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Assistir ao filme, nunca assistir o filme
No sentido de ver, o verbo assistir pede a preposição a, e a banca cobra a mesma regência escondida dentro do pronome.
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Diante da tela, o verbo assistir pede preposição
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Oconvite sai do grupo às sete da noite, com hora e sala definidas: vamos assistir o filme hoje. Ninguém responde com correção, ninguém estranha, e às oito todo mundo está sentado na poltrona certa. A frase cumpriu a função dela sem a preposição que a norma escrita exige ali.
Regência é o nome do vínculo entre o verbo e o complemento dele. Uma parte dos verbos alcança o complemento direto, sem nada no meio do caminho. Outra parte só chega lá com uma preposição de ligação, e a escolha não é decorativa: ela vem presa ao sentido, e trocar a preposição muda o que a frase afirma.
O verbo assistir é o caso mais visitado dessa lista, e por um motivo prático. Ele carrega dois sentidos de uso corrente, ver e ajudar, com a mesma grafia e a mesma conjugação. A única marca que separa um do outro na frase escrita é a preposição, e ela é justamente a parte que a fala descartou.
Existe uma segunda camada na cobrança, e ela costuma passar despercebida. Quando o complemento vira pronome, a preposição não desaparece: ela viaja junto e vai parar num lugar incômodo, na frente do que. A frase correta soa estranha para o ouvido treinado na conversa de mesa, e a errada soa impecável.
A conta chega em dois lugares. Na prova objetiva, a regência de assistir aparece na lista curta de verbos que a banca repete ano após ano, ao lado de visar, implicar, obedecer e preferir. Na redação, o corretor registra o desvio sem debate, porque o critério está publicado no edital antes da inscrição.
A questão de hoje começa pela forma como a dúvida chega, com as duas versões circulando lado a lado. Depois vem a regra que separa os sentidos do verbo em duas linhas, o que acontece com a crase quando o complemento é feminino, e o teste que resolve a frase antes de você apertar enviar.
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I A Dúvida do Dia
A preposição que a fala engole
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Duas frases com o mesmo sentido, e uma delas reprovada no gabarito. Veja onde a preposição some na fala e por que o pronome relativo cobra a mesma conta de novo.
A dúvida chega quase sempre nesta forma: assisti ao jogo ou assisti o jogo? As duas versões circulam na conversa, aparecem em legenda de post e soam naturais para a maioria dos ouvidos brasileiros.
A norma escrita reconhece uma só. Quando assistir significa ver ou presenciar, ele pede a preposição a, e a versão sem preposição entra na conta de desvio em qualquer prova que cobre regência verbal.
A origem do escorregão é simples de reconstruir. Na cabeça de quem fala, assistir é sinônimo de ver e de olhar, e esses dois vizinhos dispensam preposição. Você vê o filme, olha o jogo, e por analogia assiste o filme, com o verbo entrando no mesmo molde dos companheiros de sentido.
A banca raramente entrega a frase nua. O primeiro disfarce é o complemento feminino, porque ali a preposição some dentro do acento. Em assisti à aula e assisti à missa, o a da regência e o artigo se fundem numa letra só, e quem não enxerga a preposição também não enxerga a crase.
O segundo disfarce é o pronome relativo, e é o mais caro dos três. A construção o filme que assisti ontem passa despercebida em qualquer leitura rápida, e está errada: a preposição continua sendo exigida pelo verbo, então a forma de pé é o filme a que assisti ontem.
O terceiro disfarce é o pronome oblíquo. Como o verbo é indireto nesse sentido, ele recusa o complemento em forma de o e de a, e a construção assisti-o não existe na norma escrita. Quem quiser o pronome escreve assisti a ele, com a preposição intacta na frase.
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A fala engoliu a preposição, e o gabarito continua contando com ela inteira.
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A mesma construção circula longe da sala de prova. A linha assisti o treinamento inteiro abre relatório de equipe toda semana, e assistimos o webinar aparece na ata da reunião, no resumo enviado ao cliente e na legenda que acompanha o print do certificado.
Quem lê o relatório quase nunca comenta a preposição que falta, e quem estuda para prova não tem a mesma sorte. Ali a construção vira alternativa marcada em vermelho, com ponto perdido no espelho de correção e nenhuma chance de recurso depois do gabarito.
Vale registrar quanto o verbo aparece na rotina de quem estuda. Assistir à aula, assistir à videoaula, assistir ao plantão de dúvidas: a própria descrição do dia de estudo é feita com o verbo que a prova vai cobrar, e quase sempre escrita sem a preposição que a prova exige.
Reconhecer os três disfarces já resolve boa parte da questão. A outra parte é ter a régua pronta, curta o bastante para caber nos segundos que a prova concede a cada item e simples o bastante para funcionar às onze da noite, no fim de um email de trabalho.
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II A Regra
Ver pede preposição, ajudar não
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No sentido de ver, presenciar ou testemunhar, assistir é transitivo indireto e exige a preposição a: assistir ao filme, à aula, ao jogo, ao julgamento. No sentido de prestar assistência, socorrer ou cuidar, ele é transitivo direto e dispensa a preposição: o médico assistiu o paciente a noite inteira.
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A regra cabe em duas linhas porque o mecanismo é econômico. A língua reaproveitou a mesma palavra para dois sentidos distantes e deixou a preposição encarregada de avisar qual dos dois está em jogo na frase.
A consequência prática aparece no par mínimo. A frase o médico assistiu o paciente diz que ele cuidou do paciente. A frase o médico assistiu ao paciente diz que ele ficou olhando, e duas letras a mais mudam a cena inteira.
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"No sentido de ver, presenciar, o verbo assistir é transitivo indireto: assistimos ao desfile."
Domingos Paschoal Cegalla, Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, 2008
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A crase entra logo depois da preposição e assusta mais do que deveria. Quando o complemento é feminino e aceita artigo, o a da regência encosta no a do artigo e o acento aparece: assisti à palestra, assisti à cerimônia, assisti à final. Sem a preposição não existiria acento nenhum ali.
O pronome oblíquo segue a mesma lógica e derruba muita gente. Verbo transitivo indireto não aceita o e a como complemento, então assisti-o e assisti-a ficam fora da norma. A forma correta mantém a preposição visível: assisti a ele, assisti a ela, assisti a tudo.
O lhe merece um parágrafo próprio, porque a exceção é real. No sentido de ver, o complemento costuma ser coisa, e a norma pede a ele. O lhe volta a caber no terceiro sentido do verbo, o de pertencer por direito: assiste ao réu o direito de recorrer, ou não lhe assiste esse direito.
O terceiro sentido aparece com frequência em texto jurídico e em prova de concurso. Quando assistir significa caber ou pertencer, ele também é indireto e vem com a preposição: assiste ao trabalhador o direito à rescisão, assiste ao consumidor o prazo de arrependimento.
Os dicionários registram ainda um quarto sentido, hoje raro, em que assistir significa morar e pede a preposição em: assistiu em Lisboa por dois anos. A forma sobrevive em texto literário antigo e praticamente não aparece fora dele.
Vale dizer o que os dicionários também registram sobre o uso sem preposição. A construção assistir o filme aparece marcada como coloquial no Brasil, e ninguém deixa de ser entendido por causa dela. A prova trabalha com outro critério, a norma registrada nas gramáticas, e ali a preposição é obrigatória.
Quem não quiser a preposição tem uma saída limpa, que é trocar o verbo. As frases vi o filme, acompanhei o jogo e presenciei a cerimônia entregam a mesma informação com complemento direto, sem preposição nenhuma e sem risco de crase no caminho.
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