A resposta de ontem Em que cidade gaúcha nasceu Celso Pedro Luft? Celso Pedro Luft nasceu em 1921 em Poço das Antas, no interior do Rio Grande do Sul. Formou-se professor como irmão lassalista, lecionou por décadas em Porto Alegre, onde viveu até 1995, e foi casado com a escritora Lya Luft, que tinha sido sua aluna. |
De onde vem o crime e de onde vem a linha.
Descriminar vem de crimen, a acusação; discriminar vem de discrimen, a linha divisória. A semelhança das duas é coincidência de som.
As duas chegaram ao português por caminhos diferentes. Discriminar já circulava em textos de direito e de filosofia escritos em latim, e o português o tomou quase sem mudança. Descriminar foi montado depois, dentro da própria língua, juntando um prefixo comum a uma palavra comum.
A primeira palavra se monta como um encaixe. O prefixo des- indica retirada, o mesmo de desfazer e desligar. A base é crime, do latim crimen (acusação, culpa). Descriminar, portanto, é tirar o crime de cima de alguém.
No latim, crimen nasceu ligado à acusação formal, a queixa levada ao juiz. Só depois a palavra passou a nomear o próprio delito. Da mesma raiz vieram incriminar (pôr a culpa em alguém), recriminar (censurar) e criminoso.
Descriminar completa esse grupo pelo lado oposto. O réu descriminado é o réu inocentado: a acusação caiu e a culpa saiu dele. Nos dicionários, a palavra aparece com os sentidos de absolver e inocentar.
A segunda palavra tem outra árvore. Discriminar vem do latim discriminare, verbo formado sobre discrimen (separação, ponto de divisão). Discrimen, por sua vez, sai de discernere (separar, distinguir), o mesmo verbo que deu discernir em português.
Os romanos usavam discrimen para a risca que divide o cabelo em duas partes e para o momento em que uma decisão separa um caminho do outro. A palavra sempre carregou a imagem de uma linha que põe as partes cada qual do seu lado.
Discriminar herdou essa imagem. Discriminar as despesas é pôr os gastos um por linha. Uma nota fiscal discriminada lista produto por produto, com quantidade e preço. Um orçamento discriminado separa material, mão de obra e frete.
Com o tempo, a palavra ganhou um segundo sentido, hoje o mais conhecido: tratar alguém de forma desigual por causa de cor, origem, sexo ou religião. A ideia de separar continua lá, aplicada a pessoas.
Nesse sentido, discriminar pode virar crime. A Lei 7.716, de 1989, conhecida como Lei Caó em homenagem ao seu autor, o deputado Carlos Alberto de Oliveira, o Caó, define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor.
O par produz uma ironia de dicionário. Discriminar alguém pode levar ao banco dos réus; descriminar alguém tira a pessoa dele. As duas palavras moram em lados opostos do processo penal, separadas por uma vogal.
O sentido de separar, porém, segue neutro e frequente no escritório, na contabilidade e na ciência. Um exame capaz de discriminar duas doenças distingue uma da outra, sem juízo de valor nenhum.
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