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Cidadãos, pães e corações: o plural do ão

Cada plural em ão herda a terminação do latim. Ancião foge da regra e aceita três formas registradas.

Ata de assembleia com cidadões riscado e cidadãos escrito ao lado.

Cidadãos na ata, nunca cidadões

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Na ata da associação de moradores, a primeira linha dizia: “Convocamos todos os cidadões do bairro para a assembleia de sábado.” A secretária leu, achou estranho e trocou por cidadãos antes de imprimir.

Ela acertou pelo ouvido. Cidadões soa natural para quem fala leões, limões e botões todos os dias, e a analogia empurra a mão de quem escreve rápido.

A língua portuguesa tem três saídas para o plural das palavras terminadas em ão: ãos, ães e ões. Mão faz mãos, pão faz pães, coração faz corações. A terminação do singular é idêntica nos três casos e não avisa qual plural vem depois.

O falante nativo acerta quase sempre as palavras do dia a dia. Ninguém pede dois pãos na padaria nem fala em coraçãos. O tropeço aparece nas palavras menos usadas, aquelas que a pessoa escreve uma vez por ano: cidadão, cristão, capitão, tabelião, ancião.

As bancas de concurso conhecem esse mapa de tropeços. Uma questão de ortografia costuma listar quatro plurais de palavras em ão e pedir a forma errada, e a alternativa inventada quase sempre segue o padrão mais comum, o ões.

O caso de ancião complica o quadro. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), lista oficial de grafias publicada pela Academia Brasileira de Letras, registra três plurais para ele: anciãos, anciães e anciões. Os três estão certos.

O registro triplo não nasceu de descuido. A Academia preferiu acolher as três formas porque todas aparecem em autores portugueses e brasileiros dos séculos passados, e cortar duas delas deixaria errados textos consagrados.

Quem decorou uma lista solta de plurais se perde aqui. Quem entende de onde vem cada terminação resolve a questão em poucos segundos, porque o plural guarda a memória da palavra latina.

A seção I conta essa origem, a seção II arruma a regra em grupos e a seção III põe tudo à prova numa questão de banca.

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I  A Dúvida do Dia

Três terminações latinas viraram uma só

De onde vem cada plural e por que o singular ficou igual.

O singular em ão junta três terminações latinas diferentes. O plural conserva a terminação antiga, e é ali que mora a resposta.

A palavra mão vem do latim manus, que fazia o plural manus e deu, no português, mãos. Irmão vem de germanus, cristão vem de christianus. Todas carregavam a terminação anus (sufixo latino comum em adjetivos), e todas fazem o plural em ãos.

Pão vem de panis, com plural panes. Cão vem de canis, plural canes. Capitão vem de capitanus, mas no latim tardio circulava a forma capitanem. Esse grupo, de radical terminado em anes, deu o plural em ães: pães, cães, capitães, alemães.

Leão vem de leo, cujo radical aparece no plural leones. Razão vem de ratio, plural rationes. Esse terceiro grupo, de radical em ones, deu o plural em ões, de longe o mais numeroso da língua: leões, razões, corações, botões.

No português medieval, os três singulares ainda soavam diferentes. Os textos galego-portugueses do século XIII escreviam mão, pan e leom, cada um com a sua vogal final. Os falantes ouviam a diferença e acertavam o plural sem pensar.

Entre os séculos XV e XVI, as três terminações se fundiram num único som nasal, o ão. O singular ficou igual para todos, e o plural continuou separado. Celso Cunha e Lindley Cintra descrevem essa fusão na Nova Gramática do Português Contemporâneo (1985), ao tratar do plural dos nomes.

Cidadão entra no primeiro grupo. A palavra se forma de cidade com o sufixo ão, herdeiro do latim anus, o mesmo de cristão e aldeão. Daí cidadãos, com plural em ãos, e nunca cidadões.

Coração segue outro caminho. Vem de uma forma do latim popular derivada de cor (coração, em latim), com a terminação de aumentativo one. O radical em ones explica corações.

Ancião é o caso mais curioso. A palavra vem do latim vulgar antianus, derivado de ante (antes), e pela origem faria só anciãos. A fala, porém, aplicou a analogia com os outros dois grupos, e as formas anciães e anciões ganharam uso em textos clássicos.

O VOLP decidiu registrar o uso, sem impor a etimologia. As três formas entraram na lista oficial, e qualquer uma delas passa na prova e no texto formal.

Vilão e aldeão seguem o mesmo destino. O VOLP registra vilãos, vilães e vilões; aldeãos, aldeães e aldeões. O grupo das palavras com plural variável é pequeno, e as bancas adoram cobrá-lo justamente pela raridade.

 
 

II  A Regra

Grupos de plural para cada final

Palavra oxítona em ão segue a origem latina; ancião, vilão e aldeão aceitam as três formas. Paroxítona em ão faz sempre ãos.

A regra prática começa pela sílaba tônica (a sílaba pronunciada com mais força). Nas paroxítonas terminadas em ão, com a força na penúltima sílaba, o plural sai sempre em ãos: órgão vira órgãos, sótão vira sótãos, bênção vira bênçãos, órfão vira órfãos.

Nas oxítonas, com a força no ão final, vale a origem. Como o falante comum não consulta o latim, o caminho seguro é decorar os dois grupos menores e deixar o resto para o ões.

O grupo do ãos reúne mão, irmão, cristão, cidadão, cortesão, grão, chão, desvão e pagão. São palavras antigas, quase todas ligadas ao sufixo latino anus.

O grupo do ães reúne pão, cão, capitão, alemão, charlatão, escrivão, tabelião, sacristão, capelão e guardião. A lista cabe numa ficha e cobre a maior parte das questões de banca.

Fora desses dois grupos, a aposta segura é o ões, que reúne a imensa maioria das palavras: limões, canções, eleições, aviões, corações, nações, opiniões. Todo substantivo novo formado com o sufixo ção entra nesse grupo.

Algumas palavras aceitam duas formas, sem a terceira. Verão faz verões ou verãos; corrimão faz corrimãos ou corrimões; ermitão faz ermitãos, ermitães ou ermitões. Na dúvida, o VOLP resolve em poucos segundos pela consulta online da Academia Brasileira de Letras.

O aumentativo segue o ões sem exceção. Casarão faz casarões, paredão faz paredões, narigão faz narigões. A terminação ão de grau aumentado nasceu do mesmo one latino de coração.

Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa (edição de 1999), recomenda tratar a lista dos plurais variáveis como fato de vocabulário, sem tentar deduzir pela regra. A observação vale para a prova: a forma alternativa só passa quando o VOLP a registra.

O feminino também ajuda a conferir. Cidadão faz cidadã, cristão faz cristã, irmão faz irmã, todos do grupo ãos. Leão faz leoa, patrão faz patroa, do grupo ões. Quando o feminino termina em ã, o plural costuma terminar em ãos.

Na redação oficial, a escolha entre as formas de ancião segue o gosto do redator, com uma condição: manter a mesma forma do começo ao fim do documento. Um parecer que alterna anciãos e anciões em parágrafos vizinhos parece revisado às pressas.

O teste falha em alguns casos. Alemão faz alemã e plural alemães; capitão faz capitã e plural capitães. Serve como pista, nunca como prova.

 

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III  O Teste

Questão de banca sobre o plural em ão

Diante de qualquer plural de palavra terminada em ão, três passos resolvem a dúvida na hora da prova.

1. Veja a sílaba tônica. Se a força cai antes do ão, como em órgão e sótão, o plural é ãos e a questão acaba ali.

2. Se a força cai no ão, procure a palavra nos dois grupos menores: mão, irmão e cidadão fazem ãos; pão, cão e capitão fazem ães.

3. Fora das duas listas, escreva ões. Se a palavra for ancião, vilão ou aldeão, as três formas valem.

Aplicado à ata da associação: cidadão fica no grupo do ãos, e a secretária trocou a forma inventada pela forma registrada. A convocação saiu correta para os cidadãos do bairro.

Uma banca de nível médio apresentaria o tema assim. Indique a alternativa com plural em desacordo com a norma padrão: (A) Os anciões da tribo se reuniram. (B) Os escrivães assinaram a certidão. (C) Os cidadões votaram no domingo. (D) Os órgãos públicos fecharam.

A alternativa A está correta. Anciões é uma das três formas registradas no VOLP, ao lado de anciãos e anciães.

A alternativa B também passa. Escrivão pertence ao grupo do ães, herança do latim scribanem, e escrivães é a única forma aceita.

A alternativa D segue a regra das paroxítonas. Órgão tem a força na primeira sílaba, e o plural órgãos não admite outra saída.

A C é o gabarito. Cidadão vem do grupo do ãos, e cidadões não aparece no VOLP. A banca montou a alternativa errada justamente com o plural mais comum da língua, o que pega quem decide pelo ouvido.

Uma variação frequente troca ancião por cidadão na alternativa errada, à espera de quem decorou só a regra geral. Quem conhece as três formas registradas não cai.

Outra armadilha comum mistura o plural com a concordância. Os capitães chegou cedo erra no verbo, e não no substantivo; a banca às vezes esconde o erro de plural ao lado de um erro de concordância para testar a atenção do candidato.

No trabalho, a conferência leva poucos segundos. O site da Academia Brasileira de Letras traz a busca no VOLP, e cada verbete mostra o plural aceito.

Confira antes de entregar o texto: sílaba tônica da palavra em ão,
grupo do ãos ou do ães para a oxítona,
três formas aceitas só para ancião, vilão e aldeão.

★ RARO

🔒

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Segundo o texto, quantos plurais o VOLP registra oficialmente para a palavra ancião?

AUm, apenas anciãos
BDois, anciãos e anciões
CTrês, anciãos, anciães e anciões
DQuatro, incluindo anciãs

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