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ED 037
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A preposição que some quando visar muda de sentido

Visa ao cargo pede a preposição, visa o cheque não: almejar exige o a, assinar e mirar entram direto no complemento.

Frase de edital com um a minusculo escrito a caneta entre o verbo visar e o complemento.

A preposição que o revisor cobrou no edital

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“O projeto visa melhorar o atendimento ao público." Foi a frase que o revisor devolveu marcada, com um "a" minúsculo escrito à caneta no vão entre visa e melhorar.

A frase estava clara, o verbo estava no tempo certo, o complemento dizia exatamente o que precisava dizer. O que rendeu a marca de caneta foi uma letra que não estava lá. Em português, o verbo visar troca de regência conforme o sentido que carrega na frase, e um dos três sentidos exige preposição enquanto os outros dois a recusam.

Os três sentidos convivem no vocabulário de escritório sem que ninguém repare na diferença. Visar é mirar, apontar a direção de um tiro ou de uma lente. Visar é também apor o visto, carimbar, assinar de próprio punho um documento que precisa de conferência. E visar é almejar, ter em vista, perseguir um objetivo que ainda não chegou.

Nos dois primeiros casos, o verbo pega o complemento direto, sem nada entre eles: o atirador visou o alvo, o gerente visou o cheque. No terceiro, o verbo pede a preposição a antes do complemento: a empresa visa ao lucro, o candidato visa ao cargo, o programa visa à redução da fila.

A origem do verbo explica a bifurcação. Visar vem do latim videre, ver, pela mesma família que deu visto, visão e visor. O sentido concreto de dirigir o olhar para um ponto veio primeiro e ficou com o complemento direto, herdado do uso antigo. O sentido abstrato de perseguir um objetivo chegou depois, por analogia, e trouxe junto a preposição que a língua usa para marcar destino e alvo distante.

Quem redige contrato, ata e relatório de projeto esbarra no sentido abstrato quase todo dia, porque a frase de objetivo é justamente onde o verbo mora: o plano visa a, a medida visa a, o edital visa a. A fala corrente derruba a preposição sem cerimônia, o texto formal não tem esse direito, e a banca sabe disso.

O item de prova costuma armar a comparação dentro de um mesmo parágrafo de documento, com um uso concreto e um uso abstrato separados por poucas linhas, para ver quem marca a preposição nos dois e quem não marca em nenhum. A dúvida de hoje monta esse parágrafo. Depois vem a regra que separa os três sentidos e o teste que resolve a regência sem consultar gramática.

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I  A Dúvida do Dia

Quatro frases de edital e a preposição que aparece só em duas

Um mesmo verbo, três sentidos, duas regências diferentes.

As frases são estas: O programa visa reduzir a fila; O programa visa à redução da fila; O chefe visou o cheque na sexta; A comissão visa o preenchimento das vagas. Duas passam sem discussão, uma passa com ressalva e a última é a que o revisor devolve marcada.

A segunda frase é a versão que nenhum corretor contesta. O verbo está no sentido de almejar, o complemento é um substantivo, a preposição está no lugar e a crase aparece porque redução é palavra feminina precedida de artigo. Alvo abstrato com substantivo na frente pede preposição sempre.

A quarta frase tem o mesmo sentido e o mesmo tipo de complemento, e mesmo assim saiu sem a preposição. É o caso mais comum de todos, porque o ouvido brasileiro não sente falta do a diante de um substantivo masculino. A comissão visa ao preenchimento das vagas seria a forma que o edital pede.

A terceira frase está correta justamente por não ter preposição. Visar ali significa apor o visto, conferir e assinar, e nesse sentido o verbo pega o complemento direto. Escrever que o chefe visou ao cheque inverte o problema e cria um erro de sinal trocado, com preposição sobrando onde ela não cabe.

A primeira frase é a que gera briga entre professores. O complemento é um verbo no infinitivo, não um substantivo, e boa parte das gramáticas aceita a supressão da preposição diante de infinitivo por economia de construção. A forma com preposição, visa a reduzir, continua sendo a preferida da norma culta, e é ela que a banca marca como certa quando precisa escolher uma.

O que decide a regência, então, não é o verbo isolado na frase. É o sentido que ele carrega naquela linha específica, e o sentido se descobre pelo complemento. Alvo físico ou documento conferido pedem complemento direto. Objetivo perseguido pede preposição.

O deslize ganha força no texto de projeto porque a frase de objetivo se repete dezenas de vezes no mesmo documento. Quem erra o primeiro visar erra os outros trinta por consistência interna, e o revisor recebe um arquivo com o mesmo furo distribuído da capa ao anexo.

Há ainda o caminho que o redator experiente usa quando a preposição pesa na leitura: trocar o verbo. Tem por objetivo, pretende, busca e destina-se a resolvem a mesma ideia com regência mais simples. A troca vale no documento, não vale na prova, porque na prova a alternativa cobra o verbo que está escrito no enunciado.

 
 

II  A Regra

Almejar pede a preposição, mirar e assinar dispensam

Visar no sentido de almejar, ter em vista, perseguir objetivo é transitivo indireto e pede a preposição a antes do complemento: visa ao cargo, visa à redução, visa aos resultados. Visar no sentido de mirar (apontar) e no sentido de apor o visto (assinar, conferir) é transitivo direto e recebe o complemento sem preposição nenhuma: visou o alvo, visou o cheque.

A verificação tem dois movimentos. O primeiro é descobrir qual dos três sentidos está em jogo naquela linha. O segundo é olhar se o complemento é substantivo ou verbo no infinitivo, porque a exigência afrouxa diante de infinitivo e endurece diante de substantivo.

"Visar, na acepção de ter em vista, ter como objetivo, constrói-se com a preposição a; nas acepções de mirar, apontar e de pôr o visto, constrói-se com objeto direto."

Celso Pedro Luft, Dicionário Prático de Regência Verbal, 1987

A entrada do dicionário organiza a dúvida em uma linha, e o detalhe está na palavra acepção. A regência não pertence ao verbo, pertence ao sentido do verbo dentro da frase. Trocar o sentido troca a estrutura, e o mesmo verbo passa a exigir outra construção sem mudar uma letra da grafia.

A preposição traz junto duas consequências de escrita que a banca gosta de cobrar. Diante de substantivo feminino com artigo, o a da preposição se funde ao artigo e vira crase: visa à economia de papel, visa à ampliação do prazo. Diante de masculino, a fusão produz ao: visa ao equilíbrio das contas.

A segunda consequência aparece na troca do complemento por pronome. Verbo transitivo indireto não aceita o pronome o ou a como complemento, ele pede lhe: quanto ao cargo, o candidato visa a ele, nunca o candidato visa-o. O pronome errado no lugar do complemento denuncia a regência errada mesmo quando a preposição foi escrita corretamente na frase anterior.

O infinitivo é o ponto onde as gramáticas divergem, e vale saber o tamanho da divergência. Manuais de redação oficial e gramáticas normativas registram a supressão da preposição diante de infinitivo como construção aceita no uso corrente, e a mesma bibliografia recomenda manter o a no texto formal. O item de prova, quando oferece as duas formas na mesma alternativa, marca a que tem preposição.

Um cuidado final separa o verbo de um parente próximo. Visualizar não é sinônimo de visar em nenhum dos três sentidos, e a troca aparece em relatório de projeto com frequência. Visualizar é formar imagem mental ou exibir na tela; quem escreve que o programa visualiza a redução da fila trocou o verbo, não a preposição.

 

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III  O Teste

Troque por pretender, depois troque por assinar

1. Substitua visar por pretender ou almejar dentro da frase. Se a troca mantém o sentido, o verbo está na acepção abstrata e o complemento pede a preposição a antes dele, com crase quando o substantivo for feminino com artigo.

2. Não funcionando a primeira troca, substitua por assinar, conferir ou apontar. Se alguma delas encaixa, o verbo está na acepção concreta e o complemento entra direto, sem preposição, do mesmo jeito que entraria depois de assinar.

3. Confirmada a acepção abstrata, olhe o complemento. Substantivo exige a preposição escrita, sem margem. Infinitivo admite a supressão no uso corrente, e o texto formal mantém o a, que é a forma cobrada no gabarito.

Na prova, o enunciado costuma chegar em forma de parágrafo de documento com dois usos do mesmo verbo, seguido do pedido para assinalar a alternativa em que a regência respeita a norma padrão. Entre as opções aparecem uma frase de objetivo sem preposição, uma de visto com preposição indevida e uma de infinitivo com o a mantido.

Aplicado às frases da abertura, o teste resolve cada uma em segundos. O programa pretende a redução, logo a preposição era obrigatória na quarta frase e faltou. O chefe assinou o cheque, logo a terceira frase estava certa sem preposição nenhuma. O programa pretende reduzir, logo a primeira passa, e a versão com a mantido é a que a banca prefere.

Longe do gabarito, o mesmo raciocínio limpa o documento inteiro. O redator localiza cada ocorrência do verbo no arquivo, aplica as duas trocas, corrige a regência e decide se mantém o verbo ou troca por tem por objetivo, que carrega a mesma ideia e dispensa a discussão da preposição.

A regência errada não atrapalha o entendimento da frase, e é por isso que ela sobrevive tanto tempo em documento oficial. Ela cobra o preço em outro lugar: o leitor entende o objetivo do projeto e percebe, na mesma linha, que o texto foi escrito por quem não domina a regra que o cargo pressupõe.

Das quatro frases de abertura, a que saiu marcada foi a mais parecida com a fala de reunião, e a que passou sem preposição estava certa justamente porque significava assinar, o sentido que quase ninguém lembra que o verbo tem.

Confira antes de fechar o documento: se visar na frase significa pretender, assinar ou apontar,
se o complemento da acepção de pretender está precedido de a, ao ou à,
se o pronome que substitui esse complemento é lhe, e não o ou a.

"No último relatório que você escreveu, a frase de objetivo levou a preposição?"

 
 

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No parágrafo do edital, qual das quatro frases o revisor devolveu marcada?

AO programa visa reduzir a fila
BO programa visa à redução da fila
CO chefe visou o cheque na sexta
DA comissão visa o preenchimento das vagas

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