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ED 009

Aonde você vai, onde você está

O verbo que pede movimento chama o aonde, e o verbo que fica parado dispensa a preposição colada na frente.

Uma placa de rua com duas setas apontando para lados opostos, cada uma com uma das grafias escrita à mão, e um traço de caneta vermelha sobre a seta que aponta para uma casa parada.

O verbo escolhe a letra que gruda no onde

 

Ogrupo da família acorda às seis e meia com uma pergunta de quatro palavras: aonde vocês estão? A resposta chega em dez segundos, com a localização em tempo real anexada, e ninguém repara na primeira palavra da linha.

A pergunta funciona porque a fala não cobra a diferença. O teclado aceita as duas grafias, o leitor entende o pedido na hora, e a frase cumpre o serviço inteiro sem levantar suspeita nenhuma.

Escrita, ela perde a proteção da pressa. Vai parar no email que marca a visita ao cliente, na legenda do post, na ficha de atendimento e na questão de língua portuguesa que vale ponto no espelho de correção.

O aonde não é uma palavra sozinha. Dentro dele moram duas: a preposição a e o advérbio onde, coladas na escrita e invisíveis no som. Quem escreve aonde põe uma preposição na frase, mesmo sem querer.

A preposição não é enfeite. Ela pertence ao verbo que manda na oração, e cada verbo pede a sua: ir a, chegar a, levar a, morar em, estar em, vir de. Só o verbo decide qual peça gruda no advérbio.

A pergunta do grupo da família tem, por causa da regência, uma versão a menos do que parece. O verbo estar não pede a preposição a em lugar nenhum, e a letra colada no onde entrou sem convite de ninguém.

Fora da prova, a troca não cobra nada de quem escreve. Ela aparece no aviso da portaria, no chamado aberto no suporte, na resposta de pesquisa e na mensagem que combina o encontro de sábado.

Na prova, o item raramente chega limpo. A banca escreve um período comprido, esconde o advérbio no meio de uma oração intercalada e deixa as duas grafias a três linhas de distância uma da outra.

A questão de hoje começa pelo formato em que a dúvida aparece na tela. Depois vem a regra que cabe em uma linha, o caso do onde que não fala de lugar nenhum, e a troca de dez segundos que resolve antes de você apertar enviar.

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I  A Dúvida do Dia

Duas grafias para a mesma pergunta

Duas grafias do mesmo advérbio, e o verbo decide qual delas cabe.

A dúvida aparece na tela com as duas grafias na mesma linha: aonde você vai ou onde você vai? As duas circulam em mensagem de trabalho, em prova e em conversa de porta de elevador, e a maioria dos leitores passa por elas sem parar.

A norma escrita reconhece as duas, e não no mesmo lugar. Cada uma pertence a um tipo de verbo, e o verbo da frase é quem entrega qual delas cabe ali.

Onde marca o lugar em que alguém está ou em que algo acontece, sem deslocamento nenhum: onde você mora, onde fica a agência, a sala onde a prova começa às sete.

Aonde marca o destino, e ele aparece quando o verbo pede a preposição a: aonde você vai, aonde essa rua leva, aonde ele quer chegar com uma pergunta dessas.

A origem do escorregão está no ouvido. Aonde tem uma sílaba a mais, soa mais completo e mais formal, e a forma mais longa acaba escolhida por quem quer escrever bem em um campo de formulário.

Com o reforço da fala, o aonde invade a frase parada: aonde você está, aonde fica o banheiro, a cidade aonde eu nasci. Em toda linha dessa família, a preposição entrou sem nenhum verbo ter pedido.

O aonde não é o onde mais elegante: ele é o onde com uma preposição colada na frente, e a preposição pertence ao verbo, nunca ao tom que a frase quer ter.

O desvio inverso também circula, e ele é mais discreto. Onde você vai depois do almoço deixa o verbo ir sem a preposição que a regência dele exige, e a frase passa despercebida em qualquer conversa.

Existe ainda uma terceira família, que quase ninguém lembra. Verbos de origem pedem de, e o advérbio vira de onde: de onde você veio, de onde saiu a informação, de onde vem o barulho.

A banca conhece os três casos e trabalha em cima deles. O primeiro disfarce é a distância, com uma oração inteira entre o verbo e o advérbio, como em aonde, depois de tudo que ele prometeu, essa proposta nos leva.

O segundo disfarce é o onde que não fala de lugar. Em a reunião onde decidimos o corte, o advérbio aparece preso a um evento, e a norma escrita pede em que ou na qual no lugar dele.

Longe da sala de prova, a troca não custa nada a quem escreve. Ela aparece no email que marca a visita, na descrição da vaga, no aviso colado no elevador e na legenda que anuncia o próximo destino.

Quem lê a legenda não comenta a grafia, e quem presta concurso descobre o custo de outro jeito: a linha vira alternativa marcada em vermelho, o ponto sai da conta e o gabarito publicado não aceita recurso.

 
 

II  A Regra

O A que só entra com movimento

Onde indica o lugar em que se está ou em que algo acontece. Aonde é a soma de a mais onde, e ela só entra quando o verbo da frase pede a preposição a. Quem escolhe a peça é o verbo, nunca o tom da frase.

A regra tem uma decisão só, e ela não depende do tamanho do período. Olha-se o verbo que manda na oração e pergunta-se qual preposição ele exige, porque a resposta é a peça que gruda no advérbio.

"Aonde exprime movimento ou aproximação e se emprega com verbos que dão ideia de deslocamento: Aonde vais? Onde exprime o lugar em que se está: Onde estás?"

Domingos Paschoal Cegalla, Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, 2008

A gramática registra a diferença como regência, não como estilo. Onde é advérbio de lugar, e o a que aparece na frente dele em aonde é a preposição exigida pelo verbo, escrita colada por convenção.

A primeira situação é a do movimento, e ela cobre a maioria das ocorrências: aonde você vai, aonde essa trilha leva, aonde chegamos com o orçamento atual, aonde o projeto nos conduziu.

A lista de verbos dessa família é curta e fácil de reconhecer: ir, chegar, levar, conduzir, dirigir-se, retornar. Todos pedem a preposição a antes do lugar, e todos aceitam o aonde na pergunta.

A segunda situação é a da permanência, e ela dispensa a preposição: onde você mora, onde fica o cartório, onde a reunião acontece, onde o documento estava guardado desde março.

Os verbos dessa família pedem em, e o em não aparece grudado no advérbio. Estar em, morar em, ficar em: em todos eles, a forma escrita é onde, sem letra nenhuma na frente.

A terceira situação é a da origem, e ela usa outra preposição: de onde você veio, de onde saiu a informação, de onde partiu a decisão que mudou o cronograma da obra.

A quarta é a da passagem, com o mesmo desenho: por onde você entrou, por onde o cabo passa, por onde a água escorreu no segundo andar.

A quinta situação não fala de lugar nenhum, e ela é a que mais rende questão. Quando o advérbio se prende a tempo, a evento ou a texto, a norma escrita troca onde por em que, no qual ou na qual.

A frase o ano onde tudo mudou e a linha a cláusula onde ele assinou pedem a mesma correção: o ano em que tudo mudou, a cláusula na qual ele assinou. O onde fica reservado ao espaço físico.

A hipercorreção nasce da metade da regra. Quem aprende que aonde marca movimento às vezes o instala em toda frase com verbo, e escreve aonde eu moro, aonde a agência fica, aonde ele trabalha.

Uma grafia fecha a lista, e ela nunca aparece separada. A onde escrito com espaço não existe na norma: a preposição e o advérbio se fundem em uma palavra só, aonde, quando o verbo pede a preposição a.

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III  O Teste

A troca que resolve no teclado

1. Ache o verbo que manda na frase e pergunte a ele qual preposição ele exige. Ir e chegar pedem a, morar e estar pedem em, vir e sair pedem de, passar pede por.

2. Cole no advérbio exatamente a preposição que o verbo pediu. A mais onde vira aonde, de mais onde vira de onde, por mais onde vira por onde. Se o verbo pediu em, o onde fica sozinho.

3. Confira se o lugar é lugar. Se o advérbio estiver preso a um ano, a uma reunião ou a um artigo de lei, troque onde por em que, e a linha volta para a norma.

Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que o emprego do advérbio de lugar está de acordo com a norma. Entre as opções aparecem aonde você mora e aonde essa rua leva, cercadas por duas frases longas.

Aplicado às duas, o teste resolve em segundos. Morar pede em e não aceita a letra colada, levar pede a e exige a forma fundida, e a leitura inteira do período não é necessária para marcar a alternativa.

O teste funciona porque ele ataca a regência, e não a frase inteira. Nenhuma reescrita é necessária: pergunta-se ao verbo qual preposição ele quer, escreve-se a peça pedida e a informação continua igual.

Ele também dispensa a memória da nomenclatura. Não é preciso lembrar a classificação do advérbio nem o nome do adjunto para acertar a linha: basta ouvir o verbo e escrever a preposição que ele já usaria.

Longe da prova, a troca serve na mesma velocidade. Antes de mandar o email que diz aonde você está agora, pergunte ao verbo estar qual preposição ele pede, e a resposta apaga o a da frente: onde você está agora.

O mesmo teste resolve as construções que não falam de endereço, e elas caem tanto quanto: aonde essa conversa nos leva, de onde veio a planilha, por onde começa a auditoria.

Um cuidado fecha o teste, e ele é o mais fácil de esquecer. A pergunta pode começar pelo advérbio e o verbo aparecer três palavras depois: aonde, com o trânsito de sexta, essa estrada vai dar?

Um segundo cuidado vale para a fala. Ninguém precisa corrigir a pergunta do grupo em voz alta: a norma escrita cobra a peça no texto, e o texto é o lugar em que a letra aparece.

Aonde você vai e onde você está trazem o mesmo advérbio e não aceitam a mesma peça, porque a preposição colada na frente dele pertence ao verbo que manda na frase.

"No último email em que você marcou um lugar, foi o verbo que pediu a preposição, ou você colou o a no onde por hábito?"

 
 
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