo com mais força.
O teste mostra o primeiro defeito da expressão. Na maioria das frases, a nível de funciona como enchimento: ocupa espaço, não acrescenta sentido e empurra o verbo para longe do sujeito.
O segundo defeito é de regência (a relação entre uma palavra e a preposição exigida por ela). Nível, no sentido de instância ou camada de uma hierarquia, pede a preposição em. Quem fala de esfera de governo diz em nível federal, nunca a nível federal.
Com o artigo definido, em e o se juntam em no. A forma no nível federal vale tanto quanto em nível federal. A escolha entre as duas depende só do estilo: com artigo, a frase aponta um nível específico; sem artigo, fala do nível como categoria.
Domingos Paschoal Cegalla, no Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, publicado pela editora Nova Fronteira, registra a nível de como modismo e recomenda trocá-la por em nível de ou por outra construção, conforme o sentido.
O Manual de Redação da Presidência da República, na terceira edição, de 2018, pede clareza, concisão e formalidade nos textos oficiais. Uma locução de enchimento vai contra os três princípios ao mesmo tempo, e a banca costuma usar o manual como referência na correção.
A origem do modismo pesa pouco na prova, mas ajuda a reconhecê-lo. A locução se espalhou pelo jargão de empresa e de repartição, onde tudo vira a nível de: a nível de gestão, a nível de cliente, a nível de sistema.
Em quase todos esses casos, o sentido é em relação a, quanto a ou no âmbito de (no campo de atuação de). A frase fica mais clara com uma dessas formas ou sem forma nenhuma.
A nível de gestão, o projeto atrasou vira o projeto atrasou na gestão. A nível de cliente, a reclamação cresceu vira as reclamações dos clientes cresceram. A nível de sistema, a falha persiste vira o sistema ainda falha.
O memorando da diretoria, reescrito, fica assim: o pedido do setor jurídico tem prioridade. Cinco palavras dão conta do recado, e nenhuma delas traz preposição duvidosa.
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