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Aspiro ao cargo, mas aspiro o pó
Aspirar muda de regência quando muda de sentido, e a banca cobra justamente a troca que a fala do escritório apagou.
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O sentido decide a preposição
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Quatro da tarde, sala de reunião da fábrica, mesa com três copos de café e a pasta do processo seletivo aberta na frente do gerente. O candidato à vaga de supervisão entrega a carta de intenção impressa e resume o conteúdo em voz alta: aspiro o cargo de supervisor de produção desde que entrei na empresa.
Ninguém interrompe para falar de preposição. A conversa segue para turno, meta de refugo e disponibilidade para viagem, a entrevista termina no horário, e a frase cumpre o serviço sem levantar suspeita nenhuma.
Escrita, ela fica. Vai para o arquivo do candidato, para o email que o gerente encaminha ao diretor, para o modelo de carta que a área de gente e gestão distribui como exemplo, e para a questão de regência verbal que vale ponto no espelho de correção.
Aspirar é um dos verbos que trocam de regência quando trocam de sentido. No sentido de sugar, puxar para dentro, respirar, ele é transitivo direto e encosta no complemento sem intermediário: aspirar o pó, aspirar o ar frio da madrugada, aspirar a fumaça do galpão.
No sentido de almejar, desejar, pretender, ele muda de lado. Vira transitivo indireto e exige a preposição a: aspirar ao cargo, aspirar a uma vaga, aspirar à promoção que o quadro da parede promete há três anos.
A fala brasileira derrubou a preposição do segundo sentido faz tempo. Aspiro o cargo, aspiro a vaga e aspiro a chefia circulam em carta de intenção, em discurso de posse e em conversa de corredor, e o ouvido aceita as três sem piscar.
O pronome é onde a diferença aparece por escrito e sem disfarce. Quem aspira a um cargo aspira a ele, e a norma pede aspiro a ele, nunca aspiro-lhe, porque a regra do lhe tem uma exceção justamente aqui.
A questão de hoje começa pelas linhas em que a dúvida aparece lado a lado, na carta e no comunicado. Depois vem a regra que separa os dois sentidos, o pronome que não é lhe, a crase que quase nunca entra, e o teste que resolve antes de você mandar a mensagem.
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I A Dúvida do Dia
O verbo que troca de lado
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Dois sentidos do mesmo verbo, duas regências.
A dúvida aparece em quatro linhas quase iguais: aspiro o cargo, aspiro ao cargo, aspirei o pó, aspirei ao pó. As quatro saem de texto real, de carta de intenção, de manual de limpeza e de discurso de posse, e a maioria dos leitores passa pelas quatro sem parar.
Duas delas passam na norma escrita, e a divisão não é por gosto. A diferença não está no tamanho da frase nem na formalidade do texto: está no sentido que o verbo carrega em cada linha.
Aspiro ao cargo é a linha da norma quando o assunto é ambição. Aspirar com sentido de almejar é transitivo indireto, o complemento chega ligado pela preposição a, e a contração com o artigo masculino produz o ao que soa cerimonioso demais na entrevista.
Aspiro o cargo é a linha que a fala consagrou e a prova recusa. Ali o verbo aparece como se fosse transitivo direto, e a regência que a gramática registra para o sentido de desejar não admite o complemento colado.
Aspirei o pó é a linha correta do outro sentido. Quando aspirar significa sugar, puxar para dentro pelas vias respiratórias ou pela máquina, ele é transitivo direto e recusa a preposição sem hesitar.
Aspirei ao pó é a versão que ninguém escreve por acaso, e ela existe só na prova. A banca monta a frase invertida justamente para testar quem decorou preposição sem entender que o sentido é quem manda na regência.
O sentido ajuda a esconder a peça. Aspirar a um cargo parece agir sobre o cargo, como querer e pretender, que são transitivos diretos de verdade, e o falante empresta a regência do vizinho para o verbo errado.
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Querer a promoção e aspirar à promoção dizem quase a mesma coisa e têm regências diferentes. O sentido próximo não decide a preposição: quem decide é o verbo, um por um, e aspirar só dispensa a preposição quando significa sugar.
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O pronome é onde a diferença aparece sem chance de disfarce, e aqui mora a pegadinha mais fina do verbo. Complemento indireto costuma virar lhe, e aspirar é a exceção clássica: a norma pede aspiro a ele, aspiro a ela, nunca aspiro-lhe.
Aspiro-lhe cai por um motivo específico. O pronome lhe substitui complemento regido de a com sentido de pessoa a quem, e o cargo não é destinatário de nada, então a gramática manda usar o pronome oblíquo tônico precedido da preposição.
A banca trabalha em cima da troca. O primeiro disfarce é a preposição retirada da frase de ambição, com alternativas do tipo o vereador aspirava a prefeitura da cidade, copiadas do noticiário político.
O segundo disfarce é o pronome. A questão traz aspiro-lhe no lugar de aspiro a ele, e quem lê rápido aceita a frase porque lhe é a marca automática do complemento indireto na cabeça de qualquer candidato.
Quem escreve a carta de intenção segue a vida sem consequência. Quem presta concurso descobre o preço na hora da correção: a alternativa marcada perde o ponto, e o gabarito publicado não muda por recurso.
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II A Regra
Dois sentidos, duas regências
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Aspirar com sentido de sugar é transitivo direto e recusa preposição: aspirei o pó. Com sentido de almejar é transitivo indireto e exige a preposição a: aspiro ao cargo. O complemento pronominal do segundo caso é a ele, a ela, nunca lhe.
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A regra tem uma decisão só, e ela vem antes de qualquer preposição: descobrir qual dos dois sentidos está em jogo na frase. Definido o sentido, a regência é automática e não muda com o tempo verbal nem com o tamanho do período.
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"Aspirar: 1. Sorver, respirar (transitivo direto): aspirar o ar puro, aspirar o perfume. 2. Desejar, pretender (transitivo indireto): aspirar a um cargo, aspirar à glória."
Celso Pedro Luft, Dicionário Prático de Regência Verbal, 1987
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A gramática registra a diferença como regência verbal, não como preferência de estilo. Aspiro ao cargo e aspiro o cargo têm a mesma intenção na sala da fábrica, e só a primeira passa no texto que vai ser corrigido.
A primeira situação é a do sentido concreto, e ela é a mais simples: aspirar o pó, aspirar a fumaça, aspirar o ar da manhã, aspirar o vapor do remédio. O complemento chega colado, sem preposição e sem acento nenhum.
A segunda situação é a do sentido abstrato com complemento masculino: aspirar ao cargo, ao posto, ao título, ao reconhecimento. A preposição a encontra o artigo o e as duas se contraem no ao que a fala evita.
A terceira situação é a do complemento feminino, e ela traz a crase junto: aspirar à promoção, à vaga, à presidência, à glória. O acento grave marca a fusão da preposição exigida com o artigo do substantivo.
A quarta situação é a do complemento sem artigo, e ela dispensa o acento. Aspirar a cargos maiores, a postos de comando, a Vossa Excelência: a preposição continua obrigatória, e o acento some só porque o artigo não entrou.
A quinta situação é a do pronome, e ela é a mais cobrada em prova. O complemento indireto de aspirar não vira lhe: fica a ele, a ela, a eles, a elas, e a linha da norma é aspiro a ele, o cargo a que aspiro, o posto a que ela aspirava.
A explicação da exceção cabe numa frase. O pronome lhe cobre complemento de pessoa, o clássico a quem, e o alvo de aspirar é uma coisa desejada, não alguém que recebe algo, então a língua exige a construção com preposição.
Um vizinho fecha a lista porque cai na mesma armadilha. Visar segue o mesmo desenho: transitivo direto quando significa mirar ou pôr visto, visar o alvo, visar o cheque, e transitivo indireto quando significa ter por objetivo, visar ao lucro.
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