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ED 020

À vista leva crase e a prazo não leva

A locução adverbial feminina recebe o acento grave mesmo sem palavra feminina na frente, e a prazo fica sem sinal.

Placa de condição de pagamento colada no vidro do caixa de uma loja de móveis planejados.

As duas formas na mesma placa

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Dez da manhã, loja de móveis planejados de rua, uma folha A4 impressa no dia anterior colada no vidro do caixa com fita crepe nas quatro pontas. A linha em corpo grande anuncia a condição de pagamento: aceitamos à vista ou à prazo, com desconto de doze por cento na primeira opção.

A gerente mandou imprimir cinquenta cópias para as outras unidades antes de alguém reparar na linha. Uma vendedora recém saída de um cursinho de concurso apontou o segundo acento e disse que aquele ali sobrava, e a discussão no balcão durou o tempo de dois atendimentos.

O sinal não olha para a função da expressão nem para o paralelismo da frase. Ele olha para uma única coisa, o gênero da palavra que está dentro da locução, e as duas expressões da placa se separam nesse ponto sem apelo possível.

Vista é substantivo feminino. Prazo é substantivo masculino. A locução adverbial montada sobre a palavra feminina recebe o acento grave por registro de gramática, e a montada sobre a palavra masculina fica com o a limpo, sem sinal nenhum, mesmo colada na primeira dentro da mesma oração.

O incômodo que sobra vem de uma explicação de escola cortada pela metade. Muita gente aprendeu que crase é fusão da preposição com o artigo feminino e passou a procurar uma palavra feminina depois do a antes de acentuar, e em à vista não existe palavra nenhuma depois, só o ponto final ou a vírgula.

A banca de concurso vive desse desconforto e quase nunca cobra a expressão sozinha. Ela monta um contrato, um edital ou um comunicado interno, joga as duas condições de pagamento na mesma linha e pede a alternativa correta, contando que o candidato uniformize os dois acentos por instinto de simetria.

A questão de hoje começa pelas versões que circulam em placa de loja, contrato de compra e proposta comercial, com a pergunta de quais sobrevivem à correção. Depois vem a regra que explica por que a locução feminina recebe o sinal sem precisar de palavra na frente, e o teste que resolve a linha antes de a folha ir para a impressora.

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I  A Dúvida do Dia

À vista e a prazo na mesma placa

Uma placa, dois acentos.

A dúvida cabe em quatro linhas quase idênticas: pagamento à vista ou a prazo, pagamento à vista ou à prazo, pagamento a vista ou a prazo, pagamento a vista ou à prazo. As quatro saem de material real, de placa de loja, de rodapé de contrato, de proposta comercial e de anúncio de classificados.

Só a primeira passa na norma escrita e as outras três caem na correção, e a divisão não tem nada a ver com o tipo de documento nem com o valor da venda. O que decide é o gênero da palavra que forma cada locução, e ele é fixo, não muda de uma frase para outra.

Pagamento à vista ou a prazo é a única linha correta. Vista é feminina e puxa o acento grave da locução adverbial, prazo é masculino e não tem como puxar acento nenhum, e as duas expressões convivem na mesma oração com sinais diferentes sem que a frase perca a costura.

Pagamento à vista ou à prazo é o desvio mais comum do comércio brasileiro. Ele nasce da vontade de deixar as duas condições com a mesma cara, e o acento sobre o a de prazo não tem nada que o sustente, porque não existe artigo feminino para se fundir com a preposição.

Pagamento a vista ou a prazo é o desvio contrário e vem de quem tem medo de crase. Quem já levou correção por acentuar demais passa a evitar o sinal em todo lugar, e acaba tirando o grave da única locução da frase que precisava dele.

Pagamento a vista ou à prazo é a versão que inverte os dois de uma vez. Ela aparece menos, quase sempre em texto digitado com pressa e revisado no olho, e é a linha que a banca gosta de esconder no meio de quatro alternativas parecidas.

A vizinhança da placa amplia o problema porque a mesma loja escreve outras locuções no mesmo dia. À noite, à tarde, às pressas e à mão seguem a regra da palavra feminina, e a pé, a lápis, a cavalo e a bordo seguem a regra da palavra masculina, sem exceção escondida.

O contrato de compra é onde a linha custa mais caro. A cláusula que descreve a forma de pagamento costuma repetir as duas condições três ou quatro vezes ao longo do documento, e um acento errado no primeiro parágrafo se propaga para todas as repetições pelo copiar e colar.

O par com desconto multiplica a armadilha na prova. O item traz pagamento à vista com desconto de doze por cento e parcelamento a prazo em dez vezes, distribui as duas expressões em linhas afastadas, e o candidato compara a memória visual da primeira com a segunda em vez de olhar o gênero de cada núcleo.

Quem cola a placa com os dois acentos vende móvel a semana inteira sem consequência nenhuma. Quem presta concurso descobre o preço na correção, porque o item costuma trazer exatamente a linha uniformizada entre as alternativas, e ela é a única que não sobrevive a uma leitura atenta do gabarito.

 
 

II  A Regra

O acento marca a locução, não a palavra

Locução adverbial formada com palavra feminina recebe o acento grave por registro de gramática, mesmo sem substantivo depois dela. O que decide é o gênero do núcleo da expressão, e não a existência de uma palavra feminina na frente do a.

A regra tem duas decisões e as duas são rápidas. A primeira é reconhecer que a expressão é uma locução, um bloco fixo que funciona como advérbio dentro da frase. A segunda é olhar o gênero da palavra que forma esse bloco, e o acento sai dessa checagem sozinha.

"Emprega-se o acento grave indicativo da crase nas locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas constituídas de palavra feminina: à noite, à vista, à força, à toa, às pressas, à medida que."

Michaelis, Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, 2015

O dicionário registra o acento da locução feminina como marca de leitura, e não como fusão que precise de artigo visível. Ele existe para separar o bloco adverbial de um a solto de preposição, e por isso sobrevive em expressões que não têm palavra nenhuma depois, como à toa e às pressas.

A primeira situação é a da locução de tempo, a mais frequente em texto de trabalho: à noite, à tarde, às dez horas, às vezes. Todas trazem palavra feminina no núcleo e todas recebem o grave, mesmo quando a frase termina logo depois delas.

A segunda situação é a da locução de modo, que responde como a ação foi feita: à mão, à força, às escondidas, à vontade. O desenho é o mesmo, com núcleo feminino puxando o acento, e o teste de gênero resolve cada uma em um segundo.

A terceira situação é a das locuções masculinas, que fecham a porta do acento: a pé, a lápis, a cavalo, a bordo, a prazo, a crédito. Nenhuma delas admite o sinal, e o a que aparece nelas é preposição pura, sem artigo para se fundir.

A quarta situação é a do a antes de verbo, que também trava o acento e derruba muita gente no mesmo item. A partir de, a começar por e a pagar em dez vezes ficam sem sinal, porque verbo no infinitivo não admite artigo na frente.

Um detalhe fecha o quadro e resolve a dúvida de contrato. Quando a locução vem no plural, o acento acompanha o artigo plural, como em às escondidas e às pressas, e a placa que anuncia condições em duas modalidades continua com o grave só do lado feminino.

Um vizinho ajuda a fixar o desenho e vale a pena guardar. O par à distância e a distância convive nas duas formas dependendo da especificação que vem depois, mas o mecanismo é o mesmo, o gênero do núcleo, e nunca a simetria com a expressão ao lado.

 
 

III  O Teste

Olhe o gênero do núcleo, nada além

1. Isole a expressão inteira antes de olhar o acento. Pagamento à vista tem a locução à vista, e pagamento a prazo tem a locução a prazo, e cada uma se resolve sozinha, sem consultar a que está do lado dentro da mesma frase.

2. Pergunte o gênero da palavra que forma o bloco. Vista é feminina, então o acento grave entra, e prazo é masculino, então o a fica limpo, e essa checagem funciona igual em à mão, a lápis, à noite e a cavalo.

3. Releia a frase toda procurando a segunda ocorrência da mesma expressão. Contrato e proposta repetem a condição de pagamento em cláusulas diferentes, e uma linha corrigida no começo do documento não conserta a cópia que ficou três parágrafos abaixo.

Na prova, o item costuma chegar assim: assinale a alternativa em que o emprego do acento grave está de acordo com a norma. Entre as opções aparecem pagamento à vista ou a prazo e pagamento à vista ou à prazo, cercadas por cláusulas contratuais longas que atrasam a comparação.

Aplicado às duas, o teste resolve em segundos. A primeira acentua só o núcleo feminino e sobrevive, a segunda acentua uma palavra masculina e cai, e a alternativa correta se destaca sem depender de releitura do período inteiro.

Longe da prova, o teste serve na mesma velocidade. Antes de mandar a folha da condição de pagamento para a impressora com os dois acentos iguais, aponte o dedo na palavra vista e na palavra prazo, e a linha volta para a norma antes de virar cinquenta cópias nas outras unidades.

O texto comercial pede um cuidado extra, e ele é mecânico. Quando a mesma proposta trouxer à vista no título e a prazo na tabela de parcelas, revise os dois pontos em leituras separadas, porque a memória visual do primeiro acento é o que contamina o segundo.

A escolha entre à vista e a prazo não é questão de ouvido nem de formalidade do documento. O desvio nasce da tentativa de dar a mesma aparência às duas condições, e a sensação de que falta um acento no lado masculino vem de uma regra encurtada, que ensinou a fusão e omitiu a lista das locuções.

Pagamento à vista ou a prazo é a única linha das quatro que passa, e a que cai na correção é a que tentou dar o mesmo acento a uma palavra feminina e a uma palavra masculina.

"No último contrato ou proposta que você escreveu com as duas condições de pagamento, o acento saiu do gênero de cada palavra, ou saiu da vontade de deixar as duas linhas iguais?"

 
 
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Na frase pagamento à vista ou a prazo, por que vista recebe acento grave e prazo nao recebe nenhum sinal?

APorque vista abre a frase e prazo fica no meio
BPorque vista e substantivo feminino e prazo e substantivo masculino
CPorque a locucao com vista e mais antiga na lingua
DPorque prazo já tem a letra a no inicio da palavra
 
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