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2 leitores escolheram Crase facultativa. Aqui está.
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A Paula ou à Paula: a crase que a norma deixa em aberto
Antes de nome de mulher, antes de possessivo feminino e depois de até, o acento é opcional e as duas grafias passam na prova.
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O acento riscado na margem do relatório
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O revisor riscou o acento de "Entreguei o relatório à Paula" e anotou na margem: crase indevida. A frase estava certa antes do risco e continuou certa depois dele. Diante de nome próprio feminino, o acento grave (o sinal inclinado que marca a crase) é opcional, e as duas grafias valem.
Crase é a fusão de dois a num só: a preposição a, pedida pelo verbo, e o artigo feminino a, que acompanha o substantivo. Quem entrega, entrega a alguém, e a preposição vem daí. Se o substantivo aceita artigo, os dois se juntam e o acento aparece.
A dúvida nasce quando o artigo é opcional. No Brasil, há quem diga "a Paula chegou" e há quem diga "Paula chegou", conforme a região e a intimidade com a pessoa. As duas falas são corretas. Se o artigo pode faltar, a crase pode faltar com ele.
A mesa do escritório segue a mesma lógica. "Voltei a minha mesa" e "voltei à minha mesa" estão certas, porque o possessivo feminino (minha, sua, nossa) aceita artigo antes dele ou dispensa. "Minha mesa está limpa" e "a minha mesa está limpa" significam igual.
O terceiro caso depende de uma palavra só: até. "Fui até a porta" e "fui até à porta" estão corretas. Até já é preposição e pode andar sozinha ou acompanhada da preposição a, na locução até a. Em Portugal, a forma dupla é a mais comum, e lá se escreve "até ao portão" onde o Brasil escreve "até o portão".
Os três casos têm um traço comum: nenhuma regra obriga o artigo, e nenhuma o proíbe. As gramáticas de referência, como a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, publicada em 1985, tratam os três como crase facultativa (opcional).
As bancas de concurso gostam do tema pelo mesmo traço. A questão mostra "à minha mesa" e pergunta se o acento está errado; quem decorou que possessivo nunca leva crase marca a opção errada. Em outra prova, a frase sem acento aparece como correta, e quem acha que nome de mulher sempre pede crase também perde o ponto.
A primeira seção mostra de onde vem a liberdade de cada caso. A segunda traz os limites, onde a opção some e o acento vira obrigatório ou proibido. A terceira monta um teste para decidir na hora da prova.
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I A Dúvida do Dia
Um artigo que vai e volta
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Por que o artigo pode faltar.
O artigo antes de nome de pessoa é um traço de região e de intimidade. Em muitas cidades brasileiras, ouve-se "a Paula ligou" na conversa de todo dia. Em outras, o nome aparece sozinho: "Paula ligou". A gramática não escolhe uma das falas e, por consequência, aceita as duas grafias na crase.
O artigo, nesse uso, marca proximidade. Diz-se "a Paula" para a colega de trabalho, a prima, a vizinha. Para mulher célebre, sem convívio, a norma culta dispensa o artigo: "o professor fez referência a Cecília Meireles", sem acento, como se escreve "referência a Machado de Assis".
O registro também pesa. Num ofício ao juiz, "encaminhe-se a cópia a Maria Aparecida Souza" sai sem acento, porque o texto formal costuma dispensar o artigo diante do nome completo. Na mensagem para a equipe, "manda o arquivo à Paula" soa natural, e o acento vale.
O possessivo tem história parecida. Minha, tua, sua, nossa e vossa podem vir antes do substantivo com artigo ou sem ele. "Minha casa" e "a minha casa" convivem na fala e na escrita, sem diferença de sentido nem de registro.
Quando a frase pede a preposição a, as duas formas geram as duas grafias. "Voltei a minha mesa" junta só a preposição ao possessivo. "Voltei à minha mesa" junta a preposição, o artigo e o possessivo. O acento registra a presença do artigo, e a ausência dele também é correta.
Até funciona por outro caminho. A palavra é preposição por conta própria e indica limite: "andei até a esquina". Ela também forma a locução até a, com as duas preposições em fila. Quando o substantivo seguinte é feminino e leva artigo, a locução encontra o artigo, e a crase aparece: "andei até à esquina".
O masculino mostra a diferença com clareza. "Andei até o portão" usa até sozinho, seguido do artigo o. "Andei até ao portão" usa a locução, com a preposição a colada ao artigo. O Brasil prefere a primeira; Portugal, a segunda. No feminino, a fusão esconde a preposição dentro do acento.
Os horários seguem a regra do até. "O plantão vai até as 18h" e "o plantão vai até às 18h" estão corretas. Sem o até, o acento volta a ser obrigatório: "o plantão termina às 18h", porque terminar pede a preposição a e hora exata leva artigo.
Nos três casos, a liberdade tem a mesma origem: um elemento opcional antes do substantivo. No nome próprio e no possessivo, o opcional é o artigo; no até, é a preposição a. Quem sabe qual peça pode faltar entende por que o acento pode faltar junto.
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II A Regra
Onde o acento é livre, onde não é
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A crase é facultativa antes de nome próprio feminino, antes de pronome possessivo feminino no singular e depois da preposição até. Fora desses três casos, a liberdade acaba: o acento é obrigatório ou proibido.
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O possessivo tem um limite que a banca cobra com frequência. A liberdade vale quando ele acompanha o substantivo, como em "à minha mesa". Quando o possessivo ocupa o lugar do substantivo, o artigo é obrigatório e a crase também: "sua proposta é igual à minha", porque "a minha" ali substitui "a minha proposta".
O plural cria outra armadilha. "Enviei o convite às minhas amigas" tem preposição e artigo no plural. "Enviei o convite a minhas amigas" tem só a preposição. As duas estão certas. A forma "à minhas amigas", com acento e sem s, mistura as duas e está errada: o acento avisa que há artigo, e artigo no plural precisa do s.
A língua escrita usa o possessivo sem artigo desde os clássicos. O poema mais lido da escola brasileira abre com ele:
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"Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá."
Gonçalves Dias, Canção do Exílio, 1843
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O verso começa pelo possessivo sozinho, sem artigo, e soa natural para qualquer ouvido brasileiro. "A minha terra tem palmeiras" também seria correto, com outro ritmo. A mesma alternância explica "voltei a minha terra" e "voltei à minha terra", duas grafias certas para a mesma viagem.
Com nome de mulher, o limite aparece nas formas de tratamento. Dona e Vossa Senhoria não admitem artigo, e por consequência "entreguei o recado a dona Paula" sai sem acento. Senhora pede artigo, e a crase vira obrigatória: "entreguei o recado à senhora".
Nome de lugar segue outra lógica e fica fora da lista facultativa. Cidade que recusa artigo proíbe a crase: "vou a Curitiba". País que aceita artigo obriga: "vou à Itália". A pista está na volta: quem volta da Itália usa crase na ida; quem volta de Curitiba, não.
O até também tem fronteira. A liberdade só existe quando a palavra seguinte é feminina e aceita artigo. Diante de advérbio, pronome demonstrativo ou verbo, não há artigo para fundir: "esperei até amanhã", "li até esta página", "fiquei até ela sair". Nenhuma dessas frases admite acento.
O caso do até com hora pede atenção dobrada. "Das 8h às 18h" exige crase no segundo termo, porque "das" já traz o artigo e a simetria pede artigo nas duas pontas da faixa. Com até no lugar de "a", a opção volta: "das 8h até as 18h" e "das 8h até às 18h" passam.
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