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Bastantes provas, mas estudaram bastante
Antes do substantivo, bastante é adjetivo e vai ao plural; junto do verbo, é advérbio e fica sem s.
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O s que vai com o nome e some no verbo
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Na véspera do simulado, a mensagem no grupo da turma dizia: "Estudamos bastantes essa semana, a prova vai ser tranquila." O s no fim de bastantes estava sobrando, e ninguém no grupo reparou.
Quem escreveu pensou em muitas horas de estudo. A cabeça contou plural, e a mão pôs o s. Faz sentido: uma semana inteira de leitura parece pedir uma palavra no plural.
Duas mensagens abaixo, outra colega respondeu: "Tenho bastante motivos pra ficar nervosa." Agora faltava o s. O mesmo grupo, a mesma palavra, um erro em cada direção.
A palavra bastante engana porque vive em dois papéis. Num deles ela acompanha um nome e muda com ele; no outro ela acompanha um verbo e não muda nunca. O ouvido não separa os dois papéis, porque o s final some na fala rápida.
A banca de nível médio conhece a armadilha. A questão de concordância nominal (o acordo de gênero e número entre o nome e as palavras que o acompanham) põe as duas formas na mesma alternativa e espera o candidato escorregar numa delas.
O simulado da turma tinha justamente uma questão sobre essa palavra. Metade da turma marcou a alternativa que repetia a frase do grupo, convencida de que o plural combinava com o esforço da semana. A outra metade escolheu a alternativa sem s e também errou, porque ali a palavra acompanhava um nome.
O tropeço também sai da sala de prova. Aparece no email do chefe que pede bastante relatórios, na legenda que promete bastantes surpresas e acerta, no aviso do condomínio que diz que os moradores reclamaram bastantes.
A saída está no vizinho da palavra. A quantidade que ela sugere atrapalha mais do que ajuda: quem bastante acompanha decide se o s entra ou fica de fora.
Os dois erros do grupo têm explicação, e cada uma delas está escrita no dicionário. A pergunta que a turma deixou no ar é simples: por que a mesma palavra aceita s numa frase e recusa na outra.
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I A Dúvida do Dia
Uma palavra, dois empregos
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Por que a mesma palavra ganha s numa frase e perde na outra.
Bastante muda de classe conforme a palavra que acompanha, e cada classe tem sua própria regra de número. O Dicionário Michaelis registra as duas no mesmo verbete.
No verbete, uma das acepções traz bastante como adjetivo (a palavra que qualifica ou quantifica um substantivo), com o sentido de suficiente ou numeroso. Nesse papel ela se liga a um nome: bastantes provas, bastantes motivos, bastante paciência.
Mais abaixo, o mesmo verbete traz bastante como advérbio (a palavra que modifica um verbo, um adjetivo ou outro advérbio), com o sentido de muito ou em quantidade suficiente. Nesse papel ela se liga ao verbo: estudaram bastante, dormiu bastante, correram bastante.
A diferença entre as classes decide tudo. O adjetivo segue a concordância nominal: se o substantivo está no plural, ele vai junto. O advérbio pertence às palavras invariáveis (as que não mudam de gênero nem de número), e assim não recebe s em situação nenhuma.
Volte ao grupo da turma. Em estudamos bastantes, a palavra vem logo depois do verbo estudar e diz quanto se estudou. Ela é advérbio, e advérbio não vai para o plural: estudamos bastante.
Na segunda mensagem, tenho bastante motivos, a palavra vem antes do substantivo motivos e diz quantos motivos existem. Ela é adjetivo, e o adjetivo acompanha o número do nome: tenho bastantes motivos.
Os dois erros têm a mesma origem com sinais trocados. A primeira colega pôs plural num advérbio porque a ideia de muito puxa o s. A segunda deixou no singular um adjetivo porque bastante soa como palavra fixa, do tipo que nunca muda.
O gênero não entra na conta. Bastante termina em e e serve para masculino e feminino sem alteração: bastantes motivos, bastantes provas. Só o número varia, e só quando a palavra está junto de um nome.
Um terceiro caso confunde mais. Bastante pode modificar um adjetivo, como em provas bastante difíceis. Ali a palavra diz quão difíceis eram as provas, e não quantas provas havia. Ela é advérbio, e fica sem s mesmo cercada de plurais.
O mesmo vale quando bastante modifica outro advérbio. Em chegaram bastante cedo, a palavra intensifica cedo, que já é advérbio, e o conjunto inteiro se refere ao verbo chegar. Nenhum dos dois recebe s, porque nenhum dos dois acompanha um nome.
A resposta para o grupo da turma cabe numa linha: estudamos bastante e temos bastantes motivos. As duas frases usam a mesma palavra em classes diferentes, e cada classe pede a sua forma.
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II A Regra
O vizinho decide o número
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Bastante junto de substantivo é adjetivo e concorda com ele; bastante junto de verbo, adjetivo ou advérbio é advérbio e fica invariável.
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Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo (1985), tratam bastante entre as palavras que podem ser adjetivo ou advérbio conforme o contexto. Quando qualifica o substantivo, a palavra flexiona (muda de forma para marcar o plural); quando modifica o verbo, permanece invariável.
Evanildo Bechara, na Moderna Gramática Portuguesa (edição revista de 1999), descreve o mesmo comportamento e o aproxima de outras palavras de quantidade, como muito e pouco. Muitos livros, mas leram muito; poucas horas, mas dormiram pouco.
A comparação com muito ajuda na hora da prova. Muito e bastante dividem o terreno: onde cabe muitos, cabe bastantes; onde cabe muito sem plural, cabe bastante sem plural. Havia muitas questões vira havia bastantes questões. Estudaram muito vira estudaram bastante.
A troca funciona porque muito expõe o número na pronúncia. Ninguém diz estudaram muitos nem havia muito questões, e o ouvido aceita esse teste com mais segurança do que aceita o s quase mudo de bastantes.
A posição na frase não muda a classe. Em motivos bastantes para recorrer, o adjetivo vem depois do nome e continua concordando com ele. Em bastante estudaram os candidatos daquela turma, o advérbio vem antes do verbo e continua invariável.
Com o verbo ser, a banca monta a armadilha mais fina. Em as provas foram bastantes para a aprovação, a palavra significa suficientes e se refere a provas: adjetivo, com s. Em as provas foram bastante cansativas, ela modifica cansativas: advérbio, sem s.
Quando bastante aparece sem nome nenhum por perto, ela pode funcionar como substantivo (a palavra que nomeia), no sentido de o suficiente. Em já comi o bastante, o artigo o anuncia o substantivo, e a forma fica no singular.
O registro informal às vezes ignora a regra e usa bastante sem s diante de qualquer nome. A norma culta, que a banca cobra, mantém a concordância: bastantes pessoas, bastantes dias, bastantes erros.
Fora do Brasil, a regra se mantém. Gramáticas de Portugal registram a mesma divisão, e um texto lisboeta escreve bastantes vezes e falou bastante do mesmo modo que um texto paulista. A concordância de bastante pertence à língua escrita comum aos dois lados do Atlântico.
Vale notar o limite do teste com muito. Em frases com sentido de suficiente, como os recursos foram bastantes, a troca por muitos soa um pouco diferente, mas o número continua o mesmo: recursos no plural pedem bastantes, porque a palavra se refere ao substantivo e não ao verbo foram.
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