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Em nível nacional, nunca a nível de

Nível se liga a em quando indica esfera e a ao quando indica altura. A locução a nível de não tem lugar na norma.

Memorando impresso com a locução a nível de riscada a caneta.

Em nível federal, ao nível do mar

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O memorando da diretoria abria com a frase: “A nível de prioridade, o pedido do setor jurídico vem primeiro.” Na prova de redação oficial, a mesma construção custou ponto ao candidato que a copiou do hábito do escritório.

A banca não marcou o erro por gosto. A locução a nível de, usada para dizer em relação a ou em termos de, não consta como forma da norma culta nas gramáticas e nos manuais de redação que orientam as provas.

A frase do memorando dizia uma ideia simples: o pedido do jurídico tem prioridade. A locução entrou ali sem trabalho algum, só para soar técnica.

O hábito tem explicação. Nível é palavra de engenharia, de topografia e de hierarquia, e carrega um ar de precisão. Quem escreve a nível de prioridade, a nível de custo ou a nível de equipe quer parecer exato, mas acaba dizendo menos do que a frase direta diria.

A palavra nível em si está correta. O problema mora na preposição colada nela. Com o sentido de esfera ou instância, nível se liga a em: em nível nacional, em nível estadual, em nível de diretoria. Com artigo, a forma vira no nível: no nível federal, no nível municipal.

A preposição a só aparece junto com artigo, na forma ao nível de, e com outro sentido: o de altura, de mesma linha horizontal. A cidade fica ao nível do mar. A janela ficou ao nível da calçada.

Então sobram três formas corretas e uma ausente. Em nível e no nível apontam esfera. Ao nível aponta altura. A nível de, sem artigo e com sentido de assunto, não aparece em nenhuma dessas listas.

O corretor do computador deixa a locução passar. Cada palavra está escrita certo, e o programa não avalia se a preposição combina com o sentido da frase.

Por esse motivo a questão segue nas provas de concurso. O candidato bom de ortografia passa reto pela expressão, porque ela não tem acento errado nem letra trocada.

Abaixo, a origem da locução no escritório, a regra das três preposições e a troca que limpa o ofício antes da entrega.

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Quem banca a edição de hoje

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I  A Dúvida do Dia

O memorando da diretoria

Por que a preposição a não combina com nível.

A frase do memorando pedia uma palavra só: prioridade. A locução a nível de entrou para enfeitar e trouxe uma preposição errada junto.

Volte ao texto da diretoria: a nível de prioridade, o pedido do setor jurídico vem primeiro. Tire a locução e leia de novo. O pedido do setor jurídico tem prioridade. A frase encolhe e diz o mesmo com mais força.

O teste mostra o primeiro defeito da expressão. Na maioria das frases, a nível de funciona como enchimento: ocupa espaço, não acrescenta sentido e empurra o verbo para longe do sujeito.

O segundo defeito é de regência (a relação entre uma palavra e a preposição exigida por ela). Nível, no sentido de instância ou camada de uma hierarquia, pede a preposição em. Quem fala de esfera de governo diz em nível federal, nunca a nível federal.

Com o artigo definido, em e o se juntam em no. A forma no nível federal vale tanto quanto em nível federal. A escolha entre as duas depende só do estilo: com artigo, a frase aponta um nível específico; sem artigo, fala do nível como categoria.

Domingos Paschoal Cegalla, no Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, publicado pela editora Nova Fronteira, registra a nível de como modismo e recomenda trocá-la por em nível de ou por outra construção, conforme o sentido.

O Manual de Redação da Presidência da República, na terceira edição, de 2018, pede clareza, concisão e formalidade nos textos oficiais. Uma locução de enchimento vai contra os três princípios ao mesmo tempo, e a banca costuma usar o manual como referência na correção.

A origem do modismo pesa pouco na prova, mas ajuda a reconhecê-lo. A locução se espalhou pelo jargão de empresa e de repartição, onde tudo vira a nível de: a nível de gestão, a nível de cliente, a nível de sistema.

Em quase todos esses casos, o sentido é em relação a, quanto a ou no âmbito de (no campo de atuação de). A frase fica mais clara com uma dessas formas ou sem forma nenhuma.

A nível de gestão, o projeto atrasou vira o projeto atrasou na gestão. A nível de cliente, a reclamação cresceu vira as reclamações dos clientes cresceram. A nível de sistema, a falha persiste vira o sistema ainda falha.

O memorando da diretoria, reescrito, fica assim: o pedido do setor jurídico tem prioridade. Cinco palavras dão conta do recado, e nenhuma delas traz preposição duvidosa.

 
 

II  A Regra

Em, no e ao nível

Nível pede em quando indica esfera e pede ao quando indica altura. A preposição a, sem artigo, não forma locução com nível na norma culta.

A regra cabe em três linhas, uma por preposição.

• Em nível, para esfera ou instância: a decisão foi tomada em nível ministerial.

• No nível, a mesma esfera com artigo: o processo foi julgado no nível estadual.

• Ao nível de, para altura ou mesma linha: a cidade de Santos fica ao nível do mar.

A terceira forma é a armadilha. Ela existe, está certa e começa com a. Quem vê ao nível do mar no livro de geografia conclui que a nível de também serve, e transfere a preposição para o sentido de assunto.

A diferença está no artigo e no sentido. Ao nível do mar tem o artigo o fundido com a preposição a, e fala de altura física. A nível de prioridade não tem artigo e fala de assunto. São duas construções com sentidos distintos, e só a primeira tem registro na norma.

Ao nível também aceita sentido figurado de igualdade. O aluno chegou ao nível dos colegas; o salário subiu ao nível do mercado. A ideia continua sendo a de alcançar a mesma linha, só deslocada do terreno para a comparação.

Em nível de, com o de no fim, aparece quando o nível vem especificado logo depois: em nível de pós-graduação, em nível de diretoria. Cegalla aceita a forma nesse uso, quando há de fato uma hierarquia de níveis em jogo.

O critério para saber se a hierarquia existe é simples. Pós-graduação, graduação e ensino médio são níveis de ensino. Federal, estadual e municipal são níveis de governo. Prioridade, custo e cliente não formam escala nenhuma.

Por esse critério, em nível de prioridade também soa estranho, mesmo com a preposição certa. Prioridade não é patamar de uma escada. A frase pede quanto à prioridade ou, melhor, só a palavra prioridade no lugar certo.

O mesmo vale para a variação a nível. Escrever a nível nacional troca a preposição de uma forma correta, em nível nacional. A banca cobra as duas versões do erro: com sentido de assunto e com sentido de esfera.

Quem escreve para a prova pode seguir uma ordem de preferência. Primeiro, a frase sem locução. Segundo, quanto a, em relação a ou no âmbito de. Terceiro, em nível ou no nível, só quando existe uma escala real de níveis.

A preposição a fica reservada para a altura. Ao nível do mar, ao nível do chão, ao nível dos olhos: em todas, o leitor consegue apontar uma linha horizontal.

 

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III  O Teste

A frase sem a locução

Diante de um a nível de no rascunho, três perguntas resolvem a frase.

1. O texto fala de altura ou de mesma linha? Se sim, a forma é ao nível de, com artigo: a ponte fica ao nível da estrada.

2. O texto fala de esfera dentro de uma hierarquia real, como governo ou ensino? Se sim, escreva em nível ou no nível: a norma vale em nível federal.

3. O texto fala só de um assunto? Corte a locução e diga o assunto direto, ou use quanto a: quanto ao custo, o projeto cabe no orçamento.

Aplicado ao memorando: prioridade não é altura nem nível de hierarquia. A pergunta 3 decide, e a frase fica o pedido do setor jurídico tem prioridade.

Na prova, a questão costuma vir assim. Marque a frase escrita conforme a norma culta: (A) A nível federal, a lei mudou. (B) Em nível federal, a lei mudou. (C) A nível de custos, o plano é viável. (D) O porão fica a nível da rua.

A alternativa A usa a preposição a para esfera de governo. A C aplica a locução no sentido de assunto. A D fala de altura e esquece o artigo, que a forma ao nível da rua exige.

A B é o gabarito. Federal indica uma esfera dentro da hierarquia de governo, e nível nesse sentido pede em.

A banca também cobra o caso inverso, para pegar quem decorou só a proibição. A cidade fica ao nível do mar está certa e não deve ser corrigida. A forma com artigo e sentido de altura segue válida.

No texto digitado, a busca do editor faz a revisão. Procure por a nível antes de enviar o ofício e leia cada ocorrência com as três perguntas acima.

Na redação discursiva, a locução entra como desvio de norma e como falha de concisão. No texto oficial, ela aparece quase sempre logo na primeira linha, a mais lida por quem corrige.

Antes de entregar o ofício, confira três pontos: a palavra nível com sentido de esfera vem depois de em ou no,
a palavra nível com sentido de altura vem depois de ao,
a frase sem a locução diz o mesmo, e então a locução sai.

 
 
 

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