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Anti-inflamatório tem hífen e autoescola não tem
O hífen entra quando o prefixo termina na mesma vogal que abre a palavra seguinte, e some quando as vogais mudam.
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As duas grafias na mesma ficha
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Sete e meia da manhã, balcão de uma autoescola de bairro, a atendente termina o informativo que vai grampeado na ficha de cada aluno novo e manda imprimir trinta cópias antes da primeira turma chegar. Na terceira linha, o texto avisa que o candidato com dor lombar deve declarar uso de anti inflamatório antes da aula prática.
A grafia saiu com as duas palavras soltas, sem hífen e sem junção, e o nome da própria escola apareceu duas linhas acima escrito auto escola, separado do mesmo jeito. O dono leu a folha no fim do dia e perguntou se as duas expressões seguiam a mesma regra, já que as duas começam com prefixo curto e nenhuma delas é palavra estranha.
A norma não olha o sentido do prefixo, nem o tamanho da palavra, nem a área em que ela é usada. Ela olha a fronteira entre as duas peças, a letra que fecha o prefixo e a letra que abre o segundo elemento, e o encontro dessas duas letras resolve o caso sem depender de nada mais.
Anti termina em i e inflamatório começa em i. Vogais iguais no encontro, hífen obrigatório. Auto termina em o e escola começa em e. Vogais diferentes no encontro, as duas peças se juntam numa palavra só, sem hífen e sem espaço no meio.
O incômodo vem de uma leitura pela metade da reforma que entrou em vigor em 2009, conhecida no boca a boca como a reforma que acabou com o hífen. Ela derrubou muito caso antigo, manteve firme a regra do encontro de vogais iguais, e quem guardou só a manchete passou a escrever antiinflamatório e autoescola pela mesma lógica de sempre juntar.
A banca de concurso vive dessa metade e quase nunca cobra um prefixo isolado. Ela monta uma linha de texto administrativo com dois ou três compostos de vogal no encontro, distribui as palavras em pontos afastados do enunciado e espera que o candidato uniformize a decisão por instinto de simetria.
A questão de hoje começa pelas grafias que circulam em bula de farmácia, ficha de matrícula e comunicado interno, com a pergunta de quais sobrevivem à correção. Depois vem a regra do encontro de vogais que separa as duas palavras, e o teste que resolve cada composto antes de o informativo ir para a impressora.
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I A Dúvida do Dia
Anti-inflamatório e autoescola na mesma ficha
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Duas palavras, um sinal só.
A dúvida cabe em quatro linhas quase idênticas: anti-inflamatório e autoescola, antiinflamatório e autoescola, anti-inflamatório e auto-escola, anti inflamatório e auto escola. As quatro saem de material real, de bula de farmácia, de ficha de matrícula, de comunicado interno e de anúncio de clínica.
Só a primeira passa na norma escrita e as outras três caem na correção, e a divisão não tem nada a ver com o assunto do documento nem com o grau de formalidade dele. O que decide é o encontro entre a última letra do prefixo e a primeira letra do segundo elemento, e esse encontro é fixo em cada palavra.
Anti-inflamatório e autoescola é a única linha correta. O i de anti bate no i de inflamatório e pede o hífen, o o de auto bate no e de escola e não pede nada, e as duas palavras convivem no mesmo parágrafo com tratamentos diferentes sem que a frase perca a costura.
Antiinflamatório e autoescola é o desvio mais comum do texto de clínica. Ele nasce da vontade de dar o mesmo tratamento aos dois compostos, e a sequência de dois ii colados não tem nada que a sustente, porque a norma reserva exatamente esse encontro para o hífen.
Anti-inflamatório e auto-escola é o desvio contrário e vem de quem tem medo de errar por juntar. Quem já levou correção por colar duas palavras passa a inserir o sinal em todo composto que vê pela frente, e acaba enfiando um hífen no único dos dois que a regra manda juntar.
Anti inflamatório e auto escola é a versão que abandona os dois de uma vez. Ela aparece em texto digitado com pressa e revisado no olho, é a que estava no informativo da autoescola de bairro, e prefixo não vive solto na frente de palavra nenhuma no português escrito.
A vizinhança do formulário amplia o problema porque o mesmo documento traz outros compostos no mesmo dia. Micro-ondas, semi-interno, anti-ibérico e contra-almirante seguem a regra da vogal igual, e antiaéreo, autoestrada, agroindústria e semiaberto seguem a regra da vogal diferente, sem exceção escondida no meio.
A bula de farmácia é onde a linha custa mais caro. A palavra anti-inflamatório aparece na embalagem, na tarja, na posologia e na lista de contraindicações, e uma grafia errada no primeiro campo se propaga para todos os outros pelo copiar e colar do arquivo de aprovação.
O par com nome de curso multiplica a armadilha na prova. O item traz autoescola credenciada no primeiro período e uso contínuo de anti-inflamatório três linhas abaixo, afasta as duas palavras de propósito e conta que o candidato compare a memória visual da primeira com a segunda em vez de olhar as vogais do encontro.
Quem grampeia o informativo com as duas palavras soltas atende a turma da semana inteira sem consequência nenhuma. Quem presta concurso descobre o preço na correção, porque o item costuma trazer exatamente a linha uniformizada entre as alternativas, e ela é a única que não sobrevive a uma leitura atenta do gabarito.
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II A Regra
A vogal do encontro decide o hífen
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Prefixo terminado na mesma vogal que abre o segundo elemento exige hífen, e prefixo terminado em vogal diferente se junta ao segundo elemento numa palavra só. O que decide é o par de letras da fronteira, e nunca o sentido do prefixo.
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A regra tem duas decisões e as duas são rápidas. A primeira é achar a fronteira, o ponto exato em que o prefixo acaba e o segundo elemento começa. A segunda é comparar a letra de cada lado dessa fronteira, e a grafia sai dessa comparação sozinha.
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"Emprega-se o hífen nas formações em que o prefixo ou falso prefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-assinado, micro-ondas, semi-interno, supra-auricular."
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, Base XVI, 1990
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O texto do acordo trata o hífen como marca de leitura, e não como enfeite de composto. Ele existe para impedir a sequência de duas vogais iguais coladas, que atrapalha a leitura e cria palavra de aparência estrangeira, e por isso sobrevive em casos que a reforma de 2009 poderia ter derrubado.
A primeira situação é a da vogal igual no encontro, a que puxa o sinal: anti-inflamatório, micro-ondas, semi-interno, contra-ataque, arqui-inimigo. Todas trazem a mesma letra dos dois lados da fronteira e todas recebem o hífen, sem depender da área técnica em que a palavra circula.
A segunda situação é a da vogal diferente no encontro, a que fecha a porta do sinal: autoescola, antiaéreo, autoestrada, semiaberto, agroindústria, infraestrutura. Nenhuma delas admite o hífen, e as duas peças viram uma palavra só, escrita sem espaço e sem sinal no meio.
A terceira situação é a da consoante repetida, que segue a mesma lógica do encontro igual. Super-resistente, inter-regional e hiper-requintado levam o sinal porque a letra final do prefixo é a mesma que abre o segundo elemento, e o desenho da decisão é idêntico ao das vogais.
A quarta situação é a do segundo elemento começado por h, que também exige o sinal e derruba muita gente no mesmo item. Anti-higiênico, super-homem e extra-humano ficam com hífen porque o h pede separação, mesmo com vogais diferentes na fronteira.
Um detalhe fecha o quadro e resolve a dúvida da bula. Quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou por s, o composto se junta e a consoante dobra, como em antirrugas, antissocial, autorretrato e ultrassom, e o hífen fica fora da conta.
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