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Ele escreve mal e ele é mau
Mal troca por bem, mau troca por bom, e a banca esconde a dupla no meio de um texto corrido.
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A função decide a letra
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Sete e meia da noite, sala dos professores, conselho de classe do terceiro bimestre, e a ficha do aluno aberta no projetor com o parecer que a coordenação vai enviar aos pais. A linha final diz o seguinte: o aluno é mal educado, escreve mau e reage mau à correção do professor.
Ninguém na sala levanta a mão para falar de ortografia. A conversa segue para conselho de recuperação, carga horária e reunião com a família, o parecer é aprovado por consenso, e a frase sai da sala do jeito que entrou.
Escrita, ela viaja. Vai para o sistema acadêmico, para o email que a secretaria dispara aos responsáveis, para o modelo de parecer que a escola reaproveita no bimestre seguinte, e para a questão de ortografia que vale ponto no espelho de correção de qualquer concurso.
Mal e mau são duas palavras diferentes que a fala brasileira pronuncia praticamente igual. O ele final de mal e o u final de mau se fundem no mesmo som na boca de quase todo falante, e a distinção que sobrevive é só a da escrita.
Mal com ele é advérbio na maior parte das aparições, e o teste que a gramática oferece é direto: onde cabe bem, cabe mal. Ele dorme mal, ele escreve mal, ele reage mal, ele foi mal recebido na reunião de pais.
Mau com u é adjetivo, e o teste é o espelho do primeiro: onde cabe bom, cabe mau. Um mau aluno, um mau exemplo, um mau humor que a sala inteira percebe, um mau momento para pedir transferência.
O parecer do conselho troca as duas na mesma linha, e a troca dupla é o formato que a banca prefere. Mal educado com ele passa por certo aos olhos de muita gente, escreve mau com u passa despercebido no meio da frase longa, e as duas linhas perdem ponto por motivos opostos.
A questão de hoje começa pelas linhas em que a dupla aparece lado a lado, no parecer e no email da secretaria. Depois vem a regra que separa advérbio de adjetivo, o substantivo que também usa as duas formas, o caso do mal com hífen, e o teste que resolve antes de você apertar enviar.
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I A Dúvida do Dia
Duas letras na mesma linha
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Uma letra, duas classes.
A dúvida aparece em quatro linhas quase iguais: ele escreve mal, ele escreve mau, ele é um mau aluno, ele é um mal aluno. As quatro saem de texto real, de parecer escolar, de avaliação de desempenho e de mensagem de trabalho, e a maioria dos leitores atravessa as quatro sem parar.
Duas delas passam na norma escrita, e a divisão não depende do tom da frase. A diferença não está na formalidade do texto nem no tamanho do período: está na classe gramatical que a palavra ocupa em cada linha.
Ele escreve mal é a linha da norma. Mal está modificando o verbo escrever, dizendo de que maneira a ação acontece, e o lugar de quem modifica verbo é o do advérbio, que aqui se escreve com ele no fim.
Ele escreve mau é a linha que a fala esconde e a prova recusa. Mau é adjetivo, e adjetivo qualifica substantivo, nunca a ação do verbo: escrever não é um substantivo esperando qualificação, é o próprio acontecimento.
Ele é um mau aluno é a linha correta do outro lado da dupla. Aqui a palavra está grudada em aluno, um substantivo, e está dizendo que tipo de aluno ele é, exatamente o serviço que a gramática reserva ao adjetivo.
Ele é um mal aluno é a versão que ninguém escreve de propósito, e ela aparece com frequência no texto corrido. Advérbio não qualifica substantivo, e a linha cai por tentar colocar mal num lugar que a classe da palavra não ocupa.
A pronúncia é o que apaga a peça. O falante brasileiro não separa o som de mal do som de mau em fala corrida, então a memória auditiva não guarda a diferença e a escolha na hora de escrever vira aposta.
O disfarce mais comum da banca é o texto longo. A frase de prova põe as duas palavras a dez linhas de distância uma da outra, o candidato acerta a primeira, relaxa a atenção e erra a segunda sem perceber que era o mesmo par.
Mal educado é o caso que engana até quem sabe a regra, e ele merece linha própria. A grafia da norma é mal educado com ele, porque a palavra está modificando o particípio educado, um verbo em forma nominal, e não um substantivo qualquer.
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O par mal educado e mau caráter mostra a diferença lado a lado. Educado é particípio e pede advérbio, caráter é substantivo e pede adjetivo, e a mesma pessoa pode ser mal educada e de mau caráter na mesma frase sem contradição nenhuma.
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Existe ainda a aparição de mal como substantivo, e ela aparece bastante em texto religioso, jurídico e jornalístico. O mal do século, o bem e o mal, um mal necessário: nessas linhas mal vem precedido de artigo e funciona como nome, sempre com ele.
Quem manda o parecer escolar segue a semana sem consequência. Quem presta concurso descobre o preço na correção: a alternativa marcada perde o ponto, e o gabarito publicado não muda por recurso.
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II A Regra
Uma troca resolve as duas
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Mal é advérbio e troca por bem: ele escreve mal, ele foi mal recebido, ele dorme mal. Mau é adjetivo e troca por bom: um mau aluno, um mau exemplo, um mau momento. O teste da troca vale para todas as aparições da dupla.
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A regra tem uma decisão só, e ela vem antes de qualquer letra: descobrir se a palavra está modificando um verbo ou qualificando um substantivo. Definida a função, a grafia é automática e não muda com o tempo verbal nem com a posição na frase.
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"Mal opõe-se a bem e é advérbio; mau opõe-se a bom e é adjetivo. A oposição basta para resolver a dúvida em qualquer contexto."
Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985
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A gramática registra a diferença como classe de palavra, não como preferência de estilo. Escreve mal e escreve mau têm a mesma intenção na sala dos professores, e só a primeira passa no texto que vai ser corrigido.
A primeira situação é a do advérbio de modo, e ela é a mais frequente: escrever mal, dormir mal, dirigir mal, cair mal, sair mal na foto. A palavra encosta no verbo, aceita bem no lugar sem estranheza, e sai com ele.
A segunda situação é a do advérbio grudado em particípio, e ela é a que mais derruba gente: mal educado, mal informado, mal escrito, mal resolvido, mal intencionado. O particípio é forma verbal, e forma verbal pede advérbio.
A terceira situação é a do adjetivo puro: mau aluno, mau exemplo, mau humor, mau tempo, mau caráter. A palavra vem antes ou depois de um substantivo, aceita bom no lugar, e flexiona em má, maus e más conforme o substantivo pede.
A quarta situação é a do substantivo, e ela precisa do artigo como pista. O mal e o bem, o mal do século, um mal necessário, os males da pressa: com artigo ou determinante na frente, a palavra é nome e continua com ele.
A quinta situação é a do mal como conjunção de tempo, e ela vale ponto em prova de sintaxe. Mal chegou, o telefone tocou: aqui mal equivale a assim que, abre oração subordinada temporal, e a grafia continua sendo a do ele.
O hífen fecha a lista porque ele muda com a palavra seguinte. Mal se liga com hífen quando o segundo elemento começa por vogal ou por agá, como em mal-estar e mal-humorado, e fica solto quando o segundo elemento começa por consoante, como em mal educado.
Um vizinho fecha o quadro porque cai no mesmo tipo de armadilha. O par mais e mas segue o mesmo desenho de som quase idêntico com funções diferentes, e o teste é igual de simples: mais troca por menos, mas troca por porém.
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