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ED 015

Aspiro ao cargo, mas aspiro o pó

Aspirar muda de regência quando muda de sentido, e a banca cobra justamente a troca que a fala do escritório apagou.

Uma sala de reunião de fábrica com a carta de intenção impressa sobre a mesa e o candidato à vaga de supervisão diante do gerente.

O sentido decide a preposição

 

Quatro da tarde, sala de reunião da fábrica, mesa com três copos de café e a pasta do processo seletivo aberta na frente do gerente. O candidato à vaga de supervisão entrega a carta de intenção impressa e resume o conteúdo em voz alta: aspiro o cargo de supervisor de produção desde que entrei na empresa.

Ninguém interrompe para falar de preposição. A conversa segue para turno, meta de refugo e disponibilidade para viagem, a entrevista termina no horário, e a frase cumpre o serviço sem levantar suspeita nenhuma.

Escrita, ela fica. Vai para o arquivo do candidato, para o email que o gerente encaminha ao diretor, para o modelo de carta que a área de gente e gestão distribui como exemplo, e para a questão de regência verbal que vale ponto no espelho de correção.

Aspirar é um dos verbos que trocam de regência quando trocam de sentido. No sentido de sugar, puxar para dentro, respirar, ele é transitivo direto e encosta no complemento sem intermediário: aspirar o pó, aspirar o ar frio da madrugada, aspirar a fumaça do galpão.

No sentido de almejar, desejar, pretender, ele muda de lado. Vira transitivo indireto e exige a preposição a: aspirar ao cargo, aspirar a uma vaga, aspirar à promoção que o quadro da parede promete há três anos.

A fala brasileira derrubou a preposição do segundo sentido faz tempo. Aspiro o cargo, aspiro a vaga e aspiro a chefia circulam em carta de intenção, em discurso de posse e em conversa de corredor, e o ouvido aceita as três sem piscar.

O pronome é onde a diferença aparece por escrito e sem disfarce. Quem aspira a um cargo aspira a ele, e a norma pede aspiro a ele, nunca aspiro-lhe, porque a regra do lhe tem uma exceção justamente aqui.

A questão de hoje começa pelas linhas em que a dúvida aparece lado a lado, na carta e no comunicado. Depois vem a regra que separa os dois sentidos, o pronome que não é lhe, a crase que quase nunca entra, e o teste que resolve antes de você mandar a mensagem.

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I  A Dúvida do Dia

O verbo que troca de lado

Dois sentidos do mesmo verbo, duas regências.

A dúvida aparece em quatro linhas quase iguais: aspiro o cargo, aspiro ao cargo, aspirei o pó, aspirei ao pó. As quatro saem de texto real, de carta de intenção, de manual de limpeza e de discurso de posse, e a maioria dos leitores passa pelas quatro sem parar.

Duas delas passam na norma escrita, e a divisão não é por gosto. A diferença não está no tamanho da frase nem na formalidade do texto: está no sentido que o verbo carrega em cada linha.

Aspiro ao cargo é a linha da norma quando o assunto é ambição. Aspirar com sentido de almejar é transitivo indireto, o complemento chega ligado pela preposição a, e a contração com o artigo masculino produz o ao que soa cerimonioso demais na entrevista.

Aspiro o cargo é a linha que a fala consagrou e a prova recusa. Ali o verbo aparece como se fosse transitivo direto, e a regência que a gramática registra para o sentido de desejar não admite o complemento colado.

Aspirei o pó é a linha correta do outro sentido. Quando aspirar significa sugar, puxar para dentro pelas vias respiratórias ou pela máquina, ele é transitivo direto e recusa a preposição sem hesitar.

Aspirei ao pó é a versão que ninguém escreve por acaso, e ela existe só na prova. A banca monta a frase invertida justamente para testar quem decorou preposição sem entender que o sentido é quem manda na regência.

O sentido ajuda a esconder a peça. Aspirar a um cargo parece agir sobre o cargo, como querer e pretender, que são transitivos diretos de verdade, e o falante empresta a regência do vizinho para o verbo errado.

Querer a promoção e aspirar à promoção dizem quase a mesma coisa e têm regências diferentes. O sentido próximo não decide a preposição: quem decide é o verbo, um por um, e aspirar só dispensa a preposição quando significa sugar.

O pronome é onde a diferença aparece sem chance de disfarce, e aqui mora a pegadinha mais fina do verbo. Complemento indireto costuma virar lhe, e aspirar é a exceção clássica: a norma pede aspiro a ele, aspiro a ela, nunca aspiro-lhe.

Aspiro-lhe cai por um motivo específico. O pronome lhe substitui complemento regido de a com sentido de pessoa a quem, e o cargo não é destinatário de nada, então a gramática manda usar o pronome oblíquo tônico precedido da preposição.

A banca trabalha em cima da troca. O primeiro disfarce é a preposição retirada da frase de ambição, com alternativas do tipo o vereador aspirava a prefeitura da cidade, copiadas do noticiário político.

O segundo disfarce é o pronome. A questão traz aspiro-lhe no lugar de aspiro a ele, e quem lê rápido aceita a frase porque lhe é a marca automática do complemento indireto na cabeça de qualquer candidato.

Quem escreve a carta de intenção segue a vida sem consequência. Quem presta concurso descobre o preço na hora da correção: a alternativa marcada perde o ponto, e o gabarito publicado não muda por recurso.

 
 

II  A Regra

Dois sentidos, duas regências

Aspirar com sentido de sugar é transitivo direto e recusa preposição: aspirei o pó. Com sentido de almejar é transitivo indireto e exige a preposição a: aspiro ao cargo. O complemento pronominal do segundo caso é a ele, a ela, nunca lhe.

A regra tem uma decisão só, e ela vem antes de qualquer preposição: descobrir qual dos dois sentidos está em jogo na frase. Definido o sentido, a regência é automática e não muda com o tempo verbal nem com o tamanho do período.

"Aspirar: 1. Sorver, respirar (transitivo direto): aspirar o ar puro, aspirar o perfume. 2. Desejar, pretender (transitivo indireto): aspirar a um cargo, aspirar à glória."

Celso Pedro Luft, Dicionário Prático de Regência Verbal, 1987

A gramática registra a diferença como regência verbal, não como preferência de estilo. Aspiro ao cargo e aspiro o cargo têm a mesma intenção na sala da fábrica, e só a primeira passa no texto que vai ser corrigido.

A primeira situação é a do sentido concreto, e ela é a mais simples: aspirar o pó, aspirar a fumaça, aspirar o ar da manhã, aspirar o vapor do remédio. O complemento chega colado, sem preposição e sem acento nenhum.

A segunda situação é a do sentido abstrato com complemento masculino: aspirar ao cargo, ao posto, ao título, ao reconhecimento. A preposição a encontra o artigo o e as duas se contraem no ao que a fala evita.

A terceira situação é a do complemento feminino, e ela traz a crase junto: aspirar à promoção, à vaga, à presidência, à glória. O acento grave marca a fusão da preposição exigida com o artigo do substantivo.

A quarta situação é a do complemento sem artigo, e ela dispensa o acento. Aspirar a cargos maiores, a postos de comando, a Vossa Excelência: a preposição continua obrigatória, e o acento some só porque o artigo não entrou.

A quinta situação é a do pronome, e ela é a mais cobrada em prova. O complemento indireto de aspirar não vira lhe: fica a ele, a ela, a eles, a elas, e a linha da norma é aspiro a ele, o cargo a que aspiro, o posto a que ela aspirava.

A explicação da exceção cabe numa frase. O pronome lhe cobre complemento de pessoa, o clássico a quem, e o alvo de aspirar é uma coisa desejada, não alguém que recebe algo, então a língua exige a construção com preposição.

Um vizinho fecha a lista porque cai na mesma armadilha. Visar segue o mesmo desenho: transitivo direto quando significa mirar ou pôr visto, visar o alvo, visar o cheque, e transitivo indireto quando significa ter por objetivo, visar ao lucro.

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III  O Teste

Pergunte o que o verbo faz

1. Descubra o sentido antes da preposição. Se dá para trocar o verbo por sugar, respirar ou puxar para dentro, ele é transitivo direto e o complemento entra colado. Se dá para trocar por almejar, pretender ou desejar, ele é indireto e a preposição a é obrigatória.

2. Confirme com um complemento masculino. Aspirar ao cargo fica de pé na leitura pausada, aspirar o cargo fica torto quando o sentido é ambição, e o ao é a preposição aparecendo colada ao artigo.

3. Só então decida a crase. Se o complemento é feminino e admite artigo, o acento grave entra: aspirar à promoção, aspirar à vaga. Se não admite artigo, a preposição continua sozinha: aspirar a cargos maiores.

Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que a regência verbal está de acordo com a norma. Entre as opções aparecem o servidor aspirava a chefia do setor e o servidor aspirava à chefia do setor, cercadas por duas frases longas.

Aplicado às duas, o teste resolve em segundos. O servidor não estava sugando a chefia, então o sentido é de almejar, o verbo é indireto, chefia é feminina e admite artigo, e a alternativa sem o acento grave perde o ponto.

Longe da prova, o teste serve na mesma velocidade. Antes de mandar a carta que começa com aspiro o cargo de supervisor, faça a pergunta simples: estou sugando o cargo ou desejando o cargo, e a preposição volta sozinha na frase reescrita.

O pronome entra como confirmação final. Se a frase pede a ele em vez de lhe, como em o posto a que ele aspira, você está no sentido abstrato, e a preposição na frase inteira é obrigatória do começo ao fim.

A escolha entre aspirar ao cargo e aspirar o pó não é questão de formalidade. O desvio nasce quando o sentido do verbo muda e a regência fica parada no lugar antigo.

O mesmo teste resolve os vizinhos que confundem. Almejar, pretender e desejar são transitivos diretos e recusam a preposição: almejar a promoção, pretender o cargo, desejar a vaga, todos sem acento grave e sem preposição obrigatória.

Um segundo cuidado vale para o substantivo derivado, que aparece bastante em texto de trabalho. Aspirante é quem aspira a alguma coisa, e a construção mantém a preposição: aspirante a oficial, aspirante ao cargo, aspirante à vaga de supervisão.

Aspiro ao cargo e aspirei o pó estão as duas na norma, e a linha que cai na correção é a que mudou o sentido do verbo sem mudar a regência junto.

"Na última carta, proposta ou mensagem em que você disse querer um cargo, o verbo aspirar saiu com a preposição a, ou ela ficou pelo caminho junto com o acento grave?"

 
 
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Segundo a norma escrita, qual linha traz a regência correta de aspirar no sentido de almejar?

AO supervisor aspirava o cargo de gerente
BO supervisor aspirava ao cargo de gerente
CO supervisor aspirava-lhe havia três anos
DO supervisor aspirava pelo cargo de gerente

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