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ED 051

2 leitores escolheram Crase facultativa. Aqui está.

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A Paula ou à Paula: a crase que a norma deixa em aberto

Antes de nome de mulher, antes de possessivo feminino e depois de até, o acento é opcional e as duas grafias passam na prova.

Relatório impresso com o acento de à Paula riscado a caneta vermelha.

O acento riscado na margem do relatório

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O revisor riscou o acento de "Entreguei o relatório à Paula" e anotou na margem: crase indevida. A frase estava certa antes do risco e continuou certa depois dele. Diante de nome próprio feminino, o acento grave (o sinal inclinado que marca a crase) é opcional, e as duas grafias valem.

Crase é a fusão de dois a num só: a preposição a, pedida pelo verbo, e o artigo feminino a, que acompanha o substantivo. Quem entrega, entrega a alguém, e a preposição vem daí. Se o substantivo aceita artigo, os dois se juntam e o acento aparece.

A dúvida nasce quando o artigo é opcional. No Brasil, há quem diga "a Paula chegou" e há quem diga "Paula chegou", conforme a região e a intimidade com a pessoa. As duas falas são corretas. Se o artigo pode faltar, a crase pode faltar com ele.

A mesa do escritório segue a mesma lógica. "Voltei a minha mesa" e "voltei à minha mesa" estão certas, porque o possessivo feminino (minha, sua, nossa) aceita artigo antes dele ou dispensa. "Minha mesa está limpa" e "a minha mesa está limpa" significam igual.

O terceiro caso depende de uma palavra só: até. "Fui até a porta" e "fui até à porta" estão corretas. Até já é preposição e pode andar sozinha ou acompanhada da preposição a, na locução até a. Em Portugal, a forma dupla é a mais comum, e lá se escreve "até ao portão" onde o Brasil escreve "até o portão".

Os três casos têm um traço comum: nenhuma regra obriga o artigo, e nenhuma o proíbe. As gramáticas de referência, como a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, publicada em 1985, tratam os três como crase facultativa (opcional).

As bancas de concurso gostam do tema pelo mesmo traço. A questão mostra "à minha mesa" e pergunta se o acento está errado; quem decorou que possessivo nunca leva crase marca a opção errada. Em outra prova, a frase sem acento aparece como correta, e quem acha que nome de mulher sempre pede crase também perde o ponto.

A primeira seção mostra de onde vem a liberdade de cada caso. A segunda traz os limites, onde a opção some e o acento vira obrigatório ou proibido. A terceira monta um teste para decidir na hora da prova.

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I  A Dúvida do Dia

Um artigo que vai e volta

Por que o artigo pode faltar.

O artigo antes de nome de pessoa é um traço de região e de intimidade. Em muitas cidades brasileiras, ouve-se "a Paula ligou" na conversa de todo dia. Em outras, o nome aparece sozinho: "Paula ligou". A gramática não escolhe uma das falas e, por consequência, aceita as duas grafias na crase.

O artigo, nesse uso, marca proximidade. Diz-se "a Paula" para a colega de trabalho, a prima, a vizinha. Para mulher célebre, sem convívio, a norma culta dispensa o artigo: "o professor fez referência a Cecília Meireles", sem acento, como se escreve "referência a Machado de Assis".

O registro também pesa. Num ofício ao juiz, "encaminhe-se a cópia a Maria Aparecida Souza" sai sem acento, porque o texto formal costuma dispensar o artigo diante do nome completo. Na mensagem para a equipe, "manda o arquivo à Paula" soa natural, e o acento vale.

O possessivo tem história parecida. Minha, tua, sua, nossa e vossa podem vir antes do substantivo com artigo ou sem ele. "Minha casa" e "a minha casa" convivem na fala e na escrita, sem diferença de sentido nem de registro.

Quando a frase pede a preposição a, as duas formas geram as duas grafias. "Voltei a minha mesa" junta só a preposição ao possessivo. "Voltei à minha mesa" junta a preposição, o artigo e o possessivo. O acento registra a presença do artigo, e a ausência dele também é correta.

Até funciona por outro caminho. A palavra é preposição por conta própria e indica limite: "andei até a esquina". Ela também forma a locução até a, com as duas preposições em fila. Quando o substantivo seguinte é feminino e leva artigo, a locução encontra o artigo, e a crase aparece: "andei até à esquina".

O masculino mostra a diferença com clareza. "Andei até o portão" usa até sozinho, seguido do artigo o. "Andei até ao portão" usa a locução, com a preposição a colada ao artigo. O Brasil prefere a primeira; Portugal, a segunda. No feminino, a fusão esconde a preposição dentro do acento.

Os horários seguem a regra do até. "O plantão vai até as 18h" e "o plantão vai até às 18h" estão corretas. Sem o até, o acento volta a ser obrigatório: "o plantão termina às 18h", porque terminar pede a preposição a e hora exata leva artigo.

Nos três casos, a liberdade tem a mesma origem: um elemento opcional antes do substantivo. No nome próprio e no possessivo, o opcional é o artigo; no até, é a preposição a. Quem sabe qual peça pode faltar entende por que o acento pode faltar junto.

 
 

II  A Regra

Onde o acento é livre, onde não é

A crase é facultativa antes de nome próprio feminino, antes de pronome possessivo feminino no singular e depois da preposição até. Fora desses três casos, a liberdade acaba: o acento é obrigatório ou proibido.

O possessivo tem um limite que a banca cobra com frequência. A liberdade vale quando ele acompanha o substantivo, como em "à minha mesa". Quando o possessivo ocupa o lugar do substantivo, o artigo é obrigatório e a crase também: "sua proposta é igual à minha", porque "a minha" ali substitui "a minha proposta".

O plural cria outra armadilha. "Enviei o convite às minhas amigas" tem preposição e artigo no plural. "Enviei o convite a minhas amigas" tem só a preposição. As duas estão certas. A forma "à minhas amigas", com acento e sem s, mistura as duas e está errada: o acento avisa que há artigo, e artigo no plural precisa do s.

A língua escrita usa o possessivo sem artigo desde os clássicos. O poema mais lido da escola brasileira abre com ele:

"Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá."

Gonçalves Dias, Canção do Exílio, 1843

O verso começa pelo possessivo sozinho, sem artigo, e soa natural para qualquer ouvido brasileiro. "A minha terra tem palmeiras" também seria correto, com outro ritmo. A mesma alternância explica "voltei a minha terra" e "voltei à minha terra", duas grafias certas para a mesma viagem.

Com nome de mulher, o limite aparece nas formas de tratamento. Dona e Vossa Senhoria não admitem artigo, e por consequência "entreguei o recado a dona Paula" sai sem acento. Senhora pede artigo, e a crase vira obrigatória: "entreguei o recado à senhora".

Nome de lugar segue outra lógica e fica fora da lista facultativa. Cidade que recusa artigo proíbe a crase: "vou a Curitiba". País que aceita artigo obriga: "vou à Itália". A pista está na volta: quem volta da Itália usa crase na ida; quem volta de Curitiba, não.

O até também tem fronteira. A liberdade só existe quando a palavra seguinte é feminina e aceita artigo. Diante de advérbio, pronome demonstrativo ou verbo, não há artigo para fundir: "esperei até amanhã", "li até esta página", "fiquei até ela sair". Nenhuma dessas frases admite acento.

O caso do até com hora pede atenção dobrada. "Das 8h às 18h" exige crase no segundo termo, porque "das" já traz o artigo e a simetria pede artigo nas duas pontas da faixa. Com até no lugar de "a", a opção volta: "das 8h até as 18h" e "das 8h até às 18h" passam.

 

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III  O Teste

A troca pelo masculino

1. Troque a palavra feminina por uma masculina equivalente. Paula vira Pedro; minha mesa vira meu lugar; a porta vira o portão.

2. Veja o que a frase aceita no masculino. Se aceita ao e também a, ou o e também ao depois de até, a crase é facultativa: "escrevi ao Pedro" e "escrevi a Pedro" valem.

3. Se o masculino só aceita ao, a crase é obrigatória. Se só aceita a, ou só o depois de até, ela é proibida.

Aplicado aos três casos do tema, o teste confirma a liberdade. "Escrevi a Paula" vira "escrevi a Pedro" ou "escrevi ao Pedro": facultativa. "Voltei a minha mesa" vira "voltei a meu lugar" ou "voltei ao meu lugar": facultativa. "Fui até a porta" vira "fui até o portão" ou "fui até ao portão": facultativa.

O teste também pega o possessivo que substitui o substantivo. "Sua proposta é igual à minha" vira "seu projeto é igual ao meu". "Igual a meu", sem artigo, soa truncado, e o masculino só aceita ao: acento obrigatório.

Pega ainda a mulher célebre. "O professor fez referência a Cecília Meireles" vira "fez referência a Machado de Assis". O masculino recusa ao, e a crase fica proibida na frase feminina.

Na prova, a questão costuma listar quatro frases e pedir a que tem erro de crase. As três facultativas raramente são o erro. O erro costuma estar no acento diante de verbo ("começou à chover"), diante de palavra masculina ("andar à cavalo") ou no plural sem s ("à minhas amigas").

Na redação, escolha uma forma e mantenha. Quem escreve "à Paula" no segundo parágrafo e "a Paula" no quinto não fere a norma, mas passa ao corretor a impressão de descuido. A coerência dentro do texto conta tanto quanto a escolha.

Antes de nome de mulher, antes de possessivo feminino no singular e depois de até, a crase é livre; no possessivo que substitui o substantivo, diante de senhora e na faixa de horário com das, ela é obrigatória.

"Na última mensagem em que você citou uma colega pelo nome, o acento entrou ou ficou de fora?"

Confira antes de enviar: a Paula e à Paula, as duas certas,
até a porta e até à porta, as duas certas,
igual à minha, com acento sempre.

 
 
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