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A negação puxa o pronome para a frente
Depois de não, nunca e ninguém o pronome sai das costas do verbo e volta para antes dele, e a banca cobra a troca em item de colocação.
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O aviso do balcão com o pronome trocado
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Sete e meia da manhã, recepção de uma clínica de bairro, a atendente cola no vidro do balcão a folha impressa na noite anterior. A frase do meio, em corpo grande para quem chega de longe, pede que o paciente não esqueça-se de confirmar a consulta com dois dias de antecedência.
O pronome se foi parar depois do verbo porque a mão de quem digitou seguiu o ritmo da fala formal, aquela que soa cuidadosa em aviso público. A palavra não está ali, a três letras de distância, e é ela que já tinha resolvido a posição do pronome antes de a frase chegar ao verbo.
A colocação pronominal não decide pelo som nem pelo grau de formalidade do texto. Ela olha o que existe à esquerda do verbo, e uma palavra de negação nessa vizinhança puxa o pronome para a frente, sem exceção e sem depender do resto do período.
Não se esqueça de confirmar a consulta é a linha correta, com o pronome entre a negação e o verbo. Não me diga, nunca se sabe, ninguém a viu sair, nada me convence: em todas, o pronome ocupa o mesmo posto, encostado no verbo pelo lado de dentro da frase.
O erro do balcão tem origem clara. A ênclise, o pronome depois do verbo, carrega ar de língua escrita cuidadosa, e quem redige aviso, ofício ou comunicado tenta subir o registro empurrando o pronome para trás. A troca sobe o tom e derruba a norma no mesmo movimento.
A banca de concurso monta o item exatamente sobre essa tentação. Ela escreve uma frase negativa, oferece a versão com o pronome atrás do verbo entre as alternativas e conta que o candidato escolha pelo ouvido, porque a linha errada soa mais solene do que a linha certa.
A questão de hoje começa por quatro avisos quase iguais, todos com a mesma negação e o mesmo pronome em posições diferentes. Depois vem a regra que lista as palavras que atraem o pronome, e o teste que resolve a colocação antes de a folha subir no vidro.
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I A Dúvida do Dia
Quatro avisos com o mesmo pronome
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Três letras antes do verbo.
A dúvida cabe em quatro linhas quase iguais: não se esqueça de confirmar a consulta, não esqueça-se de confirmar a consulta, não esqueça de se confirmar a consulta, esqueça-se não de confirmar a consulta. As quatro saem de material real, de cartaz de recepção, de mensagem automática, de circular interna e de legenda de rede social.
Só a primeira passa na norma escrita e as outras três caem na correção, e a diferença não tem nada a ver com o tamanho do aviso nem com o grau de formalidade que ele tenta ter. O que decide é a palavra que está imediatamente à esquerda do verbo.
Não se esqueça de confirmar a consulta é a única linha correta. A negação abre a frase, o pronome se vem logo depois dela, o verbo esqueça fecha a sequência, e as três peças ficam nessa ordem em qualquer aviso que comece por uma palavra negativa.
Não esqueça-se de confirmar a consulta é o desvio mais comum do texto de atendimento. O pronome saltou para trás do verbo em busca de um tom mais cerimonioso, passou por cima da negação que já tinha resolvido a posição e deixou a linha com um erro que a leitura em voz alta não denuncia.
Não esqueça de se confirmar a consulta é o desvio de quem tenta consertar sem entender a regra. O pronome mudou de verbo, foi encostar no infinitivo confirmar e mudou o sentido da frase, porque quem se confirma é a pessoa, e o que precisa de confirmação é a consulta.
Esqueça-se não de confirmar a consulta é a versão que embaralha a ordem inteira. Ela aparece em texto traduzido às pressas e em legenda escrita para caber no espaço, joga a negação para depois do verbo e deixa uma frase que nenhum falante produziria em voz alta.
A vizinhança do cartaz amplia o problema porque o mesmo mural traz outras frases negativas. Nunca deixe-se levar pela fila da manhã, ninguém atenderá-lhe sem cadastro, e as duas repetem o erro do aviso principal com outras palavras de negação na abertura.
A mensagem automática do celular é onde a linha custa mais barato e aparece mais. O texto de confirmação sai com nunca perca-se do horário, o paciente lê sem estranhar, e o mesmo desvio circula em centenas de telas por semana sem que ninguém corrija.
O item de prova multiplica a armadilha com distância. Ele afasta a negação do verbo com um advérbio ou com um complemento no meio, escreve não, em nenhuma hipótese, deixe-se levar, e conta que o candidato perca de vista a palavra que comanda a colocação.
Quem cola no vidro o aviso com o pronome atrás do verbo passa o mês sem consequência nenhuma. Quem presta concurso descobre o preço na correção, porque o item costuma trazer exatamente a linha de aparência solene entre as alternativas, e ela é a única que não resiste à leitura da palavra anterior ao verbo.
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II A Regra
A palavra de negação manda no pronome
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Palavra de sentido negativo antes do verbo exige próclise, o pronome colocado entre ela e o verbo. Não, nunca, jamais, nada, ninguém, nenhum e nem comandam a posição, e a ênclise depois delas é erro de norma, por mais formal que a frase pareça.
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A regra tem duas decisões e as duas são rápidas. A primeira é olhar a palavra que abre o trecho e verificar se ela nega. A segunda é colocar o pronome logo depois dela, colado ao verbo pelo lado esquerdo, e a frase sai pronta dessa verificação.
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"Atraem o pronome átono, exigindo a próclise, as palavras de sentido negativo: não, nunca, jamais, nada, ninguém, nem, nenhum."
Domingos Paschoal Cegalla, Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, 48ª edição, 2008
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A formulação do gramático trata a negação como palavra atrativa, e não como detalhe de sentido. Ela puxa o pronome para si do mesmo jeito que puxam os advérbios, os pronomes relativos e as conjunções subordinativas, e o candidato que decora a lista das atrativas resolve a família inteira de itens.
A primeira situação é a da negação colada no verbo, a mais frequente do texto de aviso: não me diga, nunca se sabe, jamais o vi, nada me convence. Todas trazem a palavra negativa na abertura e nenhuma admite o pronome depois do verbo.
A segunda situação é a do sujeito negativo, que passa despercebido porque não começa com não. Em ninguém me avisou da mudança e em nenhum funcionário se apresentou até agora, o sujeito é a própria palavra negativa, e ela atrai o pronome com a mesma força.
A terceira situação é a da negação com palavra intercalada, a que derruba mais gente na prova. Em não, em hipótese alguma, se aceitam atrasos, a negação continua comandando mesmo separada do verbo por um trecho entre vírgulas, e o pronome fica antes do verbo do mesmo jeito.
A quarta situação é a da locução verbal, que abre uma alternativa legítima. Em não me vou esquecer e em não vou me esquecer, as duas posições passam, porque o pronome pode encostar no auxiliar ou no principal, e o que continua proibido é a ênclise no auxiliar, como em não vou-me esquecer.
Um detalhe fecha o quadro e resolve a dúvida do cartaz. Quando a negação some da frase, o comando some com ela, e o mesmo verbo volta a aceitar o pronome atrás, como em esqueça-se do horário, que é a linha correta justamente por não ter palavra atrativa nenhuma antes.
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