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ED 016

Ele escreve mal e ele é mau

Mal troca por bem, mau troca por bom, e a banca esconde a dupla no meio de um texto corrido.

Sala dos professores em conselho de classe, com a ficha do aluno projetada na parede e o parecer aberto para aprovação.

A função decide a letra

 

Sete e meia da noite, sala dos professores, conselho de classe do terceiro bimestre, e a ficha do aluno aberta no projetor com o parecer que a coordenação vai enviar aos pais. A linha final diz o seguinte: o aluno é mal educado, escreve mau e reage mau à correção do professor.

Ninguém na sala levanta a mão para falar de ortografia. A conversa segue para conselho de recuperação, carga horária e reunião com a família, o parecer é aprovado por consenso, e a frase sai da sala do jeito que entrou.

Escrita, ela viaja. Vai para o sistema acadêmico, para o email que a secretaria dispara aos responsáveis, para o modelo de parecer que a escola reaproveita no bimestre seguinte, e para a questão de ortografia que vale ponto no espelho de correção de qualquer concurso.

Mal e mau são duas palavras diferentes que a fala brasileira pronuncia praticamente igual. O ele final de mal e o u final de mau se fundem no mesmo som na boca de quase todo falante, e a distinção que sobrevive é só a da escrita.

Mal com ele é advérbio na maior parte das aparições, e o teste que a gramática oferece é direto: onde cabe bem, cabe mal. Ele dorme mal, ele escreve mal, ele reage mal, ele foi mal recebido na reunião de pais.

Mau com u é adjetivo, e o teste é o espelho do primeiro: onde cabe bom, cabe mau. Um mau aluno, um mau exemplo, um mau humor que a sala inteira percebe, um mau momento para pedir transferência.

O parecer do conselho troca as duas na mesma linha, e a troca dupla é o formato que a banca prefere. Mal educado com ele passa por certo aos olhos de muita gente, escreve mau com u passa despercebido no meio da frase longa, e as duas linhas perdem ponto por motivos opostos.

A questão de hoje começa pelas linhas em que a dupla aparece lado a lado, no parecer e no email da secretaria. Depois vem a regra que separa advérbio de adjetivo, o substantivo que também usa as duas formas, o caso do mal com hífen, e o teste que resolve antes de você apertar enviar.

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I  A Dúvida do Dia

Duas letras na mesma linha

Uma letra, duas classes.

A dúvida aparece em quatro linhas quase iguais: ele escreve mal, ele escreve mau, ele é um mau aluno, ele é um mal aluno. As quatro saem de texto real, de parecer escolar, de avaliação de desempenho e de mensagem de trabalho, e a maioria dos leitores atravessa as quatro sem parar.

Duas delas passam na norma escrita, e a divisão não depende do tom da frase. A diferença não está na formalidade do texto nem no tamanho do período: está na classe gramatical que a palavra ocupa em cada linha.

Ele escreve mal é a linha da norma. Mal está modificando o verbo escrever, dizendo de que maneira a ação acontece, e o lugar de quem modifica verbo é o do advérbio, que aqui se escreve com ele no fim.

Ele escreve mau é a linha que a fala esconde e a prova recusa. Mau é adjetivo, e adjetivo qualifica substantivo, nunca a ação do verbo: escrever não é um substantivo esperando qualificação, é o próprio acontecimento.

Ele é um mau aluno é a linha correta do outro lado da dupla. Aqui a palavra está grudada em aluno, um substantivo, e está dizendo que tipo de aluno ele é, exatamente o serviço que a gramática reserva ao adjetivo.

Ele é um mal aluno é a versão que ninguém escreve de propósito, e ela aparece com frequência no texto corrido. Advérbio não qualifica substantivo, e a linha cai por tentar colocar mal num lugar que a classe da palavra não ocupa.

A pronúncia é o que apaga a peça. O falante brasileiro não separa o som de mal do som de mau em fala corrida, então a memória auditiva não guarda a diferença e a escolha na hora de escrever vira aposta.

O disfarce mais comum da banca é o texto longo. A frase de prova põe as duas palavras a dez linhas de distância uma da outra, o candidato acerta a primeira, relaxa a atenção e erra a segunda sem perceber que era o mesmo par.

Mal educado é o caso que engana até quem sabe a regra, e ele merece linha própria. A grafia da norma é mal educado com ele, porque a palavra está modificando o particípio educado, um verbo em forma nominal, e não um substantivo qualquer.

O par mal educado e mau caráter mostra a diferença lado a lado. Educado é particípio e pede advérbio, caráter é substantivo e pede adjetivo, e a mesma pessoa pode ser mal educada e de mau caráter na mesma frase sem contradição nenhuma.

Existe ainda a aparição de mal como substantivo, e ela aparece bastante em texto religioso, jurídico e jornalístico. O mal do século, o bem e o mal, um mal necessário: nessas linhas mal vem precedido de artigo e funciona como nome, sempre com ele.

Quem manda o parecer escolar segue a semana sem consequência. Quem presta concurso descobre o preço na correção: a alternativa marcada perde o ponto, e o gabarito publicado não muda por recurso.

 
 

II  A Regra

Uma troca resolve as duas

Mal é advérbio e troca por bem: ele escreve mal, ele foi mal recebido, ele dorme mal. Mau é adjetivo e troca por bom: um mau aluno, um mau exemplo, um mau momento. O teste da troca vale para todas as aparições da dupla.

A regra tem uma decisão só, e ela vem antes de qualquer letra: descobrir se a palavra está modificando um verbo ou qualificando um substantivo. Definida a função, a grafia é automática e não muda com o tempo verbal nem com a posição na frase.

"Mal opõe-se a bem e é advérbio; mau opõe-se a bom e é adjetivo. A oposição basta para resolver a dúvida em qualquer contexto."

Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985

A gramática registra a diferença como classe de palavra, não como preferência de estilo. Escreve mal e escreve mau têm a mesma intenção na sala dos professores, e só a primeira passa no texto que vai ser corrigido.

A primeira situação é a do advérbio de modo, e ela é a mais frequente: escrever mal, dormir mal, dirigir mal, cair mal, sair mal na foto. A palavra encosta no verbo, aceita bem no lugar sem estranheza, e sai com ele.

A segunda situação é a do advérbio grudado em particípio, e ela é a que mais derruba gente: mal educado, mal informado, mal escrito, mal resolvido, mal intencionado. O particípio é forma verbal, e forma verbal pede advérbio.

A terceira situação é a do adjetivo puro: mau aluno, mau exemplo, mau humor, mau tempo, mau caráter. A palavra vem antes ou depois de um substantivo, aceita bom no lugar, e flexiona em má, maus e más conforme o substantivo pede.

A quarta situação é a do substantivo, e ela precisa do artigo como pista. O mal e o bem, o mal do século, um mal necessário, os males da pressa: com artigo ou determinante na frente, a palavra é nome e continua com ele.

A quinta situação é a do mal como conjunção de tempo, e ela vale ponto em prova de sintaxe. Mal chegou, o telefone tocou: aqui mal equivale a assim que, abre oração subordinada temporal, e a grafia continua sendo a do ele.

O hífen fecha a lista porque ele muda com a palavra seguinte. Mal se liga com hífen quando o segundo elemento começa por vogal ou por agá, como em mal-estar e mal-humorado, e fica solto quando o segundo elemento começa por consoante, como em mal educado.

Um vizinho fecha o quadro porque cai no mesmo tipo de armadilha. O par mais e mas segue o mesmo desenho de som quase idêntico com funções diferentes, e o teste é igual de simples: mais troca por menos, mas troca por porém.

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III  O Teste

Troque por bem, depois por bom

1. Ponha bem no lugar da palavra. Se a frase continua de pé, a palavra é advérbio e a grafia é mal com ele: ele escreve bem vira ele escreve mal, sem que a frase perca sentido nenhum.

2. Se bem não couber, ponha bom. Se a frase de pé aparece com bom, a palavra é adjetivo e a grafia é mau com u: ele é um bom aluno vira ele é um mau aluno, com a concordância de gênero seguindo o substantivo.

3. Confirme pelo vizinho da palavra. Verbo, particípio ou outro advérbio ao lado pede mal, substantivo ao lado pede mau, e artigo na frente indica o mal substantivo do bem e do mal.

Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que as duas ocorrências estão grafadas de acordo com a norma. Entre as opções aparecem o aluno mal educado tem mau desempenho e o aluno mau educado tem mal desempenho, cercadas por frases longas.

Aplicado às duas, o teste resolve em segundos. Educado é particípio e aceita bem educado, então a primeira palavra é mal, desempenho é substantivo e aceita bom desempenho, então a segunda é mau, e a alternativa invertida perde o ponto.

Longe da prova, o teste serve na mesma velocidade. Antes de enviar o parecer que diz escreve mau e reage mau, faça a troca simples: escreve bem, reage bem, e as duas linhas voltam para o ele sem discussão.

O feminino entra como confirmação extra e resolve o caso duvidoso na hora. Se a palavra admite má, ela é adjetivo e a forma masculina é mau: má vontade, má fé, má impressão, e nenhuma delas aceita mal no lugar.

A escolha entre mal e mau não é questão de sotaque nem de registro. O desvio nasce quando o ouvido decide a grafia de uma dupla que a fala brasileira já fundiu no mesmo som.

Um segundo cuidado vale para o texto de trabalho, onde a dupla aparece em avaliação e em feedback escrito. Mal avaliado, mal conduzido e mal comunicado levam ele porque encostam em particípio, e mau gestor, mau clima e mau resultado levam u porque encostam em substantivo.

Ele escreve mal e ele é mau estão as duas na norma, e a linha que cai na correção é a que deixou o ouvido escolher a letra no lugar da função da palavra.

"No último parecer, email ou avaliação que você escreveu apontando um problema de alguém, a palavra saiu com o ele do advérbio ou com o u do adjetivo, e você chegou a fazer a troca por bem antes de enviar?"

 
 
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Quiz da edição

Por que a grafia correta é "mal educado" com ele, e não "mau educado" com u?

APorque "educado" é substantivo e pede adjetivo
BPorque "mal" nesse caso funciona como conjunção de tempo
CPorque "educado" é particípio, forma verbal que pede advérbio
DPorque a regra só vale em prova de concurso, não em texto escolar

Resultado da última edição: 0% acertaram.

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